Nao Magoe um Alguem

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O amor-próprio não é um estado de espírito ensolarado, é um trabalho de mineração em solo rochoso, onde você retira os entulhos do que os outros disseram sobre você até encontrar aquela pequena pepita de verdade que diz: você ainda é digno de ser amado, apesar das rachaduras.

O recomeço não é uma porta que se abre para um campo florido, mas um degrau quebrado que você decide subir mesmo sabendo que pode cair novamente, pois a estagnação no andar de baixo é um tipo de morte muito mais dolorosa do que qualquer queda acidental.

A solidão é um espelho que não aceita filtros, onde somos obrigados a encarar as rugas da nossa história e a profundidade dos nossos olhos, descobrindo que a companhia mais difícil de suportar é, ironicamente, aquela que nos habita desde o primeiro choro.

Não tenha pressa de se curar de feridas que levaram anos para serem abertas, a cicatrização é um processo biológico e espiritual que não aceita atalhos, exigindo que você sinta cada pontada de dor para que a pele se feche com a força necessária para não romper de novo.

O vazio que você sente no peito não é um buraco a ser tapado, mas um espaço que se abriu para que algo novo possa nascer, uma espécie de terreno baldio da alma onde, se você tiver paciência, as flores mais estranhas e belas começarão a crescer no tempo certo.

A coragem não é o rugido do leão na arena, mas a voz baixa que, ao final de um dia terrível, sussurra para o espelho: "amanhã eu tentarei de novo", com a dignidade de quem sabe que a derrota é apenas uma pausa técnica para ajustar o fôlego.

Há dias em que acordo carregando o peso de tudo o que ainda não consegui me tornar, um inventário de ausências que insiste em nublar o presente. No entanto, levanto-me não por uma euforia passageira, mas por uma recusa solene em abandonar a própria história no meio do caminho. Aprendi que a continuidade não exige uma força constante e inabalável, mas sim o compromisso fidalgo de não permitir que o ponto final seja escrito por mãos que não as minhas.


- Tiago Scheimann

A vida no Sul é feita de horizontes que parecem não ter fim e de um silêncio que não é vazio — é carregado de memória, de ausência e de tudo aquilo que o vento insiste em contar para quem aprende a escutar. Aqui, o tempo não corre; ele se assenta. Ele respeita quem finca raiz e não se dobra à pressa de um mundo que esqueceu de sentir.


Entre o frio cortante das manhãs e o calor denso de um chimarrão amargo, existe um ritual que sustenta a alma: o sorgo que gira na roda, a caninha boa que aquece o peito e as lembranças de um povo que aprendeu a resistir antes mesmo de aprender a sonhar. Não é só costume — é sobrevivência transformada em tradição.


Há pegadas de marujo marcadas no chão, há couro curtido pelo sal do litoral e uma identidade moldada entre o campo bruto e a água inquieta. Aqui, a gente aprende cedo que viver é manter o equilíbrio mesmo quando tudo balança — seja no lombo de um cavalo ou no balanço incerto de uma canoa. Aprende-se a ler o céu como quem lê o destino e a entender o silêncio das marés como se fosse linguagem.


Foi assim, olhando o velho pai, que vieram os primeiros ensinamentos — não em palavras, mas em gestos. Nos tiros de laço lançados contra o vento, na paciência quase sagrada da tarrafa aberta na lagoa, na firmeza de quem nunca precisou dizer muito para ensinar tudo. É nesse chão que se aprende que herança não é o que se recebe, é o que se honra.


E quando o olhar encontra o reflexo de uma lagoa verde e azul, não é só paisagem — é espelho de uma identidade inteira. É memória viva, é música que atravessa gerações sem pedir licença, é sentimento que não cabe em explicação. Ali, naquele instante, tudo faz sentido sem precisar de tradução.


Viver no Sul não é apenas existir em um lugar — é carregar um estado de espírito que mistura dureza e sensibilidade, silêncio e profundidade. É entender que a vida não precisa ser alta para ser intensa, nem rápida para ser verdadeira.


É um jeito de viver que não se explica — se sente.
Se carrega no peito como marca definitiva.
E se honra, todos os dias, como quem sabe exatamente de onde veio e por que permanece.


