O Homem e seus Instintos
O homem teme o silêncio do universo e, muitas vezes, preenche esse silêncio com certezas que dizem mais sobre seu medo do que sobre o cosmos.
A psicologia descobriu que o homem não decide como imagina; o marketing descobriu como lucrar com essa descoberta; o Direito ainda investiga como protegê-lo sem negar sua liberdade.
O homem começa a ser livre quando ousa perguntar se os valores que recebeu merecem continuar governando sua vida.
Há um instante em que o homem deixa de obedecer às verdades recebidas e começa a escrever as suas próprias perguntas.
O homem raramente obedece à razão que proclama; primeiro é conduzido pelas paixões, depois convoca a inteligência para transformar seus desejos em argumentos e o Direito em justificativa.
O homem não é governado apenas pelas leis que o Estado escreve, mas pelas paixões que a consciência oculta; frequentemente, a razão apenas fornece ao desejo a linguagem sofisticada com que ele se absolve.
“A liberdade começa quando o homem deixa de ser objeto das vontades alheias e se reconhece como fim em si mesmo; o Direito existe, em sua forma mais elevada, para impedir que qualquer poder lhe retire essa condição.”
A razão não reina sobre o homem; muitas vezes apenas redige, em linguagem lógica, os decretos secretos de suas paixões.
O homem deseja certezas porque o desconhecido lhe parece um tribunal sem juiz; então inventa deuses, teorias e sistemas para preencher o silêncio.
Não é a ausência de respostas que assusta o homem, mas a possibilidade de que o universo não tenha obrigação alguma de fornecê-las.
O homem deseja conhecer o absoluto, mas carrega dentro de si uma razão construída para navegar apenas pelas margens do possível.
A autonomia começa quando o homem deixa de obedecer cegamente à tradição, ao medo e ao desejo e passa a interrogar a legitimidade de cada comando.
A dor é estranhamente democrática: não escolhe entre culpa e acaso, homem ou animal. Chega, fica e cobra o seu preço.
O homem inventa absolutos para não suportar a vertigem de descobrir que muitos de seus valores possuem uma história
O poder mais sofisticado não é aquele que obriga o homem a obedecer, mas aquele que o convence de que sua obediência nasceu de sua própria vontade.
Entre a norma que ordena e a consciência que questiona existe o território onde o homem começa, finalmente, a tornar-se autor de si mesmo.
A humildade epistemológica não diminui o homem; apenas impede que uma criatura finita se proclame proprietária do infinito.
O homem procura sentido no universo porque talvez seja incapaz de aceitar que o universo não tenha sido escrito especialmente para ele.
O homem pode dominar territórios, riquezas e exércitos; permanece, porém, estrangeiro enquanto não aprender a habitar a própria consciência.
