Nao Consigo te Odiar
A modernidade não reprimiu o desejo — domesticou a potência. Ensinou o sujeito a interpretar seu próprio impulso vital como ameaça, e o que a clínica nomeia como sintoma é, na maioria dos casos, a resposta mais honesta do organismo psíquico a uma interdição que nunca foi elaborada, apenas engolida. Oferece-se então o fármaco como substituto do luto: não para curar, mas para silenciar o que poderia ser escutado. O resultado é uma existência anestesiada — funcionante na superfície, mas incapaz de acessar a camada mais profunda de si, onde o conflito que poderia amadurecê-la aguarda, ainda vivo, ainda não integrado.
O tempo não é apenas dimensão de passagem — é operador de inscrição psíquica. Não escorre fora do sujeito: deposita-se dentro, como sedimento que modifica a estrutura sem que se perceba o processo. Cada experiência deixa rastro que reorganiza, ainda que imperceptivelmente, a economia psíquica. Quando se tenta mensurar o tempo, o que se mede não é ele: é a extensão da transformação que operou sobre a carne e sobre o aparato de percepção. O sujeito que acredita que o tempo passou descobrirá, se interrogar com cuidado, que foi ele quem cedeu ao desenho paciente que o tempo traçou por dentro.
O ser humano não se perde quando erra o caminho — perde-se quando cessa a interrogação sobre ele. A acomodação que se nomeia como chegada é, clinicamente, uma forma de abandono de si: o sujeito para de questionar para onde vai e converte qualquer ponto de parada em destino, economizando o desconforto da busca ao custo de uma estagnação que se disfarça de maturidade. O erro, ao menos, preserva movimento; a resignação travestida de sentido não preserva nada. E é curioso: a fantasia de ter chegado costuma emergir justamente quando o sujeito mais precisa caminhar.
Poema Sede Insaciável
Queria apenas um pouco de ti,
mas o pouco não me bastou...
Quis sentir mais, quis me encher,
mas o teu amor só pingou.
Como chuva rala no chão,
eram gotas que vinham e iam...
E quanto mais eu pedia,
menor elas se faziam.
Minhas folhas foram murchando,
minhas raízes se desfazendo...
Fui morrendo aos poucos,
sem o amor que estava querendo.
Autora: Mirian Maria Julia
Mesmo se você for um Bom Filho e merecer o melhor dessa terra, Deus não fará nada você, se for Mau, Deus não fará nada por você do mesmo jeito.
O que a psicologia do self nomeia como vazio central não é preenchido por objetos exteriores — nem por status, nem por acumulação, nem pela superfície narcísica que o consumo promete restaurar. A inquietação que persiste por baixo da conquista é sinal de que o ego não encontrou ainda relação suficientemente boa consigo mesmo. Winnicott chamou de verdadeiro self aquilo que se constitui apenas onde há autenticidade — e a paz que dele emana não precisa de audiência, não requer espelho externo: sustenta-se no reconhecimento silencioso de quem sabe quem é, mesmo quando ninguém está assistindo.
Há pensamentos que não emergem da clareza conquistada, mas do colapso das defesas. O ego, enquanto sustenta suas versões de si e do mundo, mantém a ilusão de controle; quando o esforço se torna insustentável, algo cede — e é nessa fratura que certas verdades surgem não como insight buscado, mas como residual do que não pôde mais ser evitado. A clínica reconhece essa fenomenologia: a iluminação que chega no limite do esgotamento, não como prêmio da resistência, mas como o que sobra quando ela finalmente falha. É uma forma de lucidez que não se conquista — se recebe, quando o psiquismo já não tem fôlego para fingir.
Há estados de suspensão que o ego não governa — intervalos em que o aparato psíquico parece recuar de si mesmo, desacelerar sua produção sintomática, poupar energia de defesa. A clínica os reconhece não como patologia, mas como autorregulação: o psiquismo que cessa antes de romper, que retrai antes de dissociar, que descansa para não entrar em colapso. É o organismo fazendo o trabalho que o ruído da vida cotidiana impediu. Quando a engrenagem retorna, volta com mais fluência — não porque foi reparada de fora, mas porque o silêncio fez o que nenhuma intervenção externa conseguiria substituir.
Sou uma pessoa fora do contexto
não vim ao mundo para agradar a todos - nem Jesus agradou-
tampouco vim para denegrir imagem de ninguem, pra isso cuido da minha.
Não tente me entender... como habia falado antes;
sou fora do seu contexto e dentro do meu.:)
—By Coelhinha
