Nunca Magoe uma Mulher

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A inteligência se desenvolve exponencialmente. É uma progressão geométrica.

Nostálgico


Nesta manhã, eu encontrei uma bergamota bem doce e sumarenta
Arauto do outono, filha de uma árvore perdida na planície
Quem me dera voltar, e depois acordar no que já era
Fazendo disso a atualização da saudade

Hábito


O que o músico, o desenhista, o escritor, o artista, precisam aprender é assumir uma atitude. É se colocar numa postura de nada decorar memórias, de não acumular procedimentos. É começar, neste instante, o que os mestres descobrem no final das suas vidas. A segurança, a certeza que vem justamente do que estão fazendo. Fazer graciosamente é o suporte, e não o amontoar de vivências. A Vida pulsa agora, agarremos a sua cauda! A Arte é o que surge neste instante. O que devemos aprender é aprender como livrarmo-nos daquilo que aprendemos.

A dor é uma forma de se procurar o prazer.
Aonde existe o prazer não há dor.

Uma pessoa complicada é rica em caminhos misturados, uma pessoa simples é uma mistura de caminhos ricos.

Deus não é uma ideia, é um sentimento.

É preciso um pequeno ajuste, que pode durar uma eternidade.

Era só uma dor de barriga, mas acreditou que era câncer. E morreu.

A inteligência é uma estratégia para aumentar a inteligência.

A memória é as emoções. Quanto mais repetimos mais chance temos de encontrar uma resposta emocional, mais chance temos de lembrarmo-nos. Assim, com o tempo, tudo será lembrado.

O pensamento é instintivo.
O conteúdo é uma forma.
O Estado é uma iniciativa privada.

É uma troca de idéias: a polícia coloca os cavalos em cima dos manifestantes que resistiram ao gás e esses mostram a confiança nos seus argumentos de paus e pedradas.

A arte é fazer uma simulação. É fingir que se sabe o que não podemos saber. Assim, se cria. Compartilhar é o segredo, é dar muito mais do que recebemos, é se doar por sermos senhores de si.

Agora fiz uma coisa boa para o universo. Quantas dessas devo ter feito que não notei e valorizei?

A dúvida é um rascunho, uma versão improvisada da verdade.

Uma das maiores fontes de sofrimento é esperar que alguém sinta por nós aquilo que sentimos por ela. Aprendi que sentimentos não se negociam, não se cobram e não se impõem. Quando não existe reciprocidade, é preciso aceitar e seguir.

"Nem toda decepção merece uma reação. Algumas merecem silêncio"


@gmajordeus

“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos de Quem Me Ama”

Existe uma versão de nós que talvez nunca consigamos conhecer completamente.

Ela não mora no espelho.
Não aparece quando nos examinamos em silêncio.
Não se revela nas noites em que contamos nossos erros, nossas perdas e tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.

Essa versão mora nos olhos de quem nos ama.

É curioso: passamos a vida inteira dentro de nós mesmos e, ainda assim, talvez sejamos as pessoas menos imparciais para dizer quem somos.

Conhecemos demais as nossas fraquezas.

Sabemos onde escondemos nossos medos, lembramos das palavras que gostaríamos de retirar, das oportunidades que desperdiçamos, das promessas que fizemos a nós mesmos e não cumprimos.

Carregamos os bastidores da própria existência.

Os outros, porém, muitas vezes enxergam o palco.

Enquanto eu me lembro das vezes em que quase desisti, alguém se lembra de que continuei.

Enquanto eu me condeno por ter sentido medo, alguém me considera corajoso justamente porque me viu caminhar apesar dele.

Enquanto eu penso que fiz tão pouco, talvez exista alguém guardando na memória uma palavra minha que chegou exatamente quando precisava.

E talvez seja essa uma das maiores ironias da existência:

somos capazes de transformar a vida de alguém sem perceber que fizemos isso.

Há pessoas que carregam uma versão nossa muito mais bonita do que aquela que carregamos dentro de nós.

