Nao Mereco tanto Amor
AMOR À PARTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Fui à última instância de crer nos teus olhos
e de crer nos meus olhos como tua crença,
minha imensa esperança num afeto extremo
sem a mancha do medo nem da precaução...
Quis viver algo à parte, uma lenda sem fraude,
um amor com poder sobre todos os mais,
pela paz da não jura e do não compromisso
nem do certificado de laço exclusivo...
Inventei uma troca de silêncios férteis
entre jogos de olhares que diziam tanto
ao encanto exclusivo de gestos secretos...
Só queria te amar sem trair convenções
ou ferir corações com raízes no meu
que não tem o direito de roubar o chão...
AMOR DE FESTIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eram tão exaltados
o teu amor de festim,
a tua louvação,
que hoje não nego:
conquistaste meu ego;
não o meu coração.
AMOR ENGANOSO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Houve quem me fizesse descrer nesse amor
que se jura e confessa com fogo nos olhos,
vem na flor dos sentidos e grita no corpo
feito alma de fora; coração exposto...
Alguém veio e desfez o paraíso em mim,
trouxe o fruto enganoso e me fez devorar,
pra no fim da ilusão me diluir no caos
desta paz fria e triste que secou meu chão...
Tive quem atestasse que tudo é mentira,
mesmo quando é verdade que o lábio supõe
aos ouvidos carentes da certeza incerta...
Foste o sonho que veio pra me despertar
e saber que o amor só foi pena cumprida;
minha vida está livre desse desengano...
O AMOR COMO CIDADANIA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Apregoa-se aos quatro ventos a velha e boa tolerância, porque isso já é alguma coisa para que se garanta um convívio socialmente aceitável, seja na família ou na sociedade externa. E também porque o amor, embora seja um mandamento e uma prerrogativa de convivência pacífica e saudável, não é um dispositivo que atende naturalmente ao frio comando religioso, jurídico e social dos mandamentos, leis e prerrogativas.
Mesmo assim, que o genérico seja estabelecido. Que as pessoas ao menos se tolerem como sinônimo improvisado e transversal de amar. Um dever cívico de assegurar a paz, por tratado e assinatura. Façam o bem ao próximo ou pelo menos não façam o mal, mesmo que seja só por obediência; interesse religioso; temor da lei do retorno. O que não é de livre natureza e precisa existir para sobrevivência do ser humano, tem realmente que ser lei; mandamento; engenho de convivência social.
Ninguém precisa ter drama de consciência por não amar a quem acha que deveria. Nem por amar menos; ter sua preferência entre duas ou mais pessoas que merecem o mesmo sentimento; na mesma medida. Forçar afetos, treinar emoções, traçar metas sentimentais não tem como funcionar. Neste caso, estabeleça dentro de si o bom senso; a imparcialidade; a razão que lhe garanta o senso de justiça quando precisar decidir sobre o que fazer numa bifurcação de cunho social ou familiar.
Responsabilidade já é quase amor. Não substitui, mas recapeia. Remenda. E se você não tem amor, mas tem bom caráter, tudo se resolve bem a contento, pois o bom caráter sempre garantirá suas boas escolhas. O seu perfeito juízo para tolerar; entender; ter consciência; usar a própria razão até para dar ou não razão, sem cometer injustiça. No fim das contas, tudo se mistura de modo a ser amor. Ainda que por cidadania.
CIDADÃO DO MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ser humilde, mas nunca ser ovelha;
ter amor sem perder o próprio brio;
concordar, discordar sem me trair,
sem cair nas amarras dos mandantes...
Tenho lado, partido, às vezes crença,
mas me livro, descarto e digo basta,
quando menos se pensa em meu poder
de pensar e sentir por conta própria...
Quero ser o que sou, mas no caminho,
posso estar, trocar pele, até conceitos,
deixar ninho e voltar se assim quiser...
Sei rasgar os padrões e os uniformes;
desmentir os informes, as cartilhas
da direita, da esquerda e do volver...
LIRA FUGAZ
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Dei amor sem amar; isso teve o seu preço;
entreguei um vazio que forjou essência;
tive tua fé cega num guia de gesso,
pela funda ilusão de vencer a carência...
O que fui para ti foi um caso de urgência;
fui ficando, e depois, me tornei endereço;
me deixei dominar ou cedi à dormência
e meu fundo sem alma se deixou do avesso...
