Nao Mereco tanto Amor
Preciso de alguém que me faça companhia no banco da praça ou no balcão gasto da cozinha para falarmos bobagens ensandecidas até o final do dia. Alguém que pouco se importe com meus deslizes e escute, engula e assimile todas as minhas verdades inventadas. Alguém que nem sequer tente solucionar o meu problema. Nunca pedi resolução de nada. Eu peço salvação, mas ninguém vem, ninguém ouve, ninguém acuda.
Mas, em todos esses lugares você vai comigo. Você segura a minha mão na hora de atravessar a rua, eu vejo você deitar no meu colo quando eu menos espero. Você me olha triste quando eu encaro o relógio pela milésima vez. Sente orgulho de mim quando eu domino um assunto. Me admira quando eu solto uma gargalhada. Vira o rosto se alguém se interessa por mim. Você me espera na porta do carro. Come devagar só pra me fazer companhia. Você aparece quando eu acordo e me presenteia com um lindo e sincero sorriso. Aparece em todos os filmes de romance, em trechos de livros também. Eu até acho graça disso tudo, porque, virou normal essa coisa de passar a sentir a sua presença mesmo quando estou sozinho. Meu coração se acalma quando ouve a simples menção do seu nome e os medos evaporam quando lembro de que ainda te tenho em algum lugar em mim. Você não sabe, mas eu vejo você o tempo todo.
Ela que se dizia esperta, cheia de planos e conceitos, na verdade sentia um vazio enorme dentro de si. Então se olhou no espelho e viu a criança boba com laço amarelo na cabeça que nada sabia da vida e tanto queria explorar. Ela era tão pura quanto os olhos amendoados. Olhou-se no espelho e enxergou exatamente o que queria ver: O começo. Ela queria ser aquela menina boba que desenhava balão no caderno da escola, que decalcava coração grande e o pintava de vermelho sem pensar nas cicatrizes.
Quando criança, gostava de admirar as coisas até os olhos brilharem de encantamento. Mal comia biscoito na hora do lanche do colégio, por exemplo, porque achava impressionante o formato de coração que tinha. Guardava os detalhes, era feliz por isso. Tão inocente, se apaixonava fácil pelas coisas.
A Ilusão da Tristeza é a carência de si mesma
E a loucura que nasce do seu ventre,
São bárbaros feitos de vidro.
Ele é lindo de formas inexplicáveis. Faz arrepiar num simples sorriso. E doído, tão doído. Tadinho. Vez em quando penso que ele precisa de amparo, sabe? É um homem feito, tem até barba. E mesmo assim vejo ele tão menino, tão sofrido.
Dei pra te imaginar nos lugares e fotografar o momento, foi a solução que encontrei pra diminuir esse caos dentro de mim.
Bem ali, na frente de todo mundo, me puxou para perto e me beijou. Foi tudo muito rápido. Ainda que parecesse em desordem e sem resposta, ainda que eu não entendesse nada, naquele momento, tão perto e aparentemente obsceno, eu não podia negar o fato de que tudo também parecia certo.
Daí também eu preciso ficar um pouco só, me afastar de algumas pessoas. Preciso me renovar de alguma forma.
E foi aí que eu o vi. Num canto, no meio da multidão. Tinha a beleza de uns olhos perturbadores, uma agonia. Me apaixonei por aquele caos.
Daí depois de vários dias seguidos, acreditando e vivendo para isso, tive certeza que eu estava enlouquecendo.
E fiquei mais magro. Mais até do que jamais se tinha visto, e cansado também. Havia pequenas rugas se estendendo desde os cantos dos meus olhos até o alto da testa. Mal saía de casa, era tudo interno. Eu já havia desistido de mim.
Mas, em algum lugar, éramos eternos. De alguma forma, ainda que temeroso, algo em meu coração dizia que tudo voltava ao seu devido lugar. E voltava.
Decorar as cores mais curiosas que estão escondidas sob tua retina. Dedilhar devagarzinho tua barba até encontrar aquilo que mais há de bonito em teu rosto. Eu enxergo beleza na parte mais triste e sofrida que puder existir em você e que ninguém vê. Há beleza na tristeza, tu me dizia em meio a sussurros. Há beleza no amor, eu te disse entre os afagos confusos.
Pensei numa festa bem bonita, cheia de gente nos desejando as mais belas felicitações. Planejei que fosse tudo num gramado, um lugar onde fosse possível mostrar nosso mundo repleto de cores. Pensei também em uns retratos que fossem além do simples desejo de guardar no álbum. Depois poderíamos ir para Paris, frequentar aquelas ruas apaixonantes, tomaríamos um café quentinho numa confeitaria, abraçados, ouvindo um jazz qualquer.
O calendário marca a data do encontro, mas desconhece — propositalmente — o momento da despedida. O problema é esse, meu bem: eu te amei sem pensar nas cicatrizes, nas pausas curtas e na escuridão das partidas.
Você tem mania de confundir meus olhos escuros com seus abismos. Joga todo o peso sobre mim como se eu aguentasse o peso do mundo, do seu mundo. E eu nunca aguentei.
