Nao me Julgue antes de me Conhecer
A sombra do meu pecado me trai — um vulto que conhece meus passos antes de eu os dar.
Atrai-me para o submundo onde a escuridão tem voz e os nomes se desfazem,
um convite sem luz, uma promessa que cheira a ferro e a lama.
Somos dois náufragos: eu e essa sombra que me habita,
invisíveis aos olhos que ainda acreditam em salvação.
Envolvidos como raízes emaranhadas, presos no pântano do desejo,
onde o tempo apodrece e as horas se tornam moscas.
Caímos sem alarde, amordaçados pela própria culpa,
a boca cheia de terra, o grito reduzido a um eco de ossos.
A decomposição não é só do corpo — é do nome que eu dava às coisas,
do mapa que traçava para me encontrar, agora rasgado e úmido.
Há um frio que não passa, uma sede que não se sacia;
cada passo afunda mais, cada lembrança vira lodo.
E, no entanto, há uma clareira de silêncio dentro desse breu,
um lugar onde a traição aprende a dizer o seu próprio nome.
Não peço perdão — não ainda — porque o perdão exige luz que não trago.
Quero apenas ver, por um instante, a sombra desvelada:
que se revele inteira, sem disfarces, para que eu saiba com quem divido o corpo.
Se a escuridão é casa, que seja ao menos honesta;
se o pântano é prisão, que me mostre a porta que não consigo ver.
E se a decomposição é destino, que me ensine a colher do próprio fim
a semente que, talvez, um dia, resista e floresça na lama.
Natal, final de ano...
A saudade chega antes das luzes,
antes da ceia,
antes do abraço que não vem.
Ela se instala silenciosa
e ocupa tudo.
Neste 31 de dezembro,
há quatro anos você partiu,
mas a sua ausência nunca foi vazia:
ela pulsa,
ela aquece,
ela lembra.
Sinto você no brilho que insiste,
na música que atravessa a noite,
no piscar das luzes
que parecem me chamar pelo nome.
A saudade não apaga.
Ela transforma.
Você continua brilhando.
Só mudou de lugar:
deixou a ponta da nossa árvore
e fez morada no céu.
Com amor,
Geórgia Palermo 💐
Antes de fazer os pedidos para Deus e simpatias para o seu novo ciclo anual;
Certifique-se de que você esteja realmente disposto a arcar com as consequências do que deseja.
Não esqueça que sem propósito nada se realiza.
Quanto tempo ainda você tem?
Quanto ainda você tem
antes que subir num ônibus
deixe de ser rotina
e passe a ser batalha?
O tempo, em silêncio,
vai diminuindo o passo,
alongando as pausas,
encurtando os dias.
Aquilo que hoje parece eterno
amanhã será quase memória.
E há um perigo nisso:
viver apenas do que já foi.
Lembranças aquecem,
mas não alimentam.
Elas não substituem
o riso de agora,
o encontro de hoje,
o passo dado mesmo com medo.
Criar memórias
é um ato de coragem.
É escolher viver
antes que o tempo escolha por você.
Você entende?
Enquanto ainda pode,
viva.
Clayton Leite
Antes eu sentia a dor sem saber de onde vinha.
Hoje eu a reconheço, dou nome, estabeleço limites e escolho como atravessá-la.
Antes que um comentário impulsivo e provavelmente desrespeitoso seja lançado, melhor respirar fundo, ficar em silêncio e se manter distante, quando uma presença que era doce passou a ter um gosto amargo,
A causa de um desconforto improdutivo, demasiadamente, desagradável, pois a consideração que se tem pelo outro não deve ser ignorada, mas também não deve ser uma permissão para o inaceitável
Cuidado com as palavras, uma vez lançadas, não voltam, inclusive, as insensatas, expressadas por impulso, pelo calor da raiva ou qualquer outro sentimento que demonstre insatisfação, uma reação que não leva a nada.
Sinto a urgência de dizer as coisas antes que se percam.
A vida me parece uma despedida escrita em movimento,
capítulo após capítulo, sem rascunho definitivo.
Posso crer no que quiser — eternidade, alma, paraísos.
Mas, de concreto, só me foi dada esta travessia:
começo, meio e um único desfecho.
É o limite que torna tudo raro.
Existir uma vez exige atenção às muitas chances do agora.
Por isso, não deposito fé cega na promessa do amanhã.
Trocar o presente por uma possibilidade futura
é um investimento frágil demais para algo tão sério quanto viver.
Não adio palavras necessárias.
Digo meus “sins”, sustento meus “nãos”.
Cuido do que merece memória
e deixo o resto ir sem alarde.
Arrisco-me.
Lanço meus dados diariamente.
Escrevo-me, risco-me, reescrevo-me —
até que a carta, enfim, encontre seu ponto final.
Transbordando
Demétrio Sena - Magé
A saudade que levo é de algum tempo
muito antes da bolsa que habitei,
vem de quando não sei nem rebuscar
nas memórias em sobreposição...
Ela dói com pungência que aprecio,
pois me dá fundamento; identidade;
tece um fio que aponta pro sentido
que não vejo nos dias por aqui...
Peço a volta no tempo inexcrutável,
já não acho saudável tanta marcha
neste rumo que aponta pro vazio...
Quero ir, os meus passos estão leves
e preciso entender a própria rota
ou a gota que avança minha margem...
... ... ...
Respeite autorias. É lei
