Nosso Amor como o Canto dos Passaros

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[Mirando-se num espelho depois de sessenta anos]
Já não se fazem espelhos como antigamente.

As ações de cada pessoa são boas ou más consoante a maneira como as outras as comentam.

As revoluções só têm geralmente como resultado imediato uma mudança de lugar da servidão.

As esplêndidas fortunas - como os ventos impetuosos - provocam grandes naufrágios.

Querer que uma mulher ame toda a vida, é tão absurdo como querer que a Primavera dure todo o ano.

Mas depois há a manhã seguinte... e a certeza de que não estou tão disponível como eu julgava estar na noite anterior.

Velho pássaro, este mundo
dorme como um menino
e se renova cada manhã.

Os mais sensatos pensam na vida como um investimento garantido, irão lucrar conforme depositarem.

Os bons conselhos desagradam aos apaixonados como os remédios aos que estão doentes.

Como uma árvore, que embora derrubada, continua a crescer enquanto as suas raízes estiverem sãs e firmes, assim também continuará a sofrer mais e mais o homem que não tenha extirpado a sua cobiça.

Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere.

Tão frequentemente o intelectual é um imbecil que o deveríamos sempre tomar como tal, até que nos tenha provado o contrário.

Ama uma mulher como se a odiasses e odiei-a como se a amasses.

Ao receberem e darem os seus pensamentos, as pessoas comunicam entre si como nos beijos e abraços; quem recolhe um pensamento não recebe alguma coisa, mas alguém.

Cada um é como Deus o fez, e muitas vezes até pior.

Nada é tão duradouro como a mudança.

Você e eu como indivíduos podemos, por meio de empréstimo, viver além de nossos meios, mas apenas por um período limitado de tempo. Porque deveríamos pensar que coletivamente, como uma nação, não estamos ligamos pelo mesma limitação?

Maestros não sabem como o oboé faz o seu trabalho, mas eles sabem com o que o oboé deve contribuir.

As citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante.

Noturno

Lá fora o luar continua
E o trem divide o Brasil
Como um meridiano

Oswald de Andrade
ANDRADE, O. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971