Palavra Sábia
RETOQUE
Poderia começar dizendo que sou um romântico,
Tudo que você sabe de mim ou de ouvir falar...
Na verdade eu vivo de retoques, só que as vezes dou cores demais
ao que era apenas preto e branco...
mas quando eu amo... pelo menos quando eu amo eu sou sincero...
bem, acho que não sou um bom partido
hoje em dia, as pessoas precisam mais de status do que de sonhos
e se você tivesse de escolher entre queijo e amor...
sem querer dizer que você é um rato,
acho que você escolheria queijo.
Isso não lhe deve deixar constrangida,
O que você pensa ser monólogo pode ser uma ratoeira,
Mas se você saiu ilesa, se você saiu inteira
Você realmente é um roedor...
Claro que isso é só mais um retoque...
Desculpe o mau jeito de um semeador de sonhos
Desta desvirtude você não sabia nem ouviu falar
Mas quem pode saber tudo de um romântico?
As vezes ele se confunde com suas fantasias e coisas tão abstratas...
As pessoas precisam apalpar, as pessoas precisam de chão como apoio...
Os céticos aproveitam as coisas até onde terminam
E nos românticos sabemos que, onde termina para eles
Para nós apenas começa e tem o infinito como limite...
É como voar como uma gaivota, não se debater como morcegos,
Desculpe a insistência, voltando aos ratos...
Fica esse devaneio em forma de verso,
O verso em forma de beijo,
O resto é o que você não pode saber do sonhador;
Fantasias... coisas tão abstratas...
Você nem sabe o que é solidão
Por ser assim tão bela,
Tem sempre alguém a tua disposição
Em alguma janela...
CIO
sabe como olhar,
como andar,
quando olhar,
caminha na minha frente
como se eu fosse santo,
fala comigo como se eu fosse o seu amo,
se abaixa como se eu fosse cego,
senta na minha frente
como se eu fosse de ferro,
eu também sei sonhar,
eu tenho um coração e um tênis,
não aguento mais maracujina,
pra essa febre só novalgina,
sorri pra mim como se eu fosse um beato,
me toca como se eu fosse Buda
esquece o decote,
o perfume que exala,
minh’alma se perdendo,
minha língua pedindo...
não percebe o desejo consumindo,
chega tão perto que eu farejo o cio...
O COLHEDOR DE OLHARES
Os seres de orion sabem desta insensatez,
Desta paixão, dessa sensibilidade
De colhedor de risos e olhares
Desta mania de contemplar
O inquietante, o esplêndido, o luminoso...
Andrômeda sabe desta qualidade
De perceber o que me inquieta,
O que me fascina, o que ilumina
Sei perceber a noite caindo como uma aeronave,
Esplendida e luminosa;
O que me inquieta
É o gotejar incessante dalguma torneira...
O soluçar angustiante de alguma criança
Rasgando o véu da noite
Nessa eternidade, entre um pingo e outro,
Entre um soluçar e uma lágrima
Se fez ruir Pompeia e cair Babilonia;
Nesse universo os deuses desfalecem,
Os impérios tombam,
A bela e a fera se apaixonam
E a poesia se edifica
Alicerçada pelas constelações, pelas flores
Fazendo germinar risos e olhares...
Quero voltar pra África, mãe...
Quero voltar pra Mãe-África ...
Não quero mais saber de canavial,
Não quero mais saber,
De cana ou de engenho,
Não quero mais saber,
De presentes do senhorzinho...
Vi meu irmão no tronco,
Meu pai na plantação,
E meu irmão mais novo,
Tem olhos claros e cabelo louro...
Mãe, sinhá anda esquisita pro meu lado,
Senhorzinho deu-me de presente
Um cordão de ouro,
Ando sentindo enjoos,
Não sei do que se trata
Mas acho que não é coisa boa
Será que tem a ver com os banhos
Que tomo com o senhorzinho na lagoa?
Mãe o que é miscigenação?
Senhorzinho falou algo parecido,
tirou o meu vestido
E disse que era parecido com paixão...
Pega o meu olhar caindo na diagonal das suas ancas
meu pensamento lhe chamando de potranca
sabe que eu sou criança
e canso fácil de um brinquedo
ou tenho medo de escuro
descobre o meu delírio no seu decote
os sutiãs da côte d’azur sentem falta dos seus seios
suas águas azuis cristalinas
banhariam a menina que tem nesse corpo
e se eu não fosse poeta seria prostituto
um puto qualquer escravo de todos estes instintos
que me escravizam a paixão
INVISÍVEL
Essa cidade não sabe que eu sou de outro planeta
Que viajei na reluzente calda de um cometa
Sob uma chuva perene de meteoros incandescentes
Essa gente não sabe do que tenho
E não tenho e do que sou capaz...
Quando a solidão do inabitável
Castigava a terra com restos de estrelas.
A luz se impunha as trevas,
Então o Filho pregou o amor
E a justiça sobre as montanhas,
Esse soneto divino que é o existir
Não permitira ainda o orvalhar romântico
Sobre os jardins de Amsterdam,
Antes Moisés conduzira o êxodo
Sob o causticante sol do deserto
Eu estava longe de tudo e perto do nada,
E quanto mais perto de tudo,
Mais você se torna invisível,
As pessoas só veem o que lhes interessam...
Essa cidade não ouve nem lê
O que eu escrevo ou declamo
Não sabe dessa ternura mórbida
Que sacrifica os santos...
Eu tenho moléculas de hidrogênio e oxigênio,
Eu tenho a luz dos astros
E a melancolia impressa no olhar
Eu tenho a devoção dos mártires...
Essa cidade nada sabe de mim
Enquanto a lua dança num eclipse
E o arco Iris listra o firmamento
O apocalipse se revela...
