Morreu e esta em um lugar Melhor
O Uber, o Azulejista e o Perigo de Esquecer o Despertador
Era mais um dia normal de trabalho para o motorista peregrino. Pelo menos era o que ele imaginava quando, por volta das seis e vinte da manhã, recebeu um chamado da senhora Luana para levá-la até uma marmoraria localizada na Vila Brasília, na zona norte de São Carlos, próxima à Rodovia Washington Luís e ao campus da UFSCar. Para o motorista, uma corrida com mais de oito quilômetros naquele horário, antes das sete da manhã, normalmente significava que alguma coisa havia acontecido. Afinal, passageiro que precisa percorrer uma distância dessas logo cedo geralmente não está simplesmente passeando. Ou perdeu o ônibus, ou perdeu a hora, ou perdeu a paciência. Às vezes, perde os três de uma só vez.
Dito e feito! Ao chegar ao ponto de partida e confirmar o nome da passageira, o motorista desejou-lhe um ótimo dia e, logo em seguida, perguntou: “A senhora está atrasada para o trabalho? O ônibus não passou? Ou será que o relógio não despertou?”. Luana, uma mulher de estatura acima da média, olhou para o motorista e respondeu, com a maior tranquilidade: “E se eu lhe disser que aconteceram as três coisas que o senhor falou e ainda mais duas?”. Naquele momento, o motorista peregrino percebeu que aquela não seria uma corrida como as outras. O problema agora era descobrir quais seriam as duas coisas que faltavam naquela história.
O motorista ficou todo embananado, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com Luana. Por alguns segundos, pensou que talvez fosse melhor não perguntar. Afinal, existem passageiros que entram no carro querendo apenas chegar ao destino, e existem aqueles que parecem carregar uma novela inteira dentro da mochila. Como o peregrino adora conversar com os passageiros e, principalmente, colher histórias para o seu próximo livro, resolveu arriscar: “Então me conte o que mais aconteceu. Quem sabe isso não vira uma história engraçada para o meu livro?”. Luana imediatamente perguntou: “O senhor escreve?”. O motorista respondeu que sim. Ela então completou: “Bem que eu imaginei. Pela sua aparência, o senhor deve fazer coisas muito interessantes”. O motorista sorriu e respondeu: “Olhe, senhora, eu faço tantas coisas que, às vezes, até eu mesmo ponho em dúvida a minha sanidade mental”.
Luana caiu na risada e quis saber: “Mas que coisas o senhor faz para se achar um homem assim?”. O motorista, percebendo que a conversa estava ficando cada vez melhor, respondeu: “Primeiro a senhora me conta quais foram essas duas coisas que aconteceram e que a obrigaram a pegar um Uber. Depois eu conto as minhas”. Luana respirou fundo e começou: “Então está bem. O meu marido, na noite anterior, bateu o carro porque tinha bebido um pouco a mais. Ainda bem que foi bem perto da nossa casa. Aliás, ele chegou a tentar entrar na casa do vizinho. Imagine o estado do meu marido!”. O motorista ficou surpreso e perguntou: “Sim, mas, se isso aconteceu na noite anterior, por que a senhora perdeu o horário do trabalho hoje?”.
“Quer saber mesmo?”, perguntou Luana, já segurando o riso. “O meu marido é azulejista. Ele é um ótimo profissional, mas é muito chato quando não bebe. Eu até deixei de trabalhar com ele por causa das chatices. Quando está sóbrio, parece que o mundo inteiro está assentando azulejo errado.” O motorista começou a rir, mas lembrou que ainda faltava uma parte importante da história: “Sim, mas não me enrole, porque já estamos quase chegando ao destino da corrida”. Luana continuou: “O meu marido, quando bebe, é uma pessoa maravilhosa, muito carinhoso. Então, naquela noite, como eu estava a fim de receber uns carinhos, convidei-o para tomar umas cervejas comigo”.
A história estava começando a fazer sentido. Luana prosseguiu: “Lá pelas tantas da noite, eu o peguei pelo braço e o levei para o quarto. Quando chegamos lá, falei para ele: ‘Sobe aí na cama, agora! Se você dormir, eu te taco no chão!’”. O motorista peregrino já não sabia se deveria rir, fazer outra pergunta ou simplesmente continuar dirigindo e agradecer por ter escolhido aquela profissão. Luana, então, encerrou a explicação: “Para resumir, tivemos uma noite maravilhosa. Eu sequer me lembrei de colocar o relógio para despertar”.
Faltava pouco menos de um quilômetro para chegarem ao destino quando Luana, como quem havia acabado de descobrir a moral da própria história, disse ao motorista: “O meu destino é casar-me com gente que gosta de um mé, de cachaça, de cerveja... Sei lá, de tudo o que tem álcool. O meu primeiro marido bebia bastante, mas era violento. Agora este bebe, mas é carinhoso. Então eu estou num dilema: se ele não bebe, ele nem se lembra que eu existo; agora, se ele bebe, sou eu que não me lembro do trabalho”.
Os dois caíram na gargalhada, enquanto o motorista pensava que, definitivamente, aquela não tinha sido apenas mais uma corrida. Tinha sido uma daquelas histórias que aparecem de repente, entram no carro sem avisar e, quando chegam ao destino, deixam uma lembrança que vale mais do que o próprio valor da corrida.
