Nao sou a Mulher Perfeita sou eu
A Arte de Ser Sóbrio
Autocontrole, Clareza Interior e Ética do Ser
Há quem pense que ser sóbrio é viver em negação.
Mas não é.
Ser sóbrio não é viver com menos vida.
É viver com mais presença.
É perceber o que acontece dentro de si antes de simplesmente reagir.
É reconhecer o desejo sem se tornar escravo dele.
É sentir sem precisar fugir.
É escolher sem precisar ser levado pelo impulso.
A vida oferece distrações o tempo inteiro.
Um excesso aqui.
Uma fuga ali.
Uma promessa de alívio imediato.
E então surge aquela voz:
“Só mais um pouco. Você merece.”
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
“Eu realmente quero isso ou estou tentando escapar de alguma coisa?”
É nesse pequeno espaço entre o impulso e a escolha que a sobriedade começa.
Não como punição.
Não como privação.
Não como uma guerra contra aquilo que somos.
Mas como liberdade.
Porque autocontrole não é sufocar o que sentimos.
É conseguir ouvir o que sentimos sem entregar a isso o comando da nossa vida.
É respirar antes de responder.
É esperar antes de agir.
É saber quando parar.
É reconhecer quando algo deixou de ser escolha e começou a ser dependência.
Isso exige força.
Mas não uma força rígida.
É uma força serena.
Fogo domado.
A capacidade de permanecer inteiro mesmo quando alguma parte de nós pede excesso.
E talvez seja aí que a chamada pureza vibracional encontre seu verdadeiro significado.
Não como uma ideia de perfeição ou como uma lei invisível que precise ser provada, mas como uma imagem para aquilo que cultivamos dentro de nós.
Pensamentos influenciam atitudes.
Atitudes transformam relações.
Relações transformam ambientes.
Ambientes também nos transformam.
Aquilo que alimentamos interiormente deixa marcas.
Uma palavra pode aproximar.
Outra pode ferir.
Uma emoção pode ser compreendida.
Outra, quando ignorada, pode acabar conduzindo nossas escolhas.
Por isso, cuidar da própria energia também pode significar cuidar daquilo que pensamos, sentimos, consumimos, dizemos e transmitimos.
Pureza não é nunca se contaminar com a vida.
É saber reconhecer o que nos faz bem, o que nos desequilibra e o que precisamos deixar ir.
É cuidado.
É consciência.
É presença.
E existe ainda uma dimensão mais profunda da sobriedade: a ética.
Porque nossas escolhas não terminam em nós.
Aquilo que fazemos pode alcançar outras pessoas.
Por isso, respeitar os próprios limites também significa respeitar os limites do outro.
Não transformar nossa carência em cobrança.
Nossa raiva em agressão.
Nosso medo em controle.
Nossa frustração em ferida para alguém.
Existe uma ética que ninguém vê imediatamente.
Ela está na intenção.
Naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.
Na responsabilidade que assumimos pelas consequências de nossas escolhas.
Sobriedade, nesse sentido, não nos torna melhores que ninguém.
Torna-nos mais responsáveis por aquilo que fazemos com aquilo que sentimos.
E talvez um dos excessos mais silenciosos da vida moderna seja justamente a dificuldade de permanecer consigo mesmo.
Estamos sempre procurando alguma coisa para preencher o silêncio.
Mais estímulo.
Mais distração.
Mais velocidade.
Qualquer coisa que nos impeça de parar.
Porque parar exige coragem.
Quando o ruído diminui, podemos encontrar aquilo que tentávamos evitar.
Uma dor.
Uma dúvida.
Uma lembrança.
Mas também podemos encontrar algo que estava escondido por trás de todo aquele ruído:
clareza.
Talvez seja por isso que a sobriedade possa ser entendida como um reencontro.
Não com uma versão perfeita de nós mesmos.
Mas com aquilo que somos quando deixamos de fugir.
Ser sóbrio é poder dizer:
“Eu posso sentir isso sem me perder.”
“Eu posso desejar sem precisar obedecer.”
“Eu posso dizer não.”
E, principalmente:
“Eu posso escolher.”
Porque liberdade não é fazer tudo aquilo que o impulso pede.
Liberdade é ter espaço interior suficiente para decidir.
É escolher aquilo que consumimos.
Aquilo que cultivamos.
Aquilo que falamos.
Aquilo que permitimos permanecer em nossa vida.
É saber que nem todo desejo precisa ser realizado,
nem todo pensamento precisa ser seguido,
nem toda emoção precisa se transformar em ação.
A sobriedade não promete uma vida sem dor.
Promete algo mais honesto:
a possibilidade de atravessar a vida sem precisar fugir de si mesmo.
E talvez seja essa a verdadeira lucidez.
Não chegar ao fim da estrada completamente intocado.
Mas chegar inteiro.
Inteiro depois das escolhas.
Inteiro depois das perdas.
Inteiro depois das tentações.
Inteiro depois dos dias difíceis.
Sem precisar apagar aquilo que sentimos para continuar caminhando.
