Nao Vou Mentir
PEDIDO
Um simples pedido eu quero fazer
Fazer pra você o que eu não pude ter
Um pedaço de torta e uma xícara de café
Como a brisa e uma prancha de surf em meio à maré
São olhos encantadores que você tem
Boca que carrega um toque sutil
Vejo-me um dia como seu refém
E meu coração ficando pulsatil
Às vezes me pego sonhando
Com o estado de um breve outono
Pequenas estradas se enchendo
De flores secas e sem alento
O céu já não é mais o mesmo
É escuro como o fundo poço de um grande celeiro
Sem pássaros livres para voar
Sem vida e casa para morar
Perante a sua fragrância eu pude acordar
De um sonho sem forma e quase real
Mais eu pude recordar
Que estávamos em uma cidade conhecida como candeal
Um dia quero conhecer
Suas grandes artes e pequenas manias
E poder compartilhar com você
Minhas poucas sinfonias e harmonias.
O Jeito
O ouro não está no palácio coloridos
mas na base simples, onde ele se ergueu.
A perfeição não é um salto ousado de voo, é o silêncio da semente na terra,
antes da flor.
Toda canção começa por uma nota só.
Todo quadro, por um traço despretensioso.
É a prática — dia após dia —
que junta os cacos da beleza
e compõe o mosaico.
Não deixes que a ansiedade confunda teus passos.
Aprende o ritmo lento do que é essencial.
Até o arroz e o feijão de cada dia,
temperados com atenção,
tornam-se um banquete para a alma.
Cada linha reta, traçada com cuidado,
é uma estrada para o essencial.
Assim, com paciência de artesão,
o simples se repete, o básico se aprimora,
e sem alarde, sem pressa, vira jeito.
Vira perfeição.
Não vale a pena fazer o que não gosta por dinheiro, porque com o tempo você adoece e vai precisar do dinheiro para se tratar.
O ateísmo é a antirreligião organizada; se você defende a religião, então isso prova que não é um ateu de verdade, pois não faz nenhum sentido um suposto ateu defendendo "deus".
Se um animal não representa perigo imediato e você não está morrendo de fome, matá-lo é absolutamente errado, uma clara demonstração de psicopatia.
"A grandeza de Deus não se mede pela distância que Ele guarda de nós, mas pela profundidade de Sua descida até Belém."
Quem cultiva inimigos desperdiça o próprio tempo, perde o foco do essencial, azeda o humor e, não raro, termina por imitar aquilo que combate.
Se minha insistência operasse em sentido inverso, o mundo não avançaria nem recuaria: estacionaria num empate de alta precisão técnica.
A crença numa divindade pode ser filosoficamente válida; já as religiões não. Deus é um conceito separado da fé organizada, e o religioso típico é um analfabeto científico mergulhado em contradições lógicas.
Coração de cofre, mas expectativa de herdeira. O amor não é caridade para sustentar quem só sabe receber e nunca tem nada a oferecer.
Você não está perdida.
Está cansada.
Cansada de ser vista em partes, de ser entendida por fragmentos, de ser tocada só na superfície.
Cansada de quem chega com pressa, promete abrigo, mas só oferece presença pela metade.
Não é confusão, é exaustão emocional.
Não é falta de rumo, é falta de quem fique inteiro.
Porque quando alguém te encontra de verdade, não pede que você se explique o tempo todo.
Permanece. Escuta. Sustenta.
E talvez seja por isso que você tenha parado.
Não para desistir,
mas para não aceitar menos do que merece.
O Limiar
Sinto tua falta como quem sente culpa,
não apenas dor.
Há um frio que não vem da ausência,
mas do que eu seria
se cruzasse a linha que me separa de ti.
Compreendi — tarde demais ou cedo demais —
que entre o querer e o tocar
existe um espaço que não me pertence.
O que me atrai não é a vida contigo,
é o risco, a queda,
a vertigem de um amor que cobra tudo.
Nada posso fazer.
Não por fraqueza,
mas porque há desejos que, ao serem atendidos,
destroem o que tocam.
Sou criatura do limiar:
preciso de permissão para entrar,
não na tua casa,
mas na região mais vulnerável da tua alma.
E sei que isso não seria amor.
Seria fome disfarçada de ternura.
Não me salvaria,
não te despertaria —
apenas nos perderia.
Eis o dilema humano:
amar e, ainda assim, escolher não tomar.
Ser condenado a observar,
não por falta de coragem,
mas por excesso de consciência.
Amaldiçoado não por amar demais,
mas por entender o preço do amor.
Há amizades que chegam como salva-vidas improvisado. Não seguram a embarcação, mas dão tempo. Com elas aprendi a pedir socorro sem vergonha. O orgulho, às vezes, é coisa que afunda. E, por sorte, há mãos que nos puxam de volta.
O silêncio cheio é aquele que não pede resposta. É morada de quem já entendeu demais para falar. Quando me sento nele, o mundo afrouxa o ritmo. Permite-me respirar sem justificativa. E isso, por si só, é privilégio raro.
A paz que busco não tem vagar, é pedacinho em cada ato. Ela aparece quando lavo a louça sem pressa. Quando atendo uma ligação com atenção plena. Pequenos rituais que somados viram habitação. E a casa interior se mantém menos vulnerável.
A noite guarda segredos que o dia não entende. Ela tem diplomacia de quem aceita contradições. Sento-me à sua mesa e aceito seu cardápio. Alguns pratos são amargos, outros, surpreendentemente doces. E eu como tudo com fome de entender.
O perdão que me proponho é lento, como cerâmica. Modela-se com mãos que não esmorecem. Algumas peças racham no forno e perdem a forma. Outras saem perfeitas, surpreendendo até o artesão. E percebo que imperfeição também é beleza.
Quando a saudade alcança, não nos dá esperança, só dá pancada, vem sem aviso, acerta o peito, desorganiza o fôlego e nos lembra, com brutal delicadeza, que houve amor onde hoje só mora o vazio.