- Tiago Scheimann

​O silêncio mais pesado não é a falta de palavras, mas sim o de um coração que se cansou de pedir ajuda e decidiu endurecer.

Há um cansaço que não mora no corpo, mas na alma. É o peso de existir sem interrupção, de sentir demais em um mundo que exige dureza, e ainda assim continuar respirando como quem tenta bastar.

Existe uma exaustão que não se explica. Ela não vem de um esforço recente, mas de uma vida inteira tentando ser suficiente. É o peso de existir em um lugar que nunca soube acolher quem eu sou. E ainda assim, eu permaneço.

A consciência é um tribunal silencioso. Ela não grita, mas pesa. Não aplaude vaidades, e não negocia com a mentira.

Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.

Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.


Era uma sentença.


Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.


A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.


- Tiago Scheimann

Não busco um Deus que me tire da luta, mas um que me devolva a coragem de atravessá-la sem me desmanchar.

Há um amparo que desafia qualquer explicação. Ele não dissolve a inquietação; apenas repousa sobre ela, silenciosamente, como um cobertor que encontra um corpo exausto e, sem pedir licença, lhe devolve a permissão para existir mais uma noite.

- Sabe que não dói mais como antes? – disse-me ela, fixando o olhar em um ponto oposto ao meu, na tentativa de não ter sua evasiva analisada por mim.
E continuou a se enganar.
Saiu com os amigos, dançou, pulou, sorriu, falou alto, exorcizou os demônios, se indispôs com alguns anjinhos, se sentiu livre, feliz... Feliz? Quase feliz...
O fato é que dali a alguns dias, o telefone começa a tocar... Opa! Admirador na área! A vida seguia seu rumo. Afinal, essa é a ordem natural das coisas, não é mesmo?
A palidez de seu olhar, entretanto, denunciava a ausência de emoção em sua voz, por mais que se esforçasse gentil...
Mais alguns dias, e um bouquet à porta...
- Puxa vida! Deve ter custado uma nota!
Ela não reparou na beleza das flores cuidadosamente escolhidas e arranjadas por debaixo de um belo cartão enviado... Rosas vermelhas! Mas rosas que não exalavam cheiro de amor, não lhe representavam nada, muito diferente daquele bouquet recebido meses atrás, no dia de seu aniversário...
Mesmo assim, recebeu, agradeceu e sorriu, com direito a sufocar toda dor que sentia naquele momento...
Foi aí que a realidade lhe caiu à cabeça...
Na verdade, ainda doía. Na verdade, ainda não tinha passado. Na verdade, ainda estava em carne viva!
Então ela percebeu que ele tinha mesmo ficado, ficara em forma de ferida, que com o tempo se tornaria uma cicatriz.
Por enquanto, ainda estava visível... E por isso, as pessoas se afastavam com medo de se machucarem também, e outras, queriam curá-la, algumas até mesmo escondendo a própria cicatriz, pequenina com o passar dos meses...
Ela sabia que um dia a sua cicatriz também se reduziria, seria levada para outra parte do corpo, talvez para um lugar que não mais lhe incomodasse ou pudesse ser vista à olho nu. Porém, ela continuaria ali, contornada pelas lembranças que se fixam à pele como se dela fosse parte... E ainda que outra pessoa a fizesse sorrir, vez ou outra, a cicatriz seria apontada, questionada, encontrada...
Mas ela sabia que ele também carregaria a mesma cicatriz... E mesmo que outra pessoa o fizesse sorrir, ela continuaria ali, marcada em seu corpo, tatuada à pele, fazendo parte dela... E se algum dia não fosse mais encontrada, ainda assim ela estaria ali, tatuada à alma, uma cicatriz na alma, completamente impassível e imune à qualquer tratamento de cura...

Por um ordenamento jurídico no qual a felicidade não configurasse um crime tão ofensivo!

Você descobre o tamanho de um amor quando não puder mais dar um abraço e desejar um bom dia. Não deixe nada para depois.

Um dia um pensador me falou:
Não pense tanto, se encoraje mais,
Ame muito e esqueça o que ficou pra trás.