🌕 Aos que sentem o chamado da lucidez, aproximem-se.
Não é preciso chegar perfeito.
Basta chegar verdadeiro.
Deixem à porta os disfarces, as pressas e aquilo que já não serve.
Aqui, a presença é o vinho.
A escuta é o banquete.
A consciência é a luz.
E a clareza, o altar.
Não se entra neste templo para fugir da vida.
Entra-se para estar mais inteiro dentro dela.
O templo está aberto.
A alma está pronta.
A sobriedade é a chave.
O Jardim Interior: Uma Jornada Pessoal de Autoconhecimento e Transformação
(Inspirado por quem vive e aprende a cada instante)
Raízes da Existência
Ao refletir sobre minhas origens, percebo que cada ser abriga um terreno fecundo – um espaço repleto de memórias, emoções e aprendizados, muitos dos quais residem além da consciência imediata.
Não somos meramente os produtos de um passado fixo; somos, simultaneamente, artesãos do presente e do futuro.
Será que as cicatrizes do passado moldam nosso ser de forma irrevogável?
Embora as sombras da história deixem marcas duradouras, cada nova escolha nos permite revisitar e integrar o que foi esquecido – um trabalho contínuo, frequentemente auxiliado por momentos de reflexão (e, por vezes, apoio terapêutico).
Cultivo dos Pensamentos
Imagine a vida como um vasto jardim, onde selecionamos cuidadosamente as sementes a serem lançadas ao solo.
Em momentos íntimos, aprendi que semear afeição, empatia e curiosidade pode transformar relações e abrir novas perspectivas.
Nem toda semente, porém, surge da nossa vontade consciente, pois impulsos e conflitos internos podem emergir de recantos ocultos.
Será que o poder de transformar reside somente na nossa decisão consciente?
A verdade revela que, embora nossas escolhas informadas sejam fundamentais, é igualmente necessário explorar e compreender os aspectos submersos do inconsciente, permitindo que, ao serem integrados, desenhem um caminho mais autêntico.
A Dança com a Incerteza
A natureza ensina que nem todos os ventos sopram em favor dos nossos planos.
Em minha jornada, já me deparei com surpresas que alteraram o curso dos meus dias – momentos em que o inesperado se tornou professor.
Como manter o equilíbrio quando a vida se mostra tão imprevisível?
Ao aceitar a incerteza como parte integrante da existência e ao nos dispor a explorar os recantos desconhecidos do nosso eu, transformamos cada revés em oportunidade de amadurecimento e resiliência.
Renovação e Crescimento
Cada ciclo da natureza é uma lição sobre recomeços. Assim como podar um galho seco permite que novos brotos surjam, reconhecer e trabalhar os conflitos internos é crucial para o crescimento.
Em longas conversas com mentores e em momentos de autoanálise, descobri que até o solo mais infértil pode revelar um potencial surpreendente com o devido cuidado.
Será possível reinventar-se diante das adversidades?
Embora a transformação seja um processo gradual – permeado de recaídas e desafios –, a dedicação à autocompreensão e, quando necessário, o apoio de um terapeuta abrem caminhos para um florescimento verdadeiro.
O Despertar do Cuidador
Mais do que meros espectadores, somos responsáveis por cultivar o nosso universo interior.
Esse reconhecimento implica encarar as resistências e os recônditos do inconsciente, muitas vezes exigindo coragem para buscar auxílio quando necessário.
Como saber o momento certo de tomar as rédeas e, às vezes, pedir apoio?
Quando cada experiência – seja de dor ou de alegria – nos convida à aprendizagem, percebemos que assumir a responsabilidade pelo nosso crescimento é um ato de coragem e autenticidade, que pode florescer melhor com o suporte de quem compreende os meandros da mente.
A Jornada que Transforma
Ao final, somos simultaneamente o jardim, o jardineiro e o próprio ciclo que se renova. A verdadeira beleza da vida reside justamente na complexidade dos nossos ciclos, nos tropeços e nos triunfos que se entrelaçam de maneira surpreendente.
Existe um ponto final para a transformação?
Cada nova estação nos ensina que nosso potencial de mudança é infinito; ao converter desafios em pontes, construímos um futuro pleno e autêntico – uma viagem interior que, como disse Rilke, é a única que realmente vale a pena.
Marco Arawak
Depois
Uma palavra que carrega consigo a promessa de uma ação futura, a intenção de fazer algo em um momento além do presente imediato.
Parece tão reconfortante, tão tentador deixar tarefas e compromissos para “depois”.
É como se o tempo futuro fosse um refúgio onde todas as responsabilidades pudessem esperar pacientemente.
Mas o que muitas vezes deixamos de perceber é que o “depois” é um terreno traiçoeiro, uma ilusão que nos faz acreditar que o amanhã será mais generoso que o hoje.
A realidade é que o “depois” não está garantido, não é uma promessa inequívoca. É um espaço incerto onde o café esfria, onde as prioridades mudam sem aviso prévio.
O encanto de uma ideia frequentemente se perde no limbo do “depois”, enquanto o cedo se transforma em tarde antes que possamos reagir.
