Noite
EIS A FRIA.
Eis aqui a fria, já morta, curvada sobre o teu cadáver. Silêncio. Nem a noite ousa respirar.
As mãos que outrora acariciaram o mundo agora repousam sobre a matéria vencida, como se a morte aprendesse, pela primeira vez, o peso da eternidade.
Mas quem morreu? A carne... ou o sonho que nela habitava?
Os astros prosseguem o seu caminho, indiferentes ao pranto dos homens, e, no entanto, há uma estrela que parece deter- separa contemplar teu último repouso.
E será ela, agora, o deslumbre do universo?
Talvez a morte não seja o apagar da luz, mas o instante em que o infinito abre, silenciosamente, os seus olhos sobre nós.
Porque toda sepultura é apenas uma porta para aqueles que aprenderam a escutar o invisível.
O ÚLTIMO HÁLITO DO ATAÚDE.
Marcelo Caetano Monteiro.
Corri a ti, vencendo a noite fria,
Na vã esperança da derradeira voz;
Que teu último hálito ainda me diria
Os velhos segredos sepultados entre nós.
Mas o Tempo - carrasco de mãos geladas,
Sorriu por detrás dos relógios sem luz;
Roubou-me as promessas jamais reveladas,
E apagou meu caminho onde a saudade reluz.
Teu ataúde, tão belo, tornou-se altar,
Vestido de lírios, veludo e luar;
Minha mística dor o fez florescer,
Como um templo proibido onde aprendi a morrer.
Olhei-me nos olhos, tão negros, tão fundos,
E encontrei o sadismo da própria aflição;
Vi desertos eternos, eclipses profundos,
Bebendo em silêncio meu pobre coração.
As sombras beijavam meu rosto sem nome,
Enquanto o silêncio vestia o jardim;
A morte tem sede, mas nunca consome
Quem morre primeiro por dentro de si.
Só os invisíveis ouviram meu canto,
Quando a última brisa beijou minha voz;
Os vivos passavam, cobertos de espanto,
Sem perceber que a noite rezava por nós.
A lua bordava teu mármore antigo,
Com fios de prata e perfumes do além;
Eu era somente um espectro contigo,
Amando o impossível que ninguém detém.
Então expirei, sem que o mundo soubesse;
Nenhum sino chorou minha lenta partida.
Somente os invisíveis ouviram a prece
Da última respiração perdida.
E, desde essa hora, caminho calado,
Guardião das ruínas que o tempo esqueceu;
Pois quem ama um sepulcro jamais foi deixado:
A morte levou meu corpo... mas nunca o que é meu.
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A CATEDRAL DAS SOMBRAS.
Parte i
Quando a noite, em veste escura,Sepultou a velha altura,Vi a Lua, fria e pura,Sobre a torre a soluçar;Cada estrela estremecida,Parecia, adormecida,Uma lágrima esquecidaSem coragem de brilhar.
Pelas naves do silêncio,Onde o Tempo fez domínio,Cada pedra era um martírio,Cada arco, uma oração;E eu seguia, passo lento,Respirando o esquecimento,Como quem transforma o ventoNo compasso do coração.
Vi retratos sem semblante,Vi um espelho vacilante,Onde o rosto do viajanteJá não ousa florescer;Pois a face que eu fitava,Mais que a minha, denunciavaToda a dor que sepultavaO desejo de viver.
Cada porta era um mistério,Cada sino, um cemitério,Cada eco, um ministérioCelebrando a solidão;E as paredes consumidas,Feitas de eras esquecidas,Repetiam, doloridas:— "Tudo acaba... tudo em vão..."
Mas ouvi, de uma janela,Uma voz serena e bela,Como a luz de uma aquarelaSobre um campo sem calor;Não cantava a esperança,Nem promessas de bonança;Era apenas a lembrançaDo primeiro e puro amor.
Meu espírito, cansado,Como um tronco abandonado,Pelo inverno açoitado,Vacilou sem resistir;Pois lembrava, entre gemidos,Os jardins já destruídos,Onde os sonhos esquecidosAprenderam a partir.
Vi então um corvo antigo,Feito sombra e feito abrigo,Que pousou, qual velho amigo,No mais alto castiçal;Seu olhar, sem ter piedade,Conhecia a eternidadeE a secreta identidadeDe todo homem mortal.
