Nao me Julgue antes de me Conhecer
Continuo. Não porque seja fácil, mas porque a vida, em toda sua dor e beleza, ainda merece a minha presença.
Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.
Certas tristezas não são visitas, são inquilinas. Trocam as fechaduras, instalam-se e passam a chamar o meu vazio de lar.
Não busco a estética da frase bonita, mas a crueza da palavra honesta, mesmo que ela me deixe exposto e sem defesas.
Sustento um pedido de socorro mudo e polido. Ele não grita para não incomodar a vizinhança, mas sua existência é um ruído ensurdecedor.
Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.
Meu silêncio não é deserto, é multidão, está lotado de tudo o que ninguém teve coragem de perguntar ou paciência de ouvir.
Escrevo porque a fala me trai. No papel, as palavras não tropeçam, elas me organizam, me protegem e me mantêm lúcido.
Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.
Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.
Não confunda minha resistência com força. A força busca a vitória, a resistência só quer sobreviver a mais uma noite.
Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".
Meu maior pavor não é a morte biológica, mas a morte sensorial: tornar-me um autômato que executa rotinas sem habitar a própria alma.
A vida é um mestre severo: ensinou-me que amar não retém ninguém e que promessas são apenas palavras ao vento.
A escrita não é para o mundo, é para mim. Se eu não colocar no papel, o que sinto acaba por me implodir.
Às vezes, sento-me diante de Deus e não digo nada. O silêncio é a única oração que minha exaustão consegue formular.
Não sou um objeto quebrado, sou uma obra em reforma perpétua, tentando alinhar as peças enquanto o chão ainda treme.
Escrever é o meu método de hemorragia controlada: deixo sair a dor para que ela não me mate por dentro.
Não ostento força, ostento permanência. Com tudo o que já me convidou ao fim, o fato de eu ainda estar aqui é meu maior feito.
Minha trajetória não é estética, é ética. Há uma beleza ferida na honestidade de assumir que nem tudo está bem.
