Os Velhos Carlos Drummond de Andrade
Canta de um estudante de Direito
"Prezada, vossa excelência que me tirou o juízo,
peço-te a máxima atenção para esta humilde petição inicial.
A saber:
quando poderemos arrolar nosso processo?
Requeiro vista da minha confessa ignorância
para saber se devo ipetrar a ti um
abscorpos ou absdata,
que nos assegure o acórdão de tal data,
sem litígios, sem recursos
e, se possível, com sentença favorável
ao coração." (CH²)
... Minha sensação de grandeza se emaranha de singelezas.
Como a memória da água, por entre rios, a retornar a nascente.
Como quando nos sabemos finitos, refazendo-nos começos.
E se é tão grande, como os olhos que se
traduzem no peito..."
"...Se eu entendesse como se cria o tempo,
deixaria que por vezes te fosses,
enluarando noites ou desabrochando dias,
pois depois saberia te encontrar,
numa qualquer manhã do infinito...'
Carlos Daniel Dojja
In Poemas para Crianças Crescidas
"...Despertei com minha pele,
revestida da memória de tuas mãos..."
In Fragmento Poema Despertei
Carlos Daniel Dojja
O TEMPO DAS PALAVRAS
O tempo me entregou palavras.
Ora cruas, abertas em veias,
escorridas em derivados.
Quando as toquei, já estavam apegadas.
já haviam se aprontado de raízes,
impregnadas de sais e pés amanhecidos.
Poderia garimpar aparamentos,
entre as horas tremulas e as certezas movediças.
Poderia reparar atrelamento, deixar que ficassem sem face.
Em vão tateei o criador de palavras.
Elas já haviam se cingido em mim.
Meu rosto passou a ser as palavras que colhi.
Carlos Daniel Dojja
"...Minhas inquietações desfiam-se visíveis.
Confesso-me indisciplinado com as formalidades do risco.
Em quase tudo me arde, o que suponho merecer.
E se não o sentir, não me impele o fio a tecer.
Tenho dificuldades com prognósticos do viver pré-definido.
Não uso decifrador de tempo, para embeber-me do instante.
Declaro-me avesso, em não desfrutar, o que o momento instaura.
E quando me chega, pousa em minhas mãos, como num desenleio da alma..."
In Fragmento Poema Ousadia
Era assim:
A só mareava, por terras tantas que se partiam,
que o mundo em que minha voz habitava,
ao invés de nascer, se escondia.
Agarrei-me então as palavras,
doces, ferozes, cristalinas,
e o cio do tempo desabitado,
Tornou-se num dedilhado,
cordas que entoavam,
o coração em fogo vivo.
"Descobri-me Rio que não cessa.
Meu estar é sempre indo.
Avistando templos ou morando em Ocas,
Minha pátria são as gentes,
Que se sonhamno mundo"
Insisto: Onde teus olhos pousaram?
No voo das lágrimas que na cordilheira deságua?
Entre as bordas tecidas no braseiro do tempo,
Ou agora, quando esvoaçam as borboletas no cio do teu ventre.
Atrevo-me, em dar-te a resposta,
irreal para os que descreem:
- Vi teus olhos plantando sementes em meu peito.
Às vezes me empresto vôos. Vou-me indo, com a percepção de que posso lançar-me a descoberta.
Nunca sei o que virá depois que o passado do vento e o presente das nuvens se fundem.
Teimo em fingir-me capaz de atingir infinitudes, parir-me de acontecimentos.
Desde isso, ponho-me asas estradeiras e olhares para o mais além do ver.
E eu já então, descabidamente encantado,
Apenas me sabia, ao traduzir-me fecundado,
Que mesmo a passar a só, a esperar a moça que viria,
Ela com o coração entreaberto de mim não partia.
As imagens em preto e branco sussurravam.
Havia uma voz intima em cada canto.
Ouvi novamente minha mãe a perquirir:
- Sabes para que servem as andanças?
Para que possamos volver a casa,
Onde fundamos despertares.
In Poema " A CASA"
Não deve ser por outra razão, senão a da nobreza imorredoura da poesia, que Byron e tantos outros, revelaram em seus muros que “aqui não se morre, passa-se vivo para o outro lado”, condição inequívoca, como nos brindou Saraiva, reiterando que “qualquer que seja o futuro, continuará a haver noites de luar, Sintra e o Tejo a correr para o mar”
In Carta a Laura Saramago
Sou péssimo em recomendar metades.
Apraz-me pretender atingir a inteireza, elevar-me a completude do sentir e bem dizer de sua amplidão.
Almejo postular sua infinitude, como tecelão do tempo que não esta à beira da impermanência do fazer-se.
Eu foquei em coisas que não existiam, te deixei de lado te perdi, me perdi e fui exilado, ando sem rumo perdido sem forças para viver, sem sentimentos para poder sorrir, sem motivação para conseguir viver.
No primeiro tombo que você leva, você aprende a andar.
No segundo tombo que você leva, você aprende a nadar.
No terceiro tombo que você leva, você aprende a voar.
Neste ponto você aprendeu a lição.
