Nao me Julgue antes de me Conhecer
Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.
Meu silêncio é transbordamento, não vazio. É o resultado de sentir tanto que nenhuma palavra parece suficiente para traduzir.
Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.
Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.
Viver nesse estado não é uma escolha estética, é a única forma de habitar um corpo que já não reconhece o sol como uma promessa.
Meus silêncios não são ausência de som, são gritos que aprenderam a se comportar para não assustar os que ainda acreditam na leveza da vida. Por dentro, sou um estrondo de vidros quebrados, por fora, apenas a poeira que se assenta após a queda.
Há dias em que o cansaço não é muscular, é um peso que vem de séculos passados, como se eu carregasse o luto de todas as versões de mim que morreram antes de florescer. A gente não envelhece apenas pelos anos, mas pelas despedidas que fazemos em silêncio diante do café frio.
Não me peça para sorrir para a foto quando minha alma está ocupada demais tentando não desmoronar sob o peso de um céu que hoje resolveu pesar toneladas. A melancolia é o meu estado de repouso, o único lugar onde não preciso fingir que a vida é um comercial de margarina.
Cicatrizes são medalhas da alma, não se espera emoção por ter elas, essas marcas de batalhas, insígnias de coragem invisível que um dia, foi a única moradia conhecida.
A vida não me mostrou motivos para prosseguir, mas ainda assim caminho.
Talvez o sentido esteja escondido
no simples ato de não desistir.
Não vejo sentido em continuar...
a vida, até aqui, tem sido um campo árido, onde minhas sementes nunca germinaram. As manhãs chegam frias, trazendo o mesmo silêncio de ontem, e meus passos ecoam vazios, como se não deixassem marcas na terra. A vida não me mostrou muitos motivos para seguir lutando por ela. Tudo o que encontrei foram paredes altas, portas fechadas, e um céu pesado que pouco se abre. E, ainda assim, permaneço. Não por esperança, não por promessas que nunca vieram, mas pela estranha teimosia do coração, que insiste em bater mesmo quando tudo desmorona. Talvez o sentido não esteja fora, nas conquistas ou nos caminhos claros, mas dentro, na chama pequena que resiste ao vento, na voz que, mesmo frágil, sussurra em mim:
“Ainda não é o fim."
Não me faltou vontade, nem coragem para crescer. Faltou-me apenas o espaço que mãos alheias roubaram. Chamaram de orientação o que era apenas prisão; chamaram de liderança o que não passava de opressão.
Ao olhar uma estrela cintilante, não sei se seu brilho é verdade ou apenas a memória de uma luz extinta, que há muito deixou de existir. Talvez não seja ela que se perdeu, mas eu, que permaneço no lugar errado.
Ao longo da minha trajetória, muitos se foram, mas não sinto falta, o que partiu, na verdade nunca me pertenceu.
Migalhas espalhadas no chão para nós, pombos de olhar cansado. Mas a alma, mesmo à espera, não se curva, sabe que há céus inteiros por onde voar.
Ao deixar a juventude, ganhamos não apenas cabelos brancos, mas também sabedoria, a capacidade de olhar para trás sem arrependimento, de compreender que cada escolha moldou quem somos, e de valorizar os momentos simples que antes passavam despercebidos.
Se só existissem dias felizes, na verdade, não seriam dias de felicidade, pois nada haveria para comparar, nenhum contraste para que o sentir se tornasse real.
A segunda-feira é a aurora do esforço: quando o sol nasce, não apenas o dia começa, mas também a esperança de transformar trabalho em legado
A segunda-feira nos lembra que o tempo não espera: cada manhã é um convite a reconstruir o que fomos e a aproximar o que ainda sonhamos ser.
