William Frezze

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A ingratidão é filha de uma alma pequena e mãe de todas as rupturas indignas: primeiro, porque não reconhece o que recebeu sem merecer; depois, porque renega sem vergonha o bem que se lhe fez.

É próprio da dignidade humana romper com a miséria da história que se viveu e fundar, no futuro, uma versão mais alta de si mesmo; abjeto, porém, é falsificar a vida que foi, adulterando o passado para absolver a si mesmo da culpa, transfigurar-se em vítima e converter os outros em algozes de uma tragédia que nasceu de suas mãos.

O amor é um contrato celebrado por duas pessoas que não leram as cláusulas e que, quando finalmente as conhecem, já não desejam rescindi-lo.

O moralista tem princípios tão elevados que precisa ficar em cima dos outros para alcançá-los.

Deus deu ao homem o livre-arbítrio. Certos religiosos se oferecem para corrigir esse erro divino.

Nada dá ao ser humano maior sensação de liberdade do que obedecer sem perceber. O escravo moderno tem uma vantagem sobre o antigo: pode escolher a cor da própria coleira.

No amor, ganhar é uma questão de sorte. Perder é uma questão de experiência.

O casamento é o único jogo em que, ao fim, ambos saem derrotados, mas cada um insiste em reivindicar o título de vencedor.

A diferença é que o hipócrita finge que não sabe. O cínico sabe e recomenda.

O crítico é aquela pessoa que se diz especialista em encontrar nos outros os defeitos que, em si mesmo, considera qualidades.

Arrependimento é a faculdade humana de tomar uma decisão errada e depois passar o resto da vida discordando de si mesmo.

Há gente que só descobre o valor de um aliado quando precisa calcular o prejuízo de tê-lo tornado um inimigo.

A vantagem de ser subestimado é que o adversário colabora espontaneamente com a própria derrota.

Não há pergunta indiscreta. Há respostas que preferíamos continuar ignorando.

Todos temos um ponto cego. O problema é que algumas pessoas resolveram morar nele.

O pior cego é aquele que não quer ver. O segundo pior é aquele que enxerga perfeitamente e ainda explica aos outros o que não viu.

Geralmente a especialista em entrelinhas começa descobrindo o que o autor não disse e termina exigindo que ele se retrate.

Há pessoas que não mudam de opinião por respeito à própria ignorância.

O crítico mais imparcial é aquele que distribui os defeitos com absoluta justiça social: deixa todos para os outros.

A insegurança tem uma qualidade que a confiança raramente possui: às vezes impede um idiota de discursar.

Uma explicação convincente tem sobre a verdade a enorme vantagem de dispensar a investigação.

A certeza é uma roupa feita sob medida para o obstinado. Por isso, ele não percebe quando ela já não lhe serve.

O moralista não suporta a impunidade do pecado alheio. A própria, ele chama de vida privada.

O fanático é o único intermediário entre Deus e os homens que dispensa ouvir qualquer uma das partes.

Certos religiosos têm tamanho zelo pelo caminho da salvação que passam a vida impedindo os outros de caminhar.