A nostalgia que deixamos para depois pode nos atormentar com sua intensidade, lembrando dolorosamente as oportunidades que desperdiçamos. As voltas e reviravoltas da vida não esperam pelo “depois”; acontecem no agora, moldando o curso do tempo.
Os filhos que adiamos crescem num piscar de olhos, lembrando-nos da fugacidade da juventude e da rapidez com que o relógio avança. Envelhecer não espera pelo “depois”, pois cada ruga e cada fio de cabelo grisalho são testemunhas silenciosas do fluxo constante do tempo.
O dia se despede no horizonte, independentemente dos nossos planos para o “depois”.
E, por fim, a vida chega ao seu fim, não como um “depois” distante, mas como uma realidade inevitável.
O “depois” não garante que teremos mais tempo, mais oportunidades ou mais momentos preciosos. É um lembrete de que o presente é tudo o que temos, e é nele que nossas ações e escolhas têm o poder de moldar nosso futuro.
Então, enquanto planejamos e sonhamos com o “depois”, lembremos que o melhor momento para agir, amar, criar e viver é agora. Porque o “depois” é um espaço incerto, enquanto o presente é o palco onde realmente vivemos nossas vidas.
Marco Arawak.
A Ilusão da Perfeição: A Redescoberta do Valor Humano em um Mundo de Pressões Sociais
A opressão exercida pelas expectativas sociais, reforçada por mensagens e imagens incessantes de perfeição, somada à obsessão pela beleza exterior, juventude, etnia, riqueza, status social e fama, contribui para a fragmentação das relações humanas e para a erosão do sentido de valor interior.
A discriminação baseada na idade, o racismo, as diferenças econômicas, sociais, políticas e religiosas, assim como a comparação constante com os outros, podem produzir sentimentos de inadequação e desvalorização — como se fôssemos atores “cegos, surdos, mudos e irracionais”, colocados diante de obstáculos aparentemente intransponíveis.
O peso de corresponder a ideais irreais de beleza e sucesso ignora nossas qualidades interiores, nossas experiências e nossas conquistas. Em seu lugar, alimenta uma cultura de insatisfação permanente e fragiliza nossa percepção de valor.
O julgamento constante baseado na aparência e na posição social cria um ambiente tóxico, no qual a validação é buscada em fatores superficiais e passageiros, em detrimento de valores mais profundos e duradouros.
A sociedade frequentemente estabelece expectativas impossíveis de alcançar. E, pouco a pouco, podemos ser levados a acreditar que nosso valor depende da maneira como somos percebidos pelos outros.
Quando isso acontece, tornamo-nos mais vulneráveis à manipulação, à comparação permanente e à insatisfação crônica.
É fundamental reconhecer a influência nociva dessas pressões e buscar um caminho de aceitação de si mesmo e de valorização daquilo que verdadeiramente somos.
Aceitar nossas imperfeições não significa abandonar o desejo de crescer.
Significa compreender que crescimento não exige rejeição de quem somos.
O valor humano não pode ser reduzido a padrões superficiais de beleza, juventude, riqueza, status ou reconhecimento.
Quando compreendemos que nosso verdadeiro valor ultrapassa a aparência e a aprovação externa, abrimos espaço para uma vida mais autêntica, consciente e significativa.
Essa mudança de perspectiva favorece uma cultura de respeito e empatia, na qual as diferenças deixam de ser vistas como defeitos e passam a ser reconhecidas como parte da própria diversidade humana.
Todos carregamos limites, contradições, fragilidades e particularidades.
Reconhecer isso nos torna mais capazes de compreender o outro.
Quando deixamos de exigir perfeição de nós mesmos, também podemos aprender a exigir menos perfeição dos demais.
O respeito mútuo cresce quando abandonamos julgamentos superficiais e começamos a enxergar o valor humano que existe para além daquilo que pode ser visto, medido ou exibido.
Além disso, a aceitação das próprias imperfeições pode fortalecer nossa segurança interior e nossa capacidade de enfrentar as dificuldades da vida com mais coragem e serenidade.
Aceitar-se não significa permanecer imóvel.
Ao contrário.
Significa criar uma base mais saudável para crescer, aprender, mudar e explorar nosso potencial sem transformar a própria existência em uma competição permanente.
Valorizar autenticamente o ser humano em sua totalidade — com suas características, diferenças, limitações, capacidades e singularidades — contribui para criar ambientes nos quais o crescimento pessoal e coletivo possa acontecer.
Uma sociedade mais humana não nasce da eliminação das diferenças.
Nasce da capacidade de conviver com elas.
Precisamos romper com as amarras de uma perfeição imposta e aprender a reconhecer a diversidade e a singularidade de cada pessoa.
Precisamos também redefinir o próprio conceito de valor e sucesso.
Em um mundo que frequentemente estimula a competição e a comparação, torna-se essencial fortalecer uma cultura de colaboração, respeito e aceitação mútua.
