Nao Acabou pra Mim
O homem que não participa da criação dos filhos é um pai ausente. Quando participa, é controlador. Se reivindica convivência, é possessivo. Se exige participar das decisões, é abusivo. Se desiste, confirma o abandono. A paternidade moderna é uma instituição curiosa: o pai deve estar presente para pagar, ausente para decidir e disponível para ser culpado. E se reclamar, aplica-se a perspectiva de gênero.
Pousa a cabeça sobre o meu peito, amor,
E escuta o que não ouso confessar.
Há tanto tempo este meu coração
Aprendeu teu nome sem saber falar.
Se alguma coisa em mim ainda é segredo,
Teu ouvido saberá reconhecer:
O que a palavra esconde por receio,
Meu peito não consegue esconder.
Não vejo grande mérito em permanecer fiel a uma opinião quando já não encontro razões para sustentá-la. Se hoje me contradigo, talvez seja porque ontem ignorava alguma coisa. O que me envergonharia não seria descobrir meu erro, mas continuar a defendê-lo por receio de admitir que estive enganado. Prefiro ser acusado de mudar de ideia a ser condenado a conservar, por orgulho, todos os meus equívocos.
O homem que teme escolher julga guardar consigo todas as possibilidades. Não vê que, ao esquivar-se de perder uma só, perde a própria vida na espera. Chama liberdade à sua indecisão, porque ainda não compreendeu que escolher é consentir em não ser tudo o que poderíamos ter sido.
Um sentido criado por seres humanos não é necessariamente uma ilusão; pode ser uma realidade vivida cuja origem não depende de uma ordem transcendente.
“Diante do infinito, a inteligência não se engrandece por possuir respostas, mas por saber exatamente onde o conhecimento termina e a certeza começa a mentir.”
A ausência de uma finalidade cósmica demonstrada não elimina os propósitos que a consciência humana é capaz de construir e assumir.
Talvez não possamos conhecer o sentido último da existência, mas podemos investigar os sentidos que construímos e responder pelas vidas que deles resultam.
O espanto diante da existência não obriga ninguém a escolher uma explicação antes que as razões tenham sido examinadas.
A autonomia intelectual exige coragem para perder certezas e rigor para não preencher imediatamente o vazio com novas ilusões.
Hoje sinto a vida escorrer entre meus dedos.
Não com desespero, nem com a urgência de quem tenta detê-la.
Há uma melancolia mansa em mim.
Daquelas que não ferem, apenas convidam ao silêncio.
Descanso os braços, afrouxo as mãos, e observo.
Os dias passam, as pessoas mudam, os sonhos amadurecem, e o tempo segue seu curso.
Há beleza nisso.
Uma beleza suave, quase imperceptível, que só se revela quando deixamos de resistir.
E nessa melancolia serena, compreendo que viver não é segurar a vida, mas sentir sua passagem enquanto ela toca nossas mãos.
Uma ideia não se torna proprietária de quem a defendeu durante anos; até as convicções mais antigas devem permanecer abertas à revisão.
A independência intelectual não consiste em discordar de todos, mas em não entregar a ninguém o governo definitivo do próprio juízo.
Mudar de opinião diante de razões melhores não é trair a inteligência passada, mas permitir que ela continue a amadurecer.
A humildade epistemológica não exige atribuir o mesmo valor a todas as hipóteses; exige reconhecer por que algumas merecem maior confiança do que outras.