E talvez seja justamente isso que o peregrino aprendeu nas estradas e também atrás do volante: **há pessoas que entram em nossa vida por alguns minutos e acabam deixando histórias que permanecem por muitos anos**. Algumas nos ensinam, outras nos emocionam, algumas nos fazem pensar e outras simplesmente nos fazem rir. E, para quem gosta de caminhar pela vida com os olhos e os ouvidos abertos, até uma corrida de Uber pode se transformar em uma página de livro.
Peregrino Nino Carneiro
Dizer não é ter respeito por você...
É pagar um preço por suas escolhas...
É contribuir para ter por perto o verdadeiro...
Não ultrapasse o universo, que possui seu próprio direcionamento, o respeito mútuo, atrai harmonia de qualquer existência.
O País Não Precisa de um Mito
O Brasil tem uma doença política curiosa: transforma fracassos em símbolos e homens comuns em salvadores. Troca projeto por personagem, programa por slogan, pensamento por torcida. E, quando percebe o estrago, já está discutindo novamente o mesmo personagem como se a história lhe devesse uma segunda temporada.
O bolsonarismo não foi apenas uma candidatura. Foi a industrialização política do ressentimento.
Durante anos, ensinou-se ao brasileiro que pensar era suspeito, que ciência era conspiração, que imprensa era inimiga, que cultura era ameaça e que instituições só eram legítimas quando obedeciam ao lado certo. A política deixou de ser disputa sobre o futuro e passou a ser campeonato de indignações.
Agora, em 2026, o sobrenome continua em campo. Mudou o candidato, mudaram algumas frases, mas permanece a velha arquitetura: transformar medo em voto, conflito em identidade e adversário em inimigo. A política brasileira ainda é convocada a escolher entre o “nós” e o “eles”, como se um país de mais de duzentos milhões de pessoas pudesse caber numa guerra de grupos.
Não pode.
E aqui está o erro que parte da esquerda também comete: imaginar que basta chamar alguém de fascista para vencê-lo. Não basta. A democracia não se defende apenas denunciando a extrema direita; defende-se oferecendo ao cidadão uma razão concreta para acreditar nela.
O Brasil precisa de escola que ensine a pensar, não apenas a repetir. De saúde que funcione antes que a doença vire estatística. De segurança pública que não seja espetáculo. De emprego que não seja favor. De ciência que não precise pedir desculpas por existir. De Estado que proteja sem tutelar.
E precisa, sobretudo, abandonar a infantilização política.
Nenhum presidente é messias. Nenhum partido é dono da verdade. Nenhum eleitor precisa entregar a própria consciência na porta de uma convenção partidária.
O bolsonarismo prosperou justamente onde a razão recuou.
Por isso, enfrentá-lo não significa apenas derrotar Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer herdeiro eleitoral do sobrenome. Significa derrotar a ideia de que o Brasil precisa de um homem providencial para funcionar.
Não precisa.
Um país sério não procura um salvador.
Procura cidadãos.
E talvez essa seja a coisa mais perigosa que se possa dizer numa eleição: o Brasil não precisa acreditar em ninguém. Precisa aprender a pensar por si mesmo.
William Contraponto
William Contraponto — Parágrafo 175
Um dos poemas mais políticos e historicamente situados de William Contraponto, Parágrafo 175 transforma a perseguição aos homens homossexuais na Alemanha em uma reflexão sobre os limites morais do poder.
O poema parte de duas vidas comuns e de um afeto vivido sob discrição. Aos poucos, a intimidade é invadida pela lei, pela classificação e pela violência institucional. O percurso é claro: o homem amado torna-se suspeito, o indivíduo torna-se número e a identidade torna-se marca.
O triângulo rosa é o principal símbolo histórico da composição. Mais do que representar a perseguição, ele evidencia a tentativa de reduzir pessoas inteiras a uma categoria imposta pelo Estado. O poema contrapõe essa desumanização à simplicidade do vínculo entre os dois homens.
A força de Parágrafo 175 está em não transformar seus personagens em figuras abstratas. Antes da norma, havia um quarto, uma janela, conversas, livros e dias partilhados. A violência histórica aparece, portanto, como aquilo que invade e destrói uma existência que poderia ser absolutamente comum.
No final, William Contraponto ultrapassa o episódio histórico. A crítica não é dirigida apenas ao nazismo ou à antiga legislação alemã, mas a qualquer poder que pretenda decidir quais afetos são legítimos e quais existências merecem reconhecimento.
“Parágrafo 175” é, assim, um poema de memória e resistência: uma defesa da ideia de que nenhuma instituição possui autoridade moral para transformar o amor em culpa.
nenommarques@gmail.com
De vez em quando eu ainda ouço
No silêncio da madrugada
Um misto de passos na calçada
e um som de sinos distantes
Que soavam nas torres das Igrejas
que existiram na minha infância
Chego a sentir o perfume
daquelas madrugadas
Iluminadas pelos vagalumes
Isso sempre me traz
um sentimento confuso:
Tristeza e alegria entrelaçadas
Eu corro abrir minha janela
Não vejo e não ouço mais nada
Somente as Estrelas no firmamento
dão atestado
de que eu um dia
Realmente tenha estado lá
Naquele tempo e lugar
Que o próprio tempo arrastou
Pra um lugar
Chamado nunca mais
Fecho a janela ciente
de que a