Isso exige rever as narrativas que nos foram apresentadas como verdades absolutas e construir novos discursos que coloquem no centro aquilo que realmente nos conecta: humanidade, dignidade, cooperação e solidariedade.
O verdadeiro sucesso não precisa ser medido pela quantidade de pessoas que nos admiram.
Nem pela aparência que conseguimos sustentar.
Nem pela posição que ocupamos.
Talvez esteja, antes, na capacidade de viver de maneira coerente com aquilo que somos, sem precisar diminuir o outro para nos sentirmos maiores.
No fim, libertar-nos da ilusão da perfeição não significa abandonar a busca por excelência.
Significa compreender que excelência e perfeição não são a mesma coisa.
Podemos desejar evoluir sem desprezar quem somos hoje.
Podemos buscar beleza sem transformar a aparência em medida de valor.
Podemos buscar prosperidade sem confundir riqueza com dignidade.
Podemos conquistar reconhecimento sem depender dele para existir.
E podemos ser diferentes sem precisar ser superiores ou inferiores.
Por isso, é necessário questionar e transformar as estruturas que perpetuam desigualdade, exclusão e desumanização.
Precisamos recuperar a capacidade de enxergar pessoas antes de rótulos, histórias antes de julgamentos e humanidade antes de aparências.
Porque a verdadeira realização não nasce da tentativa impossível de parecer perfeito.
Ela nasce da liberdade de ser humano.
Com nossas qualidades.
Com nossas limitações.
Com nossas diferenças.
Com nossas imperfeições.
E, sobretudo, com a consciência de que o valor de uma pessoa jamais deveria depender daquilo que o mundo consegue enxergar nela.
Marco Arawak
AUTOANAMNESE
Entre a memória e o que ainda podemos ser
Existe uma história dentro de cada pessoa.
Uma história que não está escrita apenas em fotografias, documentos ou lembranças. Ela também vive nos gestos, nas escolhas, nos medos, nos sonhos, nas palavras que ficaram e, principalmente, naquilo que fazemos sem perceber.
Somos feitos de encontros, despedidas, descobertas, perdas, conquistas, erros e recomeços. Somos também feitos de perguntas que nunca encontraram respostas e de respostas que o tempo modificou.
Talvez por isso a autoanamnese seja tão importante: porque, antes de compreender o mundo, precisamos aprender a observar aquele que o contempla.
Volto os olhos para trás,
não para morar no passado,
mas para compreender
as pegadas que deixei.
Há caminhos que escolhi conscientemente. Outros surgiram diante de mim quando eu sequer sabia para onde estava indo. Alguns abandonei. Outros me abandonaram. E existem aqueles que ainda percorro, tentando compreender por que os escolhi.
Fazer uma autoanamnese é estabelecer um diálogo sincero com a própria história.
É perguntar:
Quem fui?
Quem sou?
O que me trouxe até aqui?
O que ainda carrego?
E o que já posso deixar partir?
Não se trata de procurar culpados, nem de transformar o passado em sentença. Trata-se de compreender.
Porque aquilo que não compreendemos muitas vezes se repete.
Repetimos comportamentos, escolhas, relações e pensamentos sem perceber que estamos seguindo antigos caminhos.
Por isso, olhar para dentro pode ser um ato de liberdade.
Há hábitos que herdei,
há pensamentos que aprendi,
há caminhos que percorri
sem jamais perguntar
se realmente eram meus.
A autoanamnese nos permite separar aquilo que somos daquilo que simplesmente aprendemos a ser.
Na vida pessoal, ela nos ajuda a reconhecer nossos valores, limites, desejos e contradições.
Nas relações, revela como amamos, confiamos, ouvimos, perdoamos, reagimos e estabelecemos limites.
Na família, permite compreender as histórias que recebemos e decidir conscientemente quais heranças queremos preservar e quais precisam ser transformadas.
Na vida acadêmica e profissional, ajuda a perceber talentos, interesses, escolhas e caminhos que talvez tenham sido construídos mais pelas expectativas externas do que pelos nossos próprios propósitos.
Nas decisões, cria um espaço entre o impulso e a escolha.
E, nesse pequeno espaço, pode nascer a consciência.
Antes de responder,
eu observo.
Antes de escolher,
eu compreendo.
Antes de seguir,
eu pergunto
para onde estou indo.
Também precisamos fazer uma autoanamnese dos nossos erros.
Não para viver em culpa, mas para transformar experiência em aprendizado.
O erro pertence à nossa história, mas não precisa determinar nosso destino.
A pessoa que fomos tomou decisões com os conhecimentos, sentimentos e circunstâncias que possuía naquele momento. Hoje podemos saber mais. Podemos enxergar diferente. Podemos escolher diferente.
Ontem eu não sabia.
Hoje compreendo.
Amanhã talvez transforme
aquilo que hoje ainda estou aprendendo.
Isso também é amadurecer.
Olhar para quem fomos sem desprezo, olhar para quem somos sem arrogância e olhar para quem podemos ser sem medo.
A autoanamnese também alcança nossos sonhos.
Quantos desejos são verdadeiramente nossos?
