Pe Fabio de Melo Amar
Noturno
Lá fora o luar continua
E o trem divide o Brasil
Como um meridiano
Amar na distância.
Hoje não vou te dar boa noite!
Pois sei que só verás amanhã o meu recado.
Queria te dizer que não consegui dormir.
Fiquei com medo.
Tentava dormir, mas o sono teimava em não vir.
Fiquei triste!
E agora?
O que fazer sem o sono?
Sem ele não há sonho.
Sem o sonho apenas saudade.
Saudades? Tive uma ideia!
Suas fotos.
Achei!
Fiquei horas olhando para elas.
Os meus olhos foram fechando.
Oi! Como você veio parar aqui?
Como entrou no meu quarto?
Não contive as minhas mãos.
Seu rosto!
Sua boca!
Por que você está indo embora?
Ops! Fiquei triste de novo.
Era um sonho.
Tive uma ideia!
O sonho!
Posso sentir o seu perfume.
Nossa! Sonhei de novo!
Já sei! Minha cama.
Lá eu consigo ficar perto de você.
Mesmo longe.
Mesmo sendo sonho!
Amanhã?
Não quero o sol.
Quero mais uma vez a lua.
O sol me chama.
A lua traz meu sono.
Meu sonho.
Você!
Beijos!
Estou com sono.
Vou sonhar.
Vou te encontrar.
Para sempre.
Sem ser sonho.
Um dia!
que pode uma criatura senão,entre criaturas,amar?
Amar e esquecer,Amar,desamar,amar?
Sempre,e até de olhos vidrados,amar?...
Eu sou feliz, cara. Eu sou feliz demais. Mas eu sou infeliz demais, quando penso em você. Quando penso no que poderia ser, no que poderia ter sido. Eu sei que não dá. Eu nem quero que dê. Não quero mais. Mas não sei o que fazer com esse nó. Vai passar né? Eu sei. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem sofrer, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Tomara que passe logo.
Nasci dura, heróica, solitária e em pé. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A feiura é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu – eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.
Não importa quantas vezes seu coração foi quebrado, um dia aparece alguém para colar todos os pedaços, da melhor forma possível.
A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa. Ela toma banho comigo quando a água leva embora coisa ruim e renova a alma e dorme ao meu lado quando eu descanso.
Muito bem. Agora sou um homem sem comida, com dois dedos a menos na mão e um a menos no pé do que tinha quando nasci; sou um pistoleiro com balas que não podem disparar; estou passando mal por causa da mordida de um monstro e não tenho medicamentos; tenho água para um dia com sorte; posso conseguir andar talvez uns vinte quilômetros se puser em ação minhas últimas forças. Sou, em suma, um homem à beira de qualquer coisa.
