Selecção semanal
5 achados que vão mudar sua rotina Descobrir

Nao sei o que fazer tenho dois Amores

Cerca de 667092 frases e pensamentos: Nao sei o que fazer tenho dois Amores

No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não fez de pedra
nossas casas:
faz de asa).

No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida.

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular).

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com a matéria dura:
o ferro o cimento a fome
de humana arquitetura.

Nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do ovo.
-Oscar nos ensina
que a beleza é leve.

Quem fala que não está nem aí para o que os outros pensam é porque está querendo que os outros pensem isso.

Os ombros suportam o mundo, chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor, porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.

O mundo não sabe que é criativo.

Clarice Lispector
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Trecho da crônica Conversa puxa conversa à toa.

...Mais

...não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum.

Pra mim tudo tem remédio, só a morte que não. Porque eu aprendi que mal de amor, se cura com o novo amor. Não deu certo com aquele babaca? Tenta com outro.

Pode não parecer, mas mudar e amadurecer são duas coisas bastante diferentes.

Cuidado! Não deixe os maus pensamentos ou as dúvidas levarem algum de vocês a se afastar do Deus vivo.

Você quer, mas nem ao menos tenta. Realmente não espera que se realize, não é?

Se você decide não voar por qualquer coisa que você supõe que te prenda, lembre-se, isto também é escolha sua.

Sabemos quem somos e o que sentimos, mas não sabemos até quando.

Então vai... vai na paz e não volta jamais! Quem vive de passado é museu e caranguejo é que anda pra trás.

O novo não é o contrário do velho. O novo é o oposto das prisões que nos impomos.

O Lampejo

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não freqüenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Itupu
pela polícia.

Come mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
é assaltante?
é posseiro?
é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
às vezes o espancam
às vezes o matam
às vezes o resgatam
da merda
por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
tisnado de sol
cavado de aflições
e no fundo do olhar, no mais fundo,
detrás de todo o amargor,
guarda um lampejo
um diamante
duro como um homem
e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.

Viver se iludindo é a mesma coisa que tentar dormir o dia inteiro. Não adianta, uma hora você acorda.

Te convencer a comprar o que você não precisa
e ainda te deixar feliz por isso:
nisto consiste o trabalho de um vendedor de arte.

Não tem nada que me deixa mais inteira do que sentir o medo de ser despedaçada.

Mesmo que eu não diga sempre, obrigado por cada pequena coisa que você faz por mim, e que tornam mais suaves os meus dias.

Não me encham o saco, eu fico aqui, meu bem, entre escombros. E nem morri.

Eu acho que, quando não escrevo, estou morta.

Clarice Lispector

Nota: Trecho de entrevista com Júlio Lerner para a TV Cultura, em 1977.