Quantos nasceram das expectativas de outras pessoas?
Quantas vezes confundimos sucesso com aprovação?
Quantas vezes seguimos uma estrada porque todos diziam que era o caminho certo?
Há sonhos que permanecem,
sonhos que se transformam
e sonhos que descobrimos
que nunca foram nossos.
Conhecer a própria história é também descobrir quais sonhos ainda fazem sentido.
E talvez esse seja um dos maiores poderes da reflexão: perceber que o passado explica muito, mas não determina tudo.
Somos memória, mas também possibilidade.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos continuidade, mas também transformação.
O passado pode explicar nossas cicatrizes, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.
Carrego o que vivi,
mas não sou apenas o que vivi.
Carrego minhas marcas,
mas elas não são meu nome.
Carrego meus erros,
mas eles não são meu destino.
A vida inteira pode ser compreendida como uma grande conversa entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando.
E talvez seja justamente por isso que precisamos, de tempos em tempos, silenciar o mundo.
Desligar o ruído.
Parar.
Respirar.
E perguntar:
O que está acontecendo dentro de mim?
Nem toda resposta surgirá imediatamente.
Algumas perguntas precisam permanecer conosco durante algum tempo. Algumas respostas chegam lentamente, através da experiência, da reflexão e das mudanças que fazemos no cotidiano.
A autoanamnese não é uma fotografia de quem somos.
É um espelho em movimento.
Hoje enxergamos uma parte.
Amanhã compreenderemos outra.
E, enquanto vivemos, aprendemos que conhecer a si mesmo não é encontrar uma definição definitiva, mas permanecer disposto a se conhecer novamente.
Sou memória
e sou possibilidade.
Sou passado
e sou caminho.
Sou aquilo que aprendi
e aquilo que ainda posso aprender.
Por isso, fazer uma autoanamnese não é voltar para trás.
É voltar para dentro.
É revisitar a própria história com honestidade, reconhecer o que nos construiu, compreender o que nos limita, valorizar o que nos fortalece e escolher, com maior consciência, aquilo que desejamos levar adiante.
Porque a vida não é somente aquilo que nos acontece.
É também aquilo que fazemos com o que nos acontece.
E enquanto houver consciência, haverá aprendizado.
Enquanto houver aprendizado, haverá transformação.
Enquanto houver escolha, haverá possibilidade.
E enquanto houver vida,
a história ainda estará sendo escrita.
Reza do Cativo
Pela Sobrevivência e Liberdade
Saravá, meu Pai…
Que o sinhô lá do céu escute nóis que sofre cá embaixo,
Que dê nóis o de cumê na cuia de barro,
A água boa, mesmo que no pote quebrado,
E um chão batido pra deitá o corpo cansado.
Saravá!
Que o chicote num levante quando a mão tá fraca,
Que o ferro quente num queime a pele quando a esperança quer nascê.
Que as mão de roça num seja cortada,
Que os pé de trilha num seja amarrado,
Que a pele num seja arrancada com ódio,
E que o sangue derramado faça brotá liberdade.
Saravá!
Protege os fio que foi vendido na feira, junto com gado e galinha,
Carregado em carroça, amarrado em fileira,
Sem nome, sem fala, só conto-de-reis na boca do feitor.
Ampara as irmã que geme baixinho na senzala, buchadas pelos homê do mal
Que cala por medo, mas chora lágrima que corre como rio escondido.
Guarda os corpo que tombô no porão do navio,
Com corrente no pescoço e sal na ferida,
Os que morreu no escuro, sem vela e sem canto,
Os espírito que ainda geme no tronco,
E os canto que foi calado com mordaça.
Saravá!
Que a memória dos mais velho num se perca:
Dos que contava história de África nas noite de lua,
Dos que batia tambor escondido no mato,
Dos que ensinava reza baixinho, de ouvido em ouvido,
Dos que passava segredo de erva na palma da mão.
Que o tambor nunca pare de batê,
Mesmo quando o sinhô proíbe,
Mesmo quando a chibata quer calar o couro.
Que o cheiro da arruda, do alecrim e da guiné limpe os caminho,
E que a fé dos que rezava escondido no fundo do quintal fique viva dentro de nóis.
Saravá!
Que a luz da candeia num deixe o corpo no escuro,
Que clareie a senzala,
Que guie os pé de quem foge na mata,
E que esquente nóis nas noite de frio,
Quando só o abraço da coragem faz companhia.
Que a candeia da esperança num se apague,
Mesmo quando a noite é comprida,
Mesmo quando o sinhô fecha a porta e leva a chave.
Saravá!
Que os pé de quem fugia deixe rastro de coragem na terra molhada,
Que os olho de quem viu a dor também veja liberdade,
E que o coração de quem sofreu saiba ainda amar.
Que os braço que empunhava enxada e foice ache descanso,
Que as costa que carregou fardo ache alívio,
E que a lágrima caída na terra seca faça nascê água de fonte.
Saravá!