Não porque estejam cegas.

O amor verdadeiro não é cegueira.

Talvez seja justamente o contrário.

Amar alguém é enxergar suas imperfeições e, ainda assim, não reduzir essa pessoa a elas.

Nós fazemos isso conosco o tempo inteiro: pegamos um erro e transformamos em identidade.

“Eu fracassei” lentamente se transforma em “eu sou um fracasso”.

“Eu tive medo” transforma-se em “eu sou covarde”.

“Eu não consegui” transforma-se em “eu não sou capaz”.

É assim que a consciência, quando ferida, falsifica nossa própria biografia.

Esquecemos todas as páginas e ficamos relendo justamente aquela em que caímos.

Mas quem nos ama talvez esteja lendo o livro inteiro.

Lembra-se das vezes em que fomos generosos quando ninguém estava olhando.

Das vezes em que permanecemos quando seria mais fácil partir.

Das pequenas bondades que nós mesmos esquecemos.

Das batalhas que vencemos sem comemorar.

Dos dias em que achávamos que estávamos apenas sobrevivendo, mas alguém, olhando de fora, enxergava coragem.

Talvez por isso existam momentos em que precisamos cometer um pequeno ato de humildade:

emprestar os olhos de alguém.

Quando nossa visão estiver turva, quando a tristeza diminuir aquilo que somos, quando a culpa exagerar aquilo que fizemos, talvez seja necessário perguntar silenciosamente:

Como me enxergaria alguém que verdadeiramente me ama?

Não para alimentar o ego.

Não para fugir das nossas responsabilidades.

Mas para recuperar a proporção das coisas.

Porque humildade não significa pensar menos de si.

Significa também não se condenar injustamente.

Às vezes acreditamos que conhecer a nós mesmos significa conhecer nossas sombras.

Mas conhecer-se verdadeiramente é ter coragem de reconhecer também a própria luz.

E essa talvez seja a parte mais difícil.

Aceitamos facilmente quando alguém aponta nossos defeitos, mas desconfiamos quando alguém reconhece nossa beleza.

Talvez porque exista dentro de nós um juiz muito antigo, acostumado a recolher provas contra nós mesmos.

Por isso, quando alguém disser:

“Você é mais forte do que imagina.”

Talvez não seja necessário responder imediatamente:

“Você não me conhece.”

Talvez conheça.

Talvez conheça uma parte sua que você perdeu de vista.

Talvez tenha testemunhado sua coragem justamente nos momentos em que você acreditava estar apenas tentando sobreviver.

Talvez tenha encontrado generosidade em gestos que para você pareciam pequenos.

Talvez enxergue possibilidades onde você só consegue enxergar limites.

Existe uma versão de você vivendo na memória das pessoas que você tocou.

Uma versão feita das palavras que ficaram depois que você foi embora, dos abraços que chegaram na hora certa, das conversas que impediram alguém de desistir, das risadas que tornaram determinado dia suportável.

Você talvez nunca conheça completamente essa pessoa.

Mas ela existe.

E haverá dias em que o espelho não será suficiente.

Dias em que a nossa própria consciência estará coberta pela neblina das decepções, do cansaço ou das culpas.

Nesses dias, talvez não seja fraqueza pedir emprestado o olhar daqueles que nos amam.

Às vezes precisamos enxergar a nós mesmos através de outros olhos até que os nossos voltem a reconhecer quem somos.

Porque talvez exista uma verdade muito simples escondida nisso tudo:

há pessoas que acreditam em nós não porque desconhecem nossas fraquezas, mas porque conheceram algo em nós que nossas fraquezas jamais conseguiram destruir.

E, algumas vezes, acreditar no amor de alguém também significa acreditar que aquilo que essa pessoa enxerga em nós pode ser verdade.

“Contos da Cidade Dourada”

Diziam que existia uma cidade onde o ouro crescia como mato.

