Nao Consigo te Odiar
"Não completei apenas anos. Completei travessias, sobrevivi tempestades e transformei cada cicatriz em parte da minha história."
SEM ROMANTIZAR
Não vou chamar de amor o que me deixa esperando,
nem chamar de escolha o que vive me descartando.
Não vou pintar de destino aquilo que me feriu,
nem dizer que foi bonito só porque um dia existiu.
Amor não é disputar atenção com um vício,
nem aceitar migalhas chamando isso de compromisso.
Não é estar ao lado e ainda se sentir sozinha,
nem pedir presença de quem já escolheu outra companhia.
Eu não vou romantizar o abandono,
nem transformar silêncio em trono.
Quem ama também precisa permanecer,
não apenas voltar quando decide querer.
E se a despedida vier sem explicação,
eu não vou implorar por uma confirmação.
Há palavras que encerram antes do adeus,
e há portas que se fecham quando alguém diz: “procure outro alguém”.
Dói.
E eu não vou fingir que não.
Mas dor não é prova de amor,
assim como permanência não é prova de valor.
Às vezes, amar também é compreender
que ninguém pode ser salvo à força,
nem escolhido por quem não consegue escolher.
Então eu sigo sem transformar ferida em poesia bonita.
Porque algumas histórias não precisam de fantasia.
Precisam apenas da verdade:
eu quis ficar,
mas não vou me perder
tentando permanecer.
Às vezes, somos a obra do que não queríamos ser.
Feitos de escolhas que não planejamos,
de feridas que não pedimos,
de perdas que nos mudaram
e de versões nossas que nasceram apenas para sobreviver.
Nem toda transformação é bonita enquanto acontece.
Algumas deixam marcas.
Outras mudam nossa forma de amar, de confiar, de permanecer.
E, ainda assim, seguimos.
Talvez amadurecer também seja olhar para essa obra inacabada que nos tornamos e entender que, mesmo sem ter escolhido o processo, ainda podemos escolher o que fazer com aquilo que restou.
“Desmontar-se não é se perder, é silenciar o impulso para compreender o que realmente merece ser reconstruído.”
E se não for mais sobre eu e você?
E se eu finalmente parar de te esperar?
Será que, algum dia, vou te ver passar
e não sentir vontade de voltar?
E será que, nesse dia...
meus olhos ainda serão os mesmos?
Ou talvez eu já tenha aprendido
a olhar para você
sem procurar em nós
aquilo que um dia eu esperei encontrar?
A Porrada no Lugar Certo
Talvez o que doa não seja apenas não tê-la.
É saber que eu teria ficado, se tivesse tido a chance de ser conhecida de verdade.
Agora estou aqui, tentando juntar as partes da vida, enquanto uma parte de mim ainda olha para uma história que nunca teve sequer a chance de começar.
Eu não quero mais entender por que certas coisas precisaram doer tanto.
Só quero que alguma coisa, enfim, mude de direção.
Que aquilo que hoje parece peso encontre um lugar para descansar.
Que o que não aconteceu deixe de ocupar tanto espaço.
Que eu consiga olhar para a frente sem precisar carregar tudo o que ficou para trás.
Não peço uma vida perfeita.
Peço uma vida que não me faça desejar fugir dela.
E, se eu já não souber pedir direito, que Deus entenda mesmo assim.
Há amores que não terminam porque nunca começaram. Terminam quando finalmente entendemos que não haverá lugar para eles.
Algumas histórias não começam com uma declaração.
Começam quando você percebe que está escolhendo aquela pessoa em pequenas coisas, todos os dias.
“Encontrar alguém que faça sentido no meio da bagunça é raro. Mais raro ainda é não precisar se perder para caber no encontro.”
Desejos que não precisam ser pronunciados.
Nascem no silêncio de um olhar demorado,
na distância curta demais,
naquilo que quase acontece e, justamente por não acontecer, permanece.
É um fogo quieto, escondido sob a pele.
Um olhar que percorre, retorna, insiste...
como quem toca sem tocar.
E há um instante em que os olhos se encontram
e o silêncio já não consegue disfarçar aquilo que o corpo inteiro sabe.
Desejo não se explica.
Reconhece-se.
As pessoas confundem não conseguir com não querer porque é muito mais fácil julgar o resultado do que compreender tudo o que existe por trás dele.
Não é falta de coragem, nem vontade de parar,
é que existem certas dores que nos cansam de lutar.
Quem aponta o dedo esquece, no conforto do seu chão,
que ninguém conhece o peso que carrega outro coração.
"O peso de estar sozinha a dois"
Não é sobre onde você dorme,
nem sobre quem te faz companhia.
É sobre o lugar que ocupo na tua vida
quando me falta você todos os dias.
Não é sobre proibir teus passos,
nem escolher quem pode te abraçar.
É sobre ter tão pouco da tua presença
e ainda me sentir errada por sentir,
por temer, por me importar.
Você chama de insegurança,
mas nunca pergunta de onde vem.
É fácil julgar o medo de alguém
quando não se enxerga
o vazio que se mantém.
Eu não quero ser tua dona,
não quero vigiar teu coração.
Só queria que a minha existência
não parecesse um incômodo
quando expresso uma preocupação.
E o que mais dói não é a distância,
nem a noite que você escolheu passar.
É perceber que, diante de outra pessoa,
você não teve cuidado
com a maneira de me tratar.
Porque eu posso até ter meus medos,
posso não saber tudo compreender,
mas estar insegura não me faz menor,
nem te dá o direito
de me ferir para se defender.
Eu também mereço delicadeza.
Também mereço consideração.
Não quero ganhar uma disputa,
muito menos implorar por atenção.
Quero um amor em que a presença
não seja favor, nem obrigação.
Em que eu possa dizer que algo dói
sem receber arrogância
como resposta à minha emoção.
Porque existe uma solidão estranha
que não depende de estar só.
É ter alguém a quem chamamos de amor
e ainda precisar engolir a própria voz
para não transformar a dor em pó.
E talvez o que mais me entristeça
não seja o que você fez esta noite,
mas perceber que, enquanto tento explicar
por que certas coisas me machucam,
você parece mais preocupada em se defender
do que em me escutar.
Eu não quero te prender.
Não quero te ensinar a amar.
Só não quero continuar me diminuindo
para caber num lugar
onde eu também deveria importar.
Porque amar alguém não deveria exigir
que eu me acostumasse à ausência
e ainda pedisse desculpas
por sentir falta de presença.