Dei assim, sem doar, o melhor dos empenhos;
os carinhos e beijos foram meus engenhos
de levar uma vida que julguei a dois...
Mesmo assim fui sincero na minha mentira,
na canção passageira da qual foste lira,
mas mostrou, desde antes, não haver depois...
PARA NOVAS SAUDADES
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Outra peça de amor será bem vinda
numa vida que agora está vazia;
uma farsa bem doce, aconchegante,
fantasia de todos os desvelos...
Outro alguém pra fingir que bem me quer,
ser capaz de qualquer desdobramento
pra sarar minhas mágoas com carícias;
bons momentos de falsa eternidade...
Já me cansam sinceros bons humores,
os amores azedos de franqueza
de quem faz o dueto ser duelo...
Quero a luz da ribalta passional;
emoções, alegrias de festim,
mais um fim de saudosas ilusões...
AMOR INCONFESSÁVEL
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Subfalo do amor inconfessável
num silêncio de voz subliminar,
tenho medo e por isto subcalo
tudo em mim que flutua sobre nós...
Relutando em meu ser te subquero
com a força incontida que contenho,
subespero a resposta que não há
e me fecho na minha subvida...
Meu amor se acomoda em subter
teu olhar de viés e sub afeto,
veto exposto num tom de permissão...
Subfujo em usar subterfúgios
nas paixões onde penso achar exílios
ou refúgios nos quais me sub oculto...
ABRAÇADO À SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
É assim que te amo; sem ação;
deixo minhas palavras ancoradas,
pois o meu coração é cais distante
onde guardo incertezas e temores...
Eu te quero com tanto não querer,
sonho tanto e com tanto não dormir,
que nem sinto sentir essa mordaça
em meus lábios; na língua dos meus olhos...
Estou sempre abraçado à solidão
deste amor cujo eco não existe;
só a triste mudez correspondida...
Sendo assim que te amo sou segredo
que a coragem do medo perpetua
sob a lua de nossa improbidade...
AO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eu vou direto
ao amor...
Sem atalhos;
truques; freios.
Porque não sou
do tipo
que faz "odeios".
SAUDADE FURTIVA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Fui seu algo acessível por faltar alguém;
um amor provisório, improviso afetivo;
fiz um bem quando a vida lhe fazia mal,
dei motivo e sentido pro seu prosseguir...
A carência me achou e me adequou à sua
que me teve nos flancos dessa solidão,
dei a lua que a noite pedia em su´alma
e servi a paixão que seu corpo queria...
Fomos algo arranjado por nosso destino;
uma data festiva que se fez cumprir,
um abrir qualquer chão e semear momentos...
Você foi o que fui, mas com menos verdade,
tanto foi que a saudade me viu por aqui,
numa hora improvável pra me torturar...
APELOS MODESTOS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quem tiver um amor sobrando aê,
uma sobra de afeto – qualquer um,
qualquer prisma, soslaio dum olhar,
venha ver quanto bem lhe faço em troca...
Serei grato por gestos e palavras,
por afagos discretos nos cabelos,
minha lavra de sonhos e carências
tem apelos modestos e sutis...
Eu aceito até beijo em minha testa;
faço festa por mão mais generosa
e não vou exigir além da conta...
Tenho tempo; quem sabe lhe seduzo,
mas me privo de abuso e peço aê,
sua esmola de afeto inicial...
CAMINHÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Dei amor de São Cosme e Damião,
nas esquinas do sonho e da esperança,
mas de sólido tive a solidão
que me pôs pra rodar na sua dança...
Tenho tanta saudade como herança;
sob minha couraça, o coração;
ele faz que se ajusta, mas alcança
os estágios mais fundos da emoção...
Pago todos os preços do que fiz,
dou meu jeito sem jeito e sou feliz,
apesar das arrobas dos pesares...
Transformei o caminho em caminhão;
é assim que atropelo a frustração
e minh´alma se banha doutros ares...
JANELA DE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Somos mais do que flanco entre nossas vontades;
do que margens opostas nos dizem que somos;
temos nossas verdades atadas por sonhos
ou de sonhos tecemos a ponte pra nós...
O amor que sentimos tem asas potentes;
é a mágica, o truque, o encanto exercido;
nossos dentes nos pescam no rio do tempo
que deságua nas ondas do nosso querer...
