Nao Ha Passageiros na Nave Espacial Terra
A Voz interna
Há dentro de mim uma voz que me chama sem cessar. Essa voz tem o poder de me tirar do eixo e me deixar fora de mim. Tento me conectar a ela e entender o que está acontecendo. Tento reorganizar minha vida. Tento interiorizar tudo que me atormenta.
Tento eleger um guia para me ajudar a caminhar sem me perder no meio do caminho; tento compreender essa voz e negociar com ela. Sentar em um lugar tranquilo e perguntar o que ela quer de mim.
Esta pressão é uma loucura. São tantas provocações, tantas buscas para entender todo o processo. Sei que algo está confuso, mas é difícil olhar para dentro. Quero ser alguém sem fantasmas. Alguém menos complexa. Ter o poder de comandar a própria vida sem que essa voz interfira.
As idas e vindas são um mistério. Todos os dias tem novidades. Há algo que pressiona minha cabeça de tal forma que, por instantes, penso que a morte chegou para me buscar. Quero muito entender esse emaranhado que mais parecem fios e mais fios – como aqueles que vemos nos postes de ruas: olhamos e não conseguimos compreender como funcionam.
Todos os dias, antes de entrar em casa, deixo para trás tudo o que pesa. Tiro os calçados, as roupas, e me banho de paz e harmonia. Depois do banho, visto roupas leves e, com os pés descalços, caminho pelo jardim. Observo os verdes vales naturais formados entre as montanhas e me delicio com tanta beleza.
Diante de tudo isso, fico mais calma. Parece-me que a voz se afasta – ou talvez tenha se cansado de mim. É somente com a mente vazia que consigo me libertar e seguir em frente.
Quando me entrego de alma e espirito, limpo a mente e faço a voz se calar. Ela sai de dentro de mim, e eu me sinto leve. Consigo enxergar além da carne. Consigo entender muitas coisas e caminhar pelos verdes vales apenas sentindo o aroma do fim de tarde.
Rita Padoin
Quando há força de vontade, há também a concepção de entender que a maior de todas as obras humana, é a plenitude.
Há um amor
Há um amor dentro de mim
Dentro de mim há um amor
Ele grita querendo sair
Eu o alimento para não morrer
As cortinas do tempo abriram-se
E o palco da vida se iluminou
Transformando o espaço
Em um grande cenário mágico.
Fechei os olhos para te imaginar
E trazer-te para junto de mim;
Vieste, trouxeste teu sorriso maroto.
Meu coração dedicou-te todo meu sentimento.
A bruma da manhã divide seu aroma,
A cortina se fecha guarnecendo a cena
Deste amor que guardei
Esperando-te chegar.
Lamentos
A noite canta
E ouço-lhe os lamentos.
Há um grito de sabedoria querendo
Entrar em minha solidão.
A sombra incrédula vaga sem destino.
O vento invisivelmente se cala.
Não há controle sobre os acontecimentos.
Meus sentimentos congelaram
Como o inverno que se findou.
O calor da chegada do verão
Derramou sobre o sombrio tempo
Um tapete colorido de eternas alegrias.
POR QUE É NECESSÁRIO MUDAR?
Dias desses encontrei uma pessoa que me disse: - Há muitos anos luto para mudar e não consigo. Quero mudar de casa, de emprego, de cidade e talvez até de País. Porém, tenho a impressão de que tem algo que me segura aqui.
Encontrei outra que disse em um discurso o seguinte: - Há quanto tempo esperei por este momento. Lutei e almejei tanto por esta mudança que ela aconteceu. Estou muito feliz por isso. E eu também fiquei feliz em ouvir isso dela.
É nestas horas que vemos que nada nos segura. Que não existe lei alguma que nos impede de mudar; seja de emprego, de casa, de cidade e até mesmo de Estado ou País. O que nos impede de mudar é o medo, a insegurança e muitas vezes a comodidade. Não queremos passar trabalho e isto faz com que não mudemos.
Viemos de famílias tradicionais, com costumes e credos cujo objetivo era crescer, casar, ter filhos, constituir uma família e pronto. Nada mais importava, há não ser este futuro que era programado por eles. Não importava se queríamos aquele futuro ou não. O que importava era o conforto e a segurança financeira.
Por que é necessário mudar? É necessário mudar para que possamos experimentar outras fases da vida, porque os ciclos se fecham e outros se aproximam para que entendamos que a vida é metamorfose constante. Se ficarmos parados e não acompanharmos toda essa evolução, não entenderemos o significado da nossa existência. Precisamos entender que mudar é uma necessidade para a nossa sobrevivência.
Feliz daquele que tem a coragem de mudar. Feliz daquele que tem a persistência para fazer com que a mudança aconteça em sua vida. Feliz daquele que vê que mudar é preciso. Que mudar faz parte da nossa vida. Que mudar nos transforma, eleva o nosso espírito e deixa nossa alma vibrando.
Que quando mudamos nos sentimos livres. Que quando estamos determinados a mudar e a mudança acontece, percebemos o quanto fora necessário toda aquela transformação. Vivemos numa era em que crescer e evoluir é necessário.
Quando falamos em mudanças, estamos falando de libertação, de vida espiritual. Estamos falando de sair da casca e voar. De deixar os restos para trás e atingir o infinito mundo das ilimitações. Voar e ver o mundo de uma nova forma, sob outra perspectiva. Que toda mudança é válida, desde que, entendamos que mudar apenas de casa ou de cidade não é mudança e sim uma fuga.