Livra nóis das cobra que rasteja no mato,
Do capitão-do-mato que ronda com cachorro,
Do escorpião escondido no chão quente,
Da abelha que ferroa sem aviso, da ferida que num tem remédio,
E do cansaço que pesa mais que o sol de meio-dia queimando a pele.
Saravá!
Abençoa nóis na travessia da Kalunga Grande,
No gemido do tumbeiro que ainda ecoa,
Na senzala que guarda silêncio de morte,
No quilombo que guarda sonho de vida.
Dá força a quem correu com corrente no pé,
Dá voz a quem rezava escondido no mato,
Dá chão a quem fugiu pela picada da mata,
Dá descanso a quem tombou sem cruz, sem nome, sem reza.
Abençoa os fio e os neto que vem depois,
As família que vai carregá de nóis a força e a esperança,
Que ache na vida a liberdade verdadeira,
Que o coração deles seja forte, o pensamento sábio,
E os pé guiado pelos caminho de justiça e coragem.
Saravá!
Que cada gota de suor derramado vire canto de vitória,
Que cada lágrima caída no chão se transforme em rio de lembrança,
Que cada corpo caído na senzala se levante no quilombo da eternidade.
Coloca nos peito de cada um de nóis a certeza:
Que a liberdade é reza que nunca morre,
É tambor que nunca cala,
É chama que nunca apaga.
Saravá!
E que os fio de hoje e os fio de amanhã
num precisem mais chorá cadeia nem senzala,
que a liberdade chegue na vida deles como pão na mesa,
como água fresca no pote,
como canto que nunca se cala.
Saravá!
Que os neto e bisneto de nóis cresçam forte,
que a lembrança da dor se faça só memória,
mas que a força da coragem seja sangue correndo nas veia.
Que eles andem de cabeça erguida,
que tenham nome, voz e destino,
que ache no mundo o respeito e a paz que nóis sonhava.
Saravá!
E nóis jura, diante de Deus e dos mais velho,
que essa reza num morre,
que essa chama num apaga,
que essa palavra é tambor batendo no peito,
é vento levando esperança,
é juramento vivo de liberdade.
Saravá, axé!
Autoria:
Marco Arawak. antigo:
Nossas Mãos
O tempo passa a correr e nos obriga a ver que a armadura pesada deixou de valer. O que nos resta — e o que nos basta — é continuar a apertar firme aquela mesma mão que nos susteve no topo do sol e no fundo da tempestade que afasta. Chegamos à maturidade plena da alma, onde a defesa cede à calma e o controle do destino nos dissolve numa cumplicidade. É um amor que despiu todos os medos, cruzou as eras sem segredos e transformou a calmaria do outro na nossa única, inegociável e definitiva morada, sem espaço para outro enredo. Porque tentar respirar e viver longe de tudo isto é, no limite mais cru do instante, caminhar infinitamente sem direção.
Marco Arawak
Desnaturalizamos as dificuldades do processo de transformação, talvez porque tenhamos aprendido a enxergar a transformação apenas quando ela já terminou. Não sabemos reconhecer a beleza da transformação enquanto ainda estamos no meio dela, por ela se dar por meio de processos dolorosos.
Quantas últimas vezes aconteceram sem que soubéssemos que eram as últimas; quantos abraços terminaram sem que apertássemos um pouco mais, quantas vozes ouvimos acreditando que haveria outra manhã, quantas portas atravessamos certos de que voltaríamos. E quantas metas traçamos como se o futuro tivesse alguma obrigação de se parecer com os nossos planos; quantos caminhos terminaram em quase, quantos quase chamamos de fracasso apenas porque não chegaram ao destino que havíamos imaginado. Talvez haja nisso uma das contradições mais profundas da existência: precisamos acreditar no amanhã para continuar, mas é justamente essa crença que nos faz atravessar o presente como se ele fosse apenas passagem. Enquanto esperamos chegar, pessoas se tornam lembrança, desejos mudam de nome, caminhos se desviam e versões inteiras de nós desaparecem sem cerimônia. Talvez a vida não doa somente pelo que perdemos ou pelo que não conseguimos alcançar, mas por aquilo que só compreendemos quando já não podemos voltar: quase tudo o que um dia chamamos de futuro estava, silenciosamente, acontecendo diante de nós.
Marco Arawak
O agora importa. Faça de cada instante um momento significativo.
Fasa sempre o que certo para o amanhã seres bem sucedido.
Quando se Tornam Palavras
Alma, em estrofes.
Sentimentos, em versos.
Pensamentos, em palavras.
Há emoções que não cabem na voz,
silêncios que amadurecem por dentro
e lembranças que insistem em permanecer.
Então a alma procura abrigo na escrita,
o sentimento encontra ritmo,
e o pensamento aprende a existir
fora de quem o concebeu.
Escrever é isso:
dar forma ao que era invisível,
preservar o que o tempo tenta levar
e transformar ausência em permanência.
Porque algumas coisas passam.
Outras ficam.
E há aquelas
que só sobrevivem
quando se tornam palavras.
Para que não esqueçamos
daquilo que nos libertou
e nos cativou.