Eu te caço e me caças com fogo nos olhos,
com a pele grudada na grelha do instinto,
vinho tinto na carne tremendo entre a mão...
Entre vozes uivantes nos temos em nós;
nossa foz vai ao chão, engravida o vazio
e acende o pavio para novo incêndio...
O ECO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Foi amor infinito; sei que sim,
mesmo havendo ficado no caminho;
teve um fim que não teve, porque é
um espinho florido na saudade...
Seus efeitos ficaram no meu ser;
nas lembranças que a mente quase toca;
numa toca secreta nas entranhas,
no viver entre os panos do passado...
É amor que disfarça que se foi,
pra que o tempo não ache o ponto fraco;
não aumente o buraco entre nós dois...
Fomos tudo que ainda sou por nós,
trago a voz das promessas que trocamos
e a faço ecoar no meu silêncio...
MAPA DA MINA
Demétrio Sena
Tenho amor de reserva, um bom montante
que poupei desde os dias de menino;
fui errante afetivo e me guardava
sob a vasta incerteza de respostas...
Trago em minha colmeia o mel mais denso;
mais curtido e secreto; sertanejo;
meu desejo é dulçor que também arde
num imenso tonel de solidão...
Guardo anseios, lembranças, nostalgias,
dias tristes de sonhos desmentidos,
de abandono e de muita indecisão...
Sob tantas feridas, tanto amor;
uma grande barragem de sentidos;
bom humor que tirei das próprias mágoas...
POR MAIS NINGUÉM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca tive um amor antes de ti
ou durante; nem quando achei que sim;
nem no fim temporário da razão
que alugou meus sentidos embotados...
Tive muitas vontades mundo adentro,
bebi muitas quimeras tempo afora,
fiz mais hora que amor, quando não fiz
em teus braços, meu ninho natural...
Procurei o teu rosto em outras caras,
outras taras não tinham tua essência,
paciência; tentei; não fui feliz...
Nossos dias grisalhos me remoçam;
minha casa, meu mundo são em ti;
não senti este amor por mais ninguém...
CAMINHOS DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma troca de opostos e recusas
que se aceitam no vão das oponências,
desafiam dormências e silêncios
latejantes na sombra do querer...
O amor das impossibilidades,
dos carinhos com farpas e faíscas,
com verdades que tentam se ferir
em um ringue de abraços disfarçados...
Eis o ponto em que nossas diferenças
podem ter semelhanças decisivas,
fontes vivas de sonhos em comum...
Descaminhos se cruzam no vazio
e vazios preenchem um ao outro,
sobre o fio que logo será ponte...
REFLOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amor vem distante; já consigo ver;
uma brisa me beija e fica seu aroma;
minha soma de vidas revela o que sinto,
já no broto que mama no seio do tempo...
A minh'alma grisalha teme o verde amor,
um orvalho me cobre de sonhos dormentes,
vejo dentes-de-leite na boca do espaço
e a flor dos anseios está no botão...
Mas também me conheço e me vejo sofrer
até ver que o que tenho são muitas lembranças
e serão de saudades as outras vivências...
Quanto menos tiver pra recordar no fim
será menos em mim pra secar e ruir
ou morrer de morrer de sentir novas dores...
QUASE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Pelas vias do velho quase amor,
quase tudo é viável; permitido;
tudo ganha sentido e condição,
ganha cor que o momento justifica...
Muitos quases permeiam nossos passos,
vêm à tona e desenham seus contornos,
nossos braços provocam nossas mãos
e as línguas desenham confissões...
Quase amor é o amor por se fazer,
o prazer a caminho, em modo espera,
um fazer atrelado ao jamais feito...
Há nas vias banais do velho quase,
uma base de amor acomodado
em silêncios eivados de palavras...
DO AMOR DESAVISADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem já viu coração raciocinar
e conter o seu corpo já rendido,
desmentir o cupido e dar à mente
a razão que da mesma se perdeu?
Não existe juízo, se o desejo
se aliou à latência intravenosa,
fez a prosa fugir, cedeu ao verso
que gerou a fogueira da paixão...
Nem há solo pros pés de quem caiu
entre as teias do amor desavisado,
o pecado evitável vira lenda...
Coração não pertence ao corpo tátil;
só a bomba que serve ao seu desmando
e me flagra te amando sem querer...