Que a mudança começa de dentro para fora. Que mudar é transformar o mundo interior. Quando isto acontecer, estamos prontos para a mudança exterior.
Se há belas flores no caminho, a beleza está em você.
Se os pássaros e borboletas te encantam no caminho, o encanto está em você.
Nem toda ausência é desistência; às vezes é a forma mais madura de se preservar.
Há silêncios que não nascem da indiferença, mas do cansaço de tentar ser ouvido onde nunca houve espaço para escuta. Há distâncias que não são fuga, mas limite.
A gente aprende, com o tempo, que permanecer onde a alma se encolhe é uma violência silenciosa contra si mesma. E então escolhe ir — não por falta de amor, mas por excesso de amor-próprio.
Porque preservar-se também é um gesto de coragem. É entender que algumas portas não se fecham por fracasso, mas por proteção. É confiar que sair de um lugar onde não florescemos é, na verdade, abrir espaço para respirar de novo.
Nem toda ausência é abandono. Às vezes, é apenas a forma mais digna de continuar inteiro.
Há uma sabedoria antiga escondida no silêncio. Quando começamos a colocar a vida em ordem, estamos realizando um movimento sagrado: estamos reorganizando não apenas tarefas e compromissos, mas emoções, escolhas, prioridades e até a própria identidade. Esse processo é íntimo. Ele acontece primeiro dentro, no território invisível da consciência. Torná-lo espetáculo pode enfraquecer sua força.
O silêncio não é medo; é maturidade. Ele protege o que ainda está germinando. Assim como a semente cresce debaixo da terra antes de romper o solo, nossos projetos e transformações precisam de recolhimento. Quando falamos demais sobre o que ainda está em construção, abrimos espaço para opiniões, invejas e energias desalinhadas que podem nos desestabilizar. Nem todos torcem por nós — e isso não é motivo de ressentimento, mas de lucidez.
Existe também uma dimensão espiritual nesse recolhimento. O silêncio nos conecta com a disciplina interior. Ele nos ensina a agir mais e anunciar menos. Quem verdadeiramente evolui não precisa provar nada; os frutos falarão por si. O barulho costuma ser a necessidade do ego de validação; o silêncio é a confiança da alma em seu próprio caminho.
Além disso, quando guardamos nossos processos, aprendemos a depender menos da aprovação externa. Crescer em silêncio fortalece a autonomia emocional. A proteção não está apenas em esconder planos, mas em preservar energia. Cada palavra dita é energia dispersa; cada silêncio consciente é energia concentrada.
Portanto, colocar a vida em ordem em silêncio é um ato de estratégia e também de sabedoria espiritual. É compreender que o verdadeiro reconhecimento não vem do anúncio, mas da transformação real. Quando os resultados aparecerem, não precisarão de explicação — serão evidentes. E quem torce por você continuará ao seu lado, mesmo sem ter sido informado de cada passo do caminho.
A corte dos espelhos turvos
Há colegas que vestem ternos de bruma
e caminham pelos corredores como sinos ocos —
anunciam meu nome ao vento
não para celebrá-lo,
mas para que o eco me fira.
São jardineiros de inverno:
regam o chão com denúncias
e colhem suspeitas.
Sorriem com a boca em lua minguante
enquanto afiam silêncios nas gavetas.
Não me apreciam —
apreciam o ruído da queda.
Há mestres que carregam livros
como se fossem cetros,
mas esqueceram o verbo ensinar
no fundo de uma gaveta antiga.
Erguem muros com a gramática
e me deixam do lado de fora
como se minha diferença
fosse erro de concordância.
Não me respeitam.
Chamam de desvio o que é constelação.
Ignoram que meu pensamento
é rio subterrâneo —
corre em mapas que eles não estudaram.
E os chefes —
ah, os chefes —
prometem portos com voz de farol
mas apagam a lâmpada antes da travessia.
Deixam-me a ver navios
que nunca foram meus,
apenas miragens costuradas
com fios de salário e aplauso.
São capitães de papel.
Assinam contratos como quem assina nuvens.
E quando a tempestade chega,
sou eu quem aprende a nadar
entre destroços de confiança.
Mas o mais fundo é a casa.
A família —
que deveria ser lareira —
às vezes é corredor frio.
Não entendem minha mente
como quem não entende
uma língua antiga escrita nas paredes.
Chamam de exagero o que é sensibilidade,
de teimosia o que é precisão,
de drama o que é sobrecarga.
Minha neurodivergência
é jardim noturno —
floresce na sombra,
ouve o que o dia não ouve,
vê o que o óbvio não revela.
Mas eles fecham as janelas
e reclamam do perfume que não sentem.
Ainda assim,
eu permaneço.
Sou farol mesmo na neblina.
Sou árvore que cresce torta
porque o vento insiste —
e ainda assim cresce.
Que denunciem.
Que desrespeitem.
Que enganem.
Que não compreendam.
Eu não sou erro na partitura.
Sou música em outro tom.
E quando o mundo se acostumar
a escutar com mais do que os ouvidos,
verá que minha diferença
não era falha —
era claridade
em olhos desacostumados à luz.
Há um cansaço em mim que se afasta do ruído das conversas vazias onde muito se fala, mas nada realmente é dito.
