Nao Acabou pra Mim

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O homem honrado não morre nunca.

A cultura é uma muleta com que o coxo bate no são para mostrar que também a ele não faltam as forças.

Não sei teus gestos
nem a cor do teu sorriso
mas pressinto os passos.

Na hora que você pega na bola, se você não sabe o que fazer com ela, tente outro esporte.

A razão, sem a memória, não teria materiais com que exercer a sua atividade.

Há enganos tão bem elaborados que seria estupidez não ser enganado por eles.

Não posso acreditar que Deus nos colocou nessa terra para sermos ordinários.

A liberdade é um bem comum, e se todos não desfrutam dela, não serão livres nem os que se julgam como tal.

Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião.

Não há fonte de erro tão grande como a busca da verdade absoluta.

Não morre aquele que pela virtude perece.

Considero a família e não o indivíduo como o verdadeiro elemento social (arriscando-me a ser julgado como espírito retrógrado).

Se ofenderes o teu vizinho, é melhor não o fazeres pela metade.

Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.

Hoje, não se sabe falar porque já não se sabe ouvir.

Quando presto algum serviço a um amigo ou lhe zelo os interesses, não há motivo para que me louvem; pois creio que apenas pratiquei um ato indigno de censura.

Não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais.

Um homem que acaba de arranjar um emprego já não faz uso do espírito e da razão para regrar a sua conduta e as suas atitudes perante os outros: toma de empréstimo a regra do seu posto e da sua situação; donde o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza e a ingratidão.

Canção de Primavera

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, Invernos e Outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio…
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar…
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio
Filho do Homem

Um crítico é alguém que conhece a estrada mas não sabe conduzir.