Não era apenas uma metáfora. Para os olhos dos conquistadores, a América inteira parecia um jardim onde o ouro brotava do chão, a prata escorria das montanhas e a riqueza esperava, silenciosa, por mãos estrangeiras.

Chamaram-na de cidade dourada.
Uns lhe deram o nome de El Dorado. Outros a procuraram nas montanhas dos Andes, nos vales dos povos originários ou nas minas que pareciam não ter fim. Mas talvez a verdadeira cidade dourada nunca tenha sido um lugar. Talvez tenha sido uma maneira de olhar.

O ouro não era riqueza.
Era cobiça.
E a cobiça transforma qualquer paisagem em mercadoria.
Eduardo Galeano escreveu que a América Latina nasceu com as veias abertas.
É uma imagem impossível de esquecer.
Veias abertas não apenas porque lhe arrancaram o ouro, a prata, o açúcar, o café, a borracha e tantas outras riquezas. Mas porque também lhe roubaram o tempo. Roubaram a possibilidade de crescer no próprio ritmo. Roubaram histórias, línguas, culturas e até o direito de muitos povos contarem a própria versão do passado.

Quando um povo perde a memória, torna-se mais fácil convencê-lo de que nunca foi rico.
As montanhas de prata desapareceram.
As minas foram esvaziadas.
Os navios atravessaram o oceano carregados de tesouros.
Tudo aconteceu à luz do dia.

Sem máscaras.
Sem vergonha.

O assalto mais grandioso da história não precisou da escuridão da noite. Foi realizado sob o brilho do sol, registrado por cronistas, celebrado por impérios e justificado por discursos de civilização.
Há ladrões que escondem o rosto.
Há impérios que escondem a consciência.
A cidade dourada foi desaparecendo aos poucos.
Não porque o ouro acabou.
Mas porque quem o arrancava deixava para trás apenas o vazio.
Existe uma estranha lógica na ganância.
Ela nunca aprende a contemplar.
Sabe apenas possuir.
Tudo aquilo que toca perde o significado e ganha um preço.
Uma floresta deixa de ser floresta para se tornar madeira.

Um rio deixa de ser vida para se transformar em rota comercial.
Uma montanha deixa de ser sagrada para virar minério.
E um ser humano deixa de ser pessoa para tornar-se força de trabalho.
Talvez seja essa a maior pobreza da história.
Não a falta de ouro.
Mas a incapacidade de enxergar valor onde não existe lucro.

O mais inquietante é perceber que essa história ainda ecoa.
Mudaram os navios.
Mudaram as bandeiras.
Mudaram os discursos.

Mas a pergunta permanece a mesma: quem enriquece quando uma terra empobrece?

As veias de um continente não sangram apenas quando lhe retiram os metais preciosos.
Sangram também quando sua inteligência é desprezada, quando sua cultura é tratada como inferior, quando seus filhos acreditam que tudo o que vem de fora vale mais do que aquilo que nasceu em casa.

A cidade dourada continua existindo.
Não nas lendas.
Nem nas minas.
Ela vive escondida na dignidade de um povo que, apesar de séculos de exploração, continua produzindo arte, poesia, fé, música e esperança.

Porque há uma riqueza que nenhum conquistador conseguiu embarcar em seus navios.
A capacidade de recomeçar.
Talvez esse seja o verdadeiro ouro da América Latina.
Um ouro que não pode ser fundido, vendido ou roubado.
Um ouro que corre, silenciosamente, nas veias de quem ainda acredita que a história não termina com o saque, mas com a coragem de reconstruir aquilo que parecia perdido.
E talvez seja por isso que a cidade dourada nunca tenha sido encontrada.
Ela nunca esteve enterrada debaixo da terra.
Sempre esteve pulsando dentro das pessoas.
Dentro de cada um de nós; Latino Americano.

Confissões de uma Caneta- Versão original

Existe uma verdade que carrego dentro de mim há muito tempo.

Eu não me considero o autor das palavras mais bonitas que escrevo.