Silenciosamente eu canto,
Eu toco um violino e a harpa...
Uma harpa angelical me acompanha...
o que penso que quero saber
é saber dessas coisas que nada sabem
porque florescem os cactos em meio a tantos espinhos
porque tulipas florescem tão próximo às urtigas
essas coisas que a gente pensa que nada sabem
e não sabemos que o sapo conquistou o universo
e ele nem quer saber como soletrar insetos
tem um jogo de língua, e se alimenta de asteróides
mas não quer saber...
saber como o peixe palhaço se caracterizou
mas imagina a sereia com aquela cauda
a fauna se apaixonou
e surgiram cavalos marinhos, peixes-bois
peixes leões, os bichos invadiram o fundo do mar...
mas quem quer saber disso
saber é o inverso do inverso do reverso da ignorância
saber saber é ignorar a ignorância...
a serpente rasteja, é cega e no paraíso enganou Adão e Eva
então se descobriram despidos...
sem saber que aquilo era paixão
mas o que eu penso que quero saber
é saber exatamente o que não quero
Você não sabe que depois vem outro dia
Com outras paisagens e outros ocasos,
A vida é transitória e o nosso orgulho pune a alma,
Depois vem outro dia com outras necessidades
Uma sensibilidade maior vai te fazer perceber
O que verdadeiramente é belo
O que verdadeiramente soa bem aos ouvidos;
Nesse tempo o grasnar das gralhas vai ferir teus tímpanos
E a primavera de cigarras e pardais vai estar bem distante...
VOCÊ SABE ONDE FICA O BERIMBAU DO GOZA?
Seu Iteovaldo tentou explicar
Mas aos 85 anos já não lembrava direito:
"_Era um lugar bonito, de riso e de grito e admiração..."
O adolescente esperava ansioso
Sem querer saber de toda aquela prosa:
"_Só queria saber onde fica o berimbau do goza..."
_"Tem borboletas e passarinhos...
Tem uns ninhos e outros bichos e tem dois montinhos..."
Era meio poético falar assim,
Mas seu Serafim, bem vivido e bem sucedido
Imaginou que seria melhor compreendido:
_"Você desce uma alameda e tem uns matinhos
Que metem medo, mais pelos segredos que pelos perigos;
Foi assim comigo, tinha um fogaréu, vinha um vendaval
Mas depois dali estaria o berimbau..."
_"Sei não, começou seu Rui, que tinha algo de Barbosa
Comigo foi fácil achar o berimbau do goza;
Fui com Serafina, que era cega,
Surda e muda, e tateava tudo
E perguntava o tempo
E desfrutava a brisa e o calor da manhã,
O barulho das águas e o cantar das aves...
E era tão lindo aquele caminho,
Que o tempo voou e chegou a noite,
Surgiu uma nave de brilhos bonitos,
Improvisei uma rima pra Serafina
Que luzia como um vagalume,
Falava e via e me escutava,
Num impulso catei meia dúzia de rosas
Naquela magia ela já levitava,
Gemia algo que eu não entendia,
Mas lhe deixava formosa
Acho que era ali o berimbau do goza...
BABY, YOU LOOK SO FINE
Sabe aqueles cinco minutos de ansiedade mórbida
De quando se espera a pessoa amada no primeiro encontro,
Aquilo é pressa de viver
E quando a neblina cai, o trem apita, alguém esbarra
E a cigana te cerca insistindo em ler a tua mão,
Sou analfabeto e bruto nesse tipo de emoção;
Nada quero do futuro, hoje mesmo eu morro de prazer,
Hoje mesmo terei o prazer de morrer de amor;
Ah seus olhos são verdes, que coisa linda!
As colinas descem ao meu umbigo e eu digo
Vermelho de paixão: não para agora, agora não;
O mundo pode ser tão belo, a vida pode ser tão boa...
O trem apita, alguém esbarra,
A cigana mente e continua a garoa...
Baby, baby... you look so fine, mas não demore tanto,
Não demore nunca mais, eu tenho taquicardia
Eu sou uma criança e a esperança desce o morro
O teu olhar é o meu socorro, disso eu não morro
Nem que meu coração bata mil vezes por minuto
E por mais que essa agonia, essa pressa de viver pareça absurdo
Eu cavalgo sobre o meu coração ao pulsar dessa taquicardia
E é isso que move os meus dedos em direção a poesia...
Felicidade?
-sabe essa procura incessante,
Essa luta desgastante, esse turbilhão de emoções :incertezas, receios, insegurança...
Esse vai e vem incessante da luta do cotidiano na batalha por realizações. ..
Quando tudo isso passar algum dia, você vai dizer: ah, eu era feliz e não sabia...
Sabe, o pessoal da praça que contava estrelas sob marquises...
aquelas esquisitices de pular, cantar e plantar bananeiras
como se tudo fosse muito engraçado,
como se tudo fosse brincadeira
como se fossemos muito felizes
como se os restos do restaurantes
e alguns pedaços de sanduíches
tornassem nos fortes para olhares de desprezo,
para o frio de maio e junho
ou uma, ou outra bala perdida...
morremos um pouco, ou morremos muito
mas a desigualdade se multiplica
e faltam calçadas, faltam marquises,
faltam olhares para seres tão ínfimos
e o que nos protege da dor,
o que nos protege da dor de existir, é a dor dessa dúvida,
é exatamente esse gume, caminhar sobre essa navalha
são as estrofes, cada dia sem nenhuma morte,
e que poema é esse?
esse é o poema da dor,
o poema que nunca termina, que a gente rima
e a gente declama
o poema da dor da exclusão...
Sabe, não sou o que se sabe por aí...
melhor nem saber
mas se o mundo se acabar
eu vou me equilibrar na linha do horizonte
entre o absurdo e o navegável
como as ilusões...
