Nao Chega aos meus Pes
Desculpa, eu sei que não faz sentido te escrever agora e já faz tempo desde que esse sentido sumiu. Por minha culpa. Mas é que hoje tem tanta gente aqui e ninguém me vê... Você me viu num momento desses e é do seu olhar que eu sinto falta. Do mundo parando só pra você ser meu.
A morte é parte natural da Vida. Regozije-se por aqueles que se uniram com a Força. Não lamente por eles. Não sinta falta deles. O apego leva à inveja. À sombra da cobiça, isso sim.
Nem era preciso dizer que não era preciso dizer: eu era o teu lado esquerdo e tu eras o meu lado direito.
Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para transformar-se numa grande chaga.
PROSTRAÇÃO
Eu se chorar, fraqueza lhe parece,
pois não sentiste o que sinto agora,
quando triste, prostrado rezo a prece
de um homem só que na tristeza chora.
E quando sinto que meu rosto empalidece,
olhando alguém que se vai embora,
cumprindo a teia que o destino tece,
levando o amor de quem mais te adora.
E quando em mim nada mais resta
e já a noite com seu manto empresta
a escuridão a meu triste mundo,
eu choro e sem vergonha eu clamo
que a vida que pela vida eu amo
jaz perdida num abismo fundo.
Você não precisa simular interesse algum pelas pessoas em volta, elas não exigem mais que um bom-dia, boa-tarde, boa-noite, às vezes nem isso.
Não é o mundo que tem que melhorar para você ficar bem.
É você que tem que melhorar para o seu mundo ficar bem.
A espera
Fiquei sentado,
esperando
a campainha
(que não tocou).
Afinal o que sou?
Um pobre coitado,
um incompreendido,
um mal amado?
Olho figuras que passam,
cavalgando na mente
estórias não realizadas.
De repente,
estou só,
a ruminar
em meu estábulo
dourado,
sentado,
esperando a campainha
(que não tocou).
Por que não grita,
meu Deus,
esta máquina infernal
que me revela
a triste lembrança
de um nada?
Brinquedo de criança
em ruas desertas
de minha meninice,
em desabaladas carreiras,
liberto.
Risos apertados,
traquinices,
de um – quem é?
perdido no vazio.
Mas, eu agora
já não rio,
sentado,
esperando,
esperando,
no meu estábulo dourado,
ruminando,
a dor,
a descrença,
a solidão.
Seja o que for,
que me faz alheio,
apartado de tudo
e de todos,
sentado,
esperando a campainha
(que não tocou).
(1968)
Apenas mais uma carta
Não acredito em despedidas programadas, em último beijo ou em bilhete de adeus. Quanto menos remoemos a mágoa da separação melhor, cada um no seu canto, cada um com seus argumentos e verdades, sejam eles sinceros ou não. Portanto, essa é mais uma daquelas cartas que escrevo sem a intenção de enviar, uma carta que você nunca vai receber.
Antes de tudo preciso lhe agradecer por tornar nossa despedida muito mais fácil para mim. Se antes você mudava e alegrava o meu dia pelo simples fato de estar por perto, hoje você me perturba com seus rancores, me incomoda com suas loucuras e me entristece com suas tantas verdades omitidas durante todo o tempo em que estivemos lado a lado.
Obrigada por ter me feito acreditar que você era diferente de todos os outros homens, obrigada pelo amor que você me fez crer que sentia por mim. Obrigada pelo tempo em que vivi iludida e feliz, pelos anos em que eu confiei em você e no seu amor sem fim. Mas muito obrigada mesmo por agora me fazer enxergar que nada disso existiu, que eu estive sozinha quando pensei estar com você. Obrigada por me mostrar que eu não perdi nada pelo simples fato de que não posso manter comigo algo que nunca foi meu.
A verdade é que não posso lhe culpar por nenhuma das minhas penas. Se você fez o que quis de mim e mudou o rumo da minha vida foi porque eu permiti. Você nunca me pediu nada e eu sempre lhe dei tudo, já que era o único jeito de ficarmos juntos. E como eu queria viver perto de você.
Uma lástima que eu tenha percebido tarde demais que o amor precisa de dois para acontecer e que sozinha eu acabaria cedo ou tarde ficando pelo caminho, uma pena que eu tenha avistado o fim da estrada apenas quando o alcancei. Se eu tivesse aberto um pouco antes meus olhos talvez o choque fosse menor, talvez agora eu estivesse melhor preparada para lidar com tantas decepções. Talvez.
Dessa minha carta sem destino, só quero que você guarde uma coisa: muito obrigada. Obrigada por me mostrar a cada nova atitude que você não é nada daquilo que imaginei.
Eu me preocupava com tudo.
Coisas que pareciam ter sentido na verdade não tinham.
Eu me preocupava com a vida.
Com o que aconteceria se eu me permitisse sentir de novo.
Achei que eu não merecesse.
Então... Sem nem mesmo saber...Eu mudei.
Eu não estava preocupada com o que aconteceria se eu vivesse, mas com o que aconteceria se não. O que eu perderia.
Eu me preocupava em não lembrar; em não lembrar de todos os momentos. Todos os lugares. E tudo por causa do Finch.
Porque ele me ensinou a me maravilhar.
Ele me ensinou que não é preciso escalar uma montanha, para ficar no topo do mundo.
E que até os lugares mais feios podem ser lindos desde de que você pare pra olhar.
Que não há problema se perder...desde que encontra o caminha de volta. Mas ao aprender tudo isso, eu não vi algo mais importante: O Finch
Eu não vi que ele estava sofrendo.
Não vi que ele estava me ensinando o tempo todo a seguir em frente.
Finch era um sonhador. Ele sonhava acordado. Sonhava com toda beleza do mundo e essa beleza fez despertar.
O Finch me ensinou que há beleza nos lugares mais inesperados.
E que há lugares incríveis mesmo em dias sombrios. E que se não houver... você pode ser aquele lugar incrível. Com infinitas capacidades.
Não desiste de mim por favor. Por trás de tanta frieza e indecisão há uma pessoa insegura e que precisa de companhia. Mesmo não parecendo.