Marco Arawak
Desacreditado
Há um momento em que alguém deixa de ser apenas questionado e passa a ser desacreditado.
A diferença parece pequena. Não é.
Questionar ainda deixa alguma coisa em aberto. Ainda existe espaço para resposta, para dúvida, para surpresa. Desacreditar é diferente. Muitas vezes, a conclusão chega antes da pessoa.
Ela fala, mas a escuta já começa a se fechar. Tenta explicar, mas a explicação parece vir tarde demais. Tenta de novo e encontra aquela suspeita silenciosa de quem pensa, antes mesmo de ouvir: “eu já sei onde isso vai dar”.
É assim que um erro, pouco a pouco, deixa de ser apenas um erro.
Ele cresce. Ocupa espaço. Ganha memória.
E, sem que ninguém perceba exatamente quando isso aconteceu, passa a representar a pessoa inteira.
Há uma diferença enorme entre dizer que alguém falhou e dizer que alguém é um fracasso. A primeira frase fala de um acontecimento. A segunda transforma o acontecimento numa definição.
Talvez esse seja um dos pesos mais difíceis de carregar quando se é desacreditado: não apenas perder a confiança dos outros, mas perceber que, para alguns, já não existe sequer o direito de ser diferente daquilo que um dia se mostrou ser.
No começo, isso vem de fora.
De um olhar. De uma palavra. De uma comparação. De uma lembrança que alguém insiste em trazer de volta. Vem daquela sensação estranha de que uma versão antiga de nós entrou no ambiente antes da nossa chegada.
Depois, com o tempo, alguma coisa muda de lugar.
A voz que vinha de fora começa a aparecer por dentro.
“Ninguém acredita em mim” pode, quase sem ruído, transformar-se em “talvez eu também não deva acreditar”.
E aí o descrédito se torna mais perigoso.
Porque já não precisa de plateia.
A pessoa recua antes que a rejeitem. Evita tentar para não confirmar aquilo que teme. Cala algumas coisas antes mesmo de descobrir se seriam ouvidas.
Não porque tenha necessariamente perdido sua capacidade, mas porque começou a perder algo mais delicado: a imagem de si mesma como alguém capaz.
Nem todos reagem da mesma maneira.
Alguns se recolhem. Passam a esperar menos de si, dos outros, da vida. Outros fazem o contrário: tentam provar demais, transformam cada gesto numa defesa, cada erro numa ameaça, cada dúvida alheia numa nova acusação. Há ainda quem escolha o desapego como proteção: se eu não esperar nada, pensa, nada poderá me frustrar.
São caminhos diferentes, mas podem nascer da mesma ferida.
O descrédito repetido reduz expectativas. Expectativas menores podem reduzir tentativas. E menos tentativas podem produzir, com o tempo, justamente aquilo que no início era apenas um julgamento dos outros.
A pessoa deixa de arriscar.
Deixa de insistir.
Deixa de imaginar alguns caminhos.
E, anos depois, talvez olhe para aquilo que não aconteceu como se nunca tivesse sido possível.
É aí que a frustração se torna mais difícil de compreender.
Porque ela não nasce apenas do que se perdeu.
Nasce também do que deixou de ser tentado.
Dos caminhos abandonados antes do primeiro passo. Das escolhas recusadas por medo. Das possibilidades que morreram não porque fossem impossíveis, mas porque a própria pessoa passou a acreditar cedo demais que não conseguiria alcançá-las.
Talvez, então, alguns dos frustrados de amanhã sejam os desacreditados de ontem que, pouco a pouco, aprenderam a esperar menos.
Não todos.
Não necessariamente.
Mas alguns.
Sobretudo aqueles que passaram a carregar por dentro o julgamento que antes vinha de fora.
Ainda assim, é preciso cuidado.
Desconfiar também protege.
Nem toda pessoa merece crédito. Nem toda promessa deve ser acolhida. Nem toda segunda chance precisa ser dada apenas porque foi pedida.
Há pessoas que repetem.
Há arrependimentos que funcionam muito bem nas palavras e muito mal nos atos.
Há mudanças anunciadas tantas vezes que acabam se tornando apenas outra maneira de ganhar tempo.
Por isso, desconfiar nem sempre é dureza.
Às vezes, é memória.
Às vezes, prudência.
Às vezes, é a forma que encontramos de não cair novamente no mesmo lugar.
Mas existe uma fronteira. E talvez ela seja mais importante do que parece.
A dúvida pergunta: “será?”
A desconfiança pergunta: “que razões tenho para acreditar?”
O descrédito absoluto já decidiu: “nada será suficiente”.
Um ainda observa.
O outro procura apenas aquilo que confirma o que já pensava.
Um admite a possibilidade de rever.
O outro transforma um episódio em destino.
Talvez seja por isso que desacreditar alguém possa significar mais do que retirar confiança.
Pode significar retirar movimento.
Deixar de admitir que uma pessoa possa reparar, amadurecer, aprender tarde — mas aprender. Recusar a hipótese de que possa fazer diferente, surpreender, escapar da imagem na qual foi aprisionada.