Sempre que termino uma poesia, uma crônica ou uma reflexão,
sinto que aquelas palavras não nasceram apenas da minha inteligência.
Elas chegaram até mim como uma brisa silenciosa.
Vieram prontas, tocaram meu coração e pediram apenas que eu lhes desse voz.

Por isso, gosto de pensar que não sou o escritor.

Sou apenas a caneta.

A caneta não escolhe as palavras.

Não cria as histórias.

Não conhece o destino daquilo que escreve.

Ela apenas se deixa conduzir pela mão de quem a segura.

É assim que me sinto diante de Deus.

Muitas vezes, enquanto escrevo, percebo que Ele coloca pensamentos na minha mente,
desperta sentimentos no meu coração e me conduz por caminhos que sozinho jamais encontraria.
Há momentos em que leio aquilo que escrevi e me pergunto de onde veio tanta beleza.
Então compreendo que não veio de mim.

Veio d’Ele.

Mas existe uma inquietação que nunca deixa de me visitar.

Se Deus inspira tantas sementes através das minhas palavras,
por que tantas delas ainda não floresceram dentro de mim?

Por que consigo falar sobre o perdão e, tantas vezes, ainda luto para perdoar?

Por que escrevo sobre a paz e continuo travando guerras dentro da minha própria alma?

Por que falo da confiança em Deus,
mas ainda corro para Ele apenas quando a tempestade destrói o jardim da minha vida?

Às vezes sinto-me como um jardineiro que conhece todas as flores pelo nome, mas ainda não aprendeu a cuidar do próprio canteiro.

Basta que as dificuldades apareçam, que alguém invada minha paz ou que os ventos derrubem aquilo que plantei, e então corro para Deus.

Procuro o Grande Agricultor.

Aquele que sabe reconstruir o que foi destruído, replantar o que morreu e devolver vida ao que parecia perdido.

E Ele nunca falha.

Nunca chega atrasado.

Nunca me abandona.

Sempre encontra uma maneira de transformar a terra seca em esperança.

Talvez seja por isso que continuo escrevendo.

Não porque me considere um homem santo.

Mas porque sou um homem profundamente necessitado do amor de Deus.

Quando falo d’Ele, sinto-me forte.

Quando escrevo sobre Ele, meu coração encontra paz.

Quando medito sobre Sua presença, tenho a certeza de que Ele habita dentro de mim,
ainda que minhas atitudes nem sempre revelem essa realidade.

Lembro-me das palavras de Santo Agostinho: “Deus estava dentro de mim enquanto eu O procurava do lado de fora.”

Talvez essa seja também a minha história.

Passei muito tempo procurando sinais extraordinários, quando o maior milagre sempre aconteceu no silêncio da minha própria alma.

Deus nunca deixou de falar comigo.

Falava através das inspirações.

Das pessoas que colocou em meu caminho.

Das portas que abriu.

Dos livramentos que só compreendi muitos anos depois.

Das palavras que surgiam quando eu me sentava para escrever.

Hoje entendo que não sou a fonte.

Sou apenas o instrumento.

Como um pequeno receptor que capta um sinal invisível e o transforma em algo que outras pessoas conseguem ouvir.

A mensagem nunca pertence ao receptor.

Ela vem de muito mais longe.

Talvez minha missão seja exatamente essa.

Receber.

Guardar.

Escrever.

E repartir.

Mas existe um desejo que ainda apresento a Deus em minhas orações.

Não quero ser apenas a caneta que escreve belas palavras para os outros.

Quero ser também o papel onde essas mesmas palavras fiquem gravadas.

Quero que cada frase inspirada transforme primeiro a minha própria vida.

Quero que o jardim floresça dentro de mim antes de perfumar o caminho de quem passa ao meu lado.

Porque, no fim, não desejo ser lembrado pelas palavras que escrevi.

Desejo apenas que, ao olhar para minha vida, as pessoas consigam perceber que Deus realmente segurou esta caneta.

E que, enquanto escrevia através dela, também escrevia, pacientemente, dentro do coração de quem a carregava.