Nada disse. Nada fez.Mas o peso da mudezEra a voz da insensatezQue ninguém deseja ouvir;Pois existem mil palavrasQue são frágeis como tábuas,Mas há silêncios que lavramA sentença de existir.
Então vi que cada abismoNasce antes no organismo,Onde o próprio egoísmoErgue alta catedral;Cada culpa alimentada,Cada lágrima abafada,É uma lâmpada apagadaNo invisível funeral.
Quem combate monstros, cedoPode tornar-se o degredoDo mais íntimo segredoQue jurava destruir;Pois o mal que nos devoraNão desperta apenas fora:É a raiz que se enamoraDo jardim por consumir.
E caminhei noite adentro,Procurando algum alento,Mas achei somente o centroDo infinito labirinto;Onde o medo, soberano,Escrevia, ano após ano,Com um dedo desumano,Cada página do instinto.
Quando a aurora finalmenteTocou o horizonte ardente,Vi que o Sol, resplandecente,Não venceu a escuridão;Pois a sombra verdadeiraNão repousa na ladeira,Nem na floresta fronteira:Faz morada no coração.
Mesmo assim, subi o monte,Onde nasce cada horizonte,E rompi, qual velha ponte,As correntes do temor;Porque a noite, por mais forte,Nunca encerra toda sorte:Há mistérios além da morte,Há silêncio além da dor.
Então, diante do Infinito,Ergui firme o meu espírito,Não em gesto de conflito,Mas de lúcida ascensão;E as estrelas, uma a uma,Dissolveram toda a bruma,Transformando a antiga espumaNa mais viva criação.
Compreendi, no último instante,Que o destino mais giganteNão pertence ao triunfante,Nem ao rei, nem ao altar;Pertence ao ser que, vencido,Mesmo em sangue consumido,Faz do próprio coração partidoUma nova forma de amar.
E a noite, antes sepulcro,Fez-se trono, fez-se fulcro;Do silêncio nasceu o músculoDa coragem sem igual.Porque toda alma ferida,Quando enfrenta a própria vida,Ergue, acima da ruína vencida,Sua imortal catedral.
ADEUS.
Adeus... Não chores. A noite me chama,
e o vento desfaz a derradeira chama.
O piano suspira num quarto vazio,
enquanto o silêncio se torna meu rio.
Teus olhos, outrora jardim de esplendor,
são lírios banhados na névoa da dor.
O tempo, esse artista de mãos tão cruéis,
desfolha promessas, coroas, papéis.
Partirei sem ruído, qual folha ao luar,
que aprende com o outono a arte de tombar.
Não levo riquezas, nem glória, nem voz;
apenas o eco do que fomos nós.
Se um dia escutares a chuva cantar,
recorda meu nome a contigo sonhar.
Nas gotas que beijam o vidro sem fim,
talvez sobreviva um pedaço de mim.
O céu tem caminhos que ninguém jamais
desenha com passos iguais aos mortais.
E a vida, qual valsa que chega ao final,
inclina-se, lenta, ao silêncio fatal.
As rosas que deste conservam perfume;
o amor verdadeiro não teme o negrume.
Ainda que a morte nos venha apartar,
há coisas que o tempo não pode apagar.
Adeus... Não é ódio, tampouco é prisão;
é apenas o adeus que amadurece o coração.
Porque todo encontro que o destino encerra
transforma-se em estrela escondida na terra.
Quando a lua pousar sobre o velho jardim,
e o mundo esquecer o princípio e o fim,
talvez uma valsa desperte do além,
tocada em segredo por mãos que ninguém
jamais conseguiu ver, tocar ou deter,
pois vivem onde o amor não pode morrer.
Ali, entre as notas que o vento conduz,
te esperarei vestido de eterna luz.
E se Deus permitir que o infinito, enfim,
reúna outra vez teu destino ao meu ,
não diremos "adeus", " nenhum"adeus outra vez;
seremos dois sonhos na mesma altivez.
Até lá, caminha sem medo, sem dor.
Quem ama de verdade jamais perde o amor.
O adeus é somente a pausa da canção;
o último acorde prepara a amplidão.
"Há despedidas que encerram uma vida, mas há amores tão profundos que transformam cada adeus no prelúdio de um reencontro eterno."
AGASALHO DE TERNURA.
Vem, porque me fazes bem, vem sem demora,
como a paz que à minha noite se incorpora;
desces mansa qual agasalho de ternura,
revestindo de esperança a noite escura.
Toco a tua pele — pétala macia,
onde o céu aprende o nome da harmonia;
cada gesto teu, tão puro e tão singelo,
faz da própria luz o mais perfeito anelo.
Teu sorriso, silencioso, é primavera,
que à tristeza antiga, enfim, já não impera;
e, ao surgir em teu semblante a claridade,
florescem jardins na minha eternidade.
Caem brandas as cerejeiras em flor,
como bênçãos desprendidas do amor;
cada pétala, rendida ao teu encanto,
vai bordando de perfume o meu recanto.
Se me olhas, já não temo a ventania,
pois teu peito é meu abrigo noite e dia;
se me calas, teu silêncio ainda diz
o segredo de tornar-me mais feliz.
Vem, e fica, sem promessa nem adeus;
que o infinito cabe inteiro entre os teus.
Pois amar-te é descobrir, em cada alvor,
que a ternura é a forma mais perfeita do amor.
"O silêncio aprendeu o seu nome,
e nas páginas da noite escreveu
aquilo que a voz jamais ousou dizer."
Que o silêncio da noite embale a alma e a paz das estrelas acenda a esperança do amanhã. Bom descanso!
Você floresce em cada pensamento meu, faz da noite um jardim de insônia, desperta tempestades suaves no meu coração e transforma cada instante longe de você em uma saudade que sussurra o seu nome. Amar você é viver entre a doce ansiedade do reencontro e a certeza de que a minha alma sempre encontrará abrigo na sua.
Me cubra com seus beijos, como a noite cobre o mundo com estrelas — cada toque seu é luz que aquece minha alma, é abrigo onde o tempo para e o coração encontra paz. Que seus lábios sejam o manto doce que me envolve toda, e que cada beijo seja promessa de amor que não tem fim.
Amo o silêncio, o vento . Amo a noite , amo o tempo nublado .. cinzento .. Amo pensar na vida sozinha ... Amo essa vibe de vento na janela , chuvinha fina.. isso é tão eu , tão minha cara.. prefiro mil vezes a minha própria companhia do que de outras pessoas ... sou assim mesmo , amo a solidão, ouvir música, Amo olhar da janela anoitecendo , entardecendo... não me considero estranha ou esquisita eu gosto do que é bom.. eu penso , eu medito , eu reflito e Amo tudo isso ..a solidão é a minha melhor amiga .. é o meu jeito .. eu chamo de paz interior..pra mim não tem coisa melhor ..
Não fala nada ... não precisamos de palavras quando temos um ao outro ... essa noite meu corpo é um livro ...me leia toda ...cada pedacinho de mim ...palavra por palavra ...
Dentro de ti existe um universo de possibilidades ... tu és constelação... tu és o céu em noite de estrela .. espetáculo da natureza. .tu és o caos , a perdição, tu és infinito , infinitamente linda assim do teu jeito ...com todo teu brilho..
E por uma noite, venha..
Por uma noite seja minha..
Faça acontecer , faça valer a pena..
Por uma noite Sorria meu sorriso..
Beija a minha boca lentamente..
Por uma noite me toque , me ame , me doe um pouco mais de vc ...
Por uma noite escute o meu coração cantando uma canção de amor ... por uma noite .. seja meu cobertor , minha cama , minha companhia.. Por uma noite... me traga alento, afague meus cabelos ..me diga BPA noite meu anjo..e dorme comigo ...pelo menos por uma noite ... realize o meu desejo ... mata a minha sede .. a minha vontade ...de vc ..pelo menos por uma noite...faça valer a pena..vem e faça acontecer o que eu sonho que aconteça a anos ..
ATÉ A ÚLTIMA LUZ.
No claustro azul da noite silenciosa,
onde o tempo sepulta antigas eras,
a alma contempla as sombras austeras
da marcha humana, trágica e grandiosa.
E, entre ruínas da jornada dolorosa,
recolhe as vozes frágeis das quimeras;
mas vence os vendavais das primaveras
com a força imortal e misteriosa.
Não é a chama efêmera da aurora,
nem o fulgor que o mundo reverencia,
mas o lume interior que a dor aflora.
É a centelha da própria consciência,
que mesmo quando a existência se evapora,
persiste além da última aparência.
Marcelo Caetano Monteiro.
" Nas linhas do vento suave,
a noite repousa em silêncio,
cada estrela é um verso breve,
que ilumina o coração em início. "
Quimeras
Uma nuvem noturna pairava sobre ele
Dia e noite
Noite e dia.
Não via solução pras dores de seu coração.
Já tentara de tudo:
Gritara... ficara mudo.
Sorrira... chorara...
Nada adiantava.
No meio de tudo isso,
deu-se conta de que ninguém se importava...
Começou a duvidar de que a vida não era nada do que sonhara...
Quimeras...
Quem sabe a realidade de todos eram puros devaneios?
Tentavam todos se equilibrar na corda bamba...
Lutar contra a corrente...
Escapar da areia movediça que aos poucos os engolia.
Talvez fosse pura utopia a existência de um lugar onde reinasse dia e noite a alegria.
Aceitou então seu trágico destino: viver entre faces confusas, jogar os dados, consolar-se com perguntas sem respostas... um trevo de quatro folhas de ouro no pescoço... torcer para ganhar as apostas...
Um laço invisível, astúcias astuciosas sempre em ação...
A bater no ritmo da roleta, então, acostumou-se, seu coração.
Dias e noites
Noite e dia, em seu ciclo incansável, revelam os espasmos das dores que habitam meu coração.
Não vejo solução, perdida estou em labirintos internos onde a esperança parece de todo ausente.
Já tentei de tudo:
gritei contra o vazio, busquei voz no silêncio, fiquei mudo diante do meu próprio querer.
Sorri por momentos breves, mas rapidament lágrimas vieram para lavar o encanto e transformar o momento em desencanto.
Um pouco brisa suave acaricia às vezes minha alma cansada,
um pouco vento forte sacude os pilares do meu indelável ser,
e até tempestades brutais vêm testar a resistência do meu espírito.
Mas entre a sombra da noite e o brilho do dia,
descobro que não há dor que não se dissolva com o tempo,
nem ferida que não se reabra para, um dia, outra, e mais outra vez, cicatrizar.
Assim, no vai e vem da vida,
aprende-se a ser inteiro – mesmo nas partes que parecem desfeitas,
pois a luz sempre volta a vencer a escuridão... e a alma ensaia o tempo todo ser perfeita.
É doloroso ver alguém sangrando e se esforçando dia e noite para crescer, enquanto quem está ao redor assiste ao sofrimento de braços cruzados, incapaz de gastar um único centavo para estender a mão e comprar o que essa pessoa vende.
Noite do dia 20.
Eu dormi com a consciência pesada.
Você não dormiu, com o coração partido.
Eu a conquistei e a deixei.
Eu machuquei você, te furei com agulhas; te queimei com fósforos; fiz cortes em sua pele e joguei álcool por cima de cada uma dessas feridas.
Elas doiam tanto, sangravam tanto e você chorava mais um tanto.
Dor que não se esquece, saudade não desaparece.
Nas noites geladas; noites caladas, esse sentimento se fazia mais presente. As lágrimas mais realistas e os cortes mais ardentes.
Te feri com a minha confusão e indecisão.
Perdão.
Seu quarto era bagunçado, escuro e gelado. A porta sempre trancada e as janelas sempre escancaradas.
Bitucas de cigarro em sua escrivaninha, eram várias. Várias como as garrafas de bebida quebradas; vazias e espalhadas, como suas roupas todas jogadas.
Os olhos inchados; olheiras escuras; descabelada; roupa amarrotada; amassada; toda suada; lágrimas obviamente molhadas.
As janelas permanecem sempre abertas.
A ventania lá fora que agora bagunça tudo, só não tão bagunçada quanto sua mente e o asfalto, definitivamente não tão rachado quanto seu coração.
Tarde do dia 20, meses depois.
"Me ligue quando puder, se quiser. Saudades."