Isso não significa esquecer.
Nem fingir que nada aconteceu.
Nem devolver confiança apenas porque o tempo passou.
O tempo, sozinho, não melhora ninguém.
Há coisas que precisam ser demonstradas. Mudanças que exigem constância. Palavras que só recuperam algum peso quando, finalmente, começam a aparecer nos gestos.
Mas existe um perigo também do outro lado.
O perigo de decidir cedo demais que nada jamais será suficiente.
Porque chega uma hora em que já não estamos apenas tentando nos proteger de uma nova decepção.
Estamos tentando proteger nossa própria certeza de qualquer coisa que possa contrariá-la.
E isso também aprisiona.
O descrédito pode começar como defesa e, devagar, virar prisão para os dois lados: para aquele que perdeu o crédito e para aquele que já não consegue rever o julgamento que fez.
Quanto tempo deve durar um erro?
É difícil responder.
Quanto de alguém deve permanecer preso ao pior que fez?
Não sei se existe uma medida justa.
Quando uma lembrança necessária deixa de ser memória e passa a funcionar como sentença?
Em que momento uma mudança deixa de ser apenas uma fala bonita e começa, de fato, a merecer consideração?
Talvez essas perguntas não tenham respostas fáceis — e talvez não devessem ter.
Há uma tensão que não desaparece: responsabilizar sem congelar, desconfiar sem transformar a suspeita numa identidade, reconhecer mudança sem inventá-la, admitir reparação sem apagar aquilo que aconteceu.
Talvez maturidade tenha menos a ver com saber exatamente quando acreditar e mais com continuar capaz de perceber quando a realidade já não cabe na ideia que fizemos dela.
Porque o descrédito também seduz.
Há nele uma estranha promessa de segurança.
Quem não espera nada imagina que não poderá se frustrar.
Quem não acredita em ninguém pensa estar protegido do engano.
Quem já decidiu que alguém nunca mudará não precisa enfrentar o desconforto de admitir, um dia, que talvez tenha mudado.
Só que toda certeza cobra alguma coisa.
E, às vezes, cobra justamente a capacidade de enxergar aquilo que veio depois.
Ser desacreditado talvez seja uma forma de exílio.
Não exatamente de um lugar.
De um lugar possível.
É entrar numa conversa e sentir que aquilo que você fez anos atrás chegou antes. É perceber que o erro ocupa tanto espaço que quase não sobra lugar para todo o resto. É ser ouvido por meio de uma versão antiga de si mesmo.
E isso cansa.
Cansa ter de explicar.
Cansa ter de provar.
Cansa perceber que, para algumas pessoas, qualquer gesto novo continuará sendo lido por uma lente velha.
Talvez uma parte da reconstrução comece quando entendemos que não controlamos o momento em que os outros voltarão — se algum dia voltarem — a nos enxergar de outra maneira.
Algumas confianças não serão recuperadas.
Algumas portas não se abrirão novamente.
Algumas pessoas preferirão guardar para sempre a versão de nós que conheceram num momento ruim.
E há pouco que possamos fazer sobre isso.
Mas existe uma parte que não deveria ser entregue.
A própria identidade.
Porque perder o crédito de alguém não é a mesma coisa que perder a si mesmo.
Talvez a última resistência do desacreditado seja justamente essa: não passar o resto da vida tentando provar alguma coisa para todos; não transformar cada gesto numa defesa; não viver permanentemente diante de um tribunal imaginário, esperando uma absolvição que talvez nunca venha.
Talvez seja apenas continuar.
Com mais consciência.
Com menos ilusões.
Talvez com algumas cicatrizes.
Mas continuar.
E conservar dentro de si a chance de ainda se tornar alguém que nem o próprio passado conseguiu prever.
Porque ninguém deveria ser obrigado a coincidir para sempre com o pior momento da própria história.
Talvez exista uma liberdade pequena, quase silenciosa, nisso.
Seguir em frente sem exigir que todos voltem a acreditar.
Sem implorar que esqueçam.
Sem negar aquilo que aconteceu.
Mas também sem permitir que o descrédito dos outros tenha autoridade para escrever a última frase sobre quem ainda podemos ser.
" É preciso perder para aprender a ganhar. Aqueles que somente ganham - ou somente ganhando querem viver - não sabertrão como portar-se nem como suportar-se, tempouco como encontrar suporte para os cortes que as perdas fazem acontecer".
" Quando buscamos adaptar o mundo e as pessoas aos nossos padrões pessoais de realidade e verdade, sem estarmos alinhados com uma postura humilde, corremos o risco de cometer grandes equívocos. (...) As diferenças são um recurso divino, capazes de enriquecer a experiência do ser espiritual em direção à plenitude."
Mas o homem é como certas aves domésticas, que podem estar presas em galinheiro ou viveiros enormes, mas forçam sempre as portas e, encontrando saída, mesmo para um mundo menor e absolutamente ignoto, tem por desejo único fugir, escapar.
A mente, sempre foi e será a união entre a carne e o espirito. União essa que deve ser sempre protegida como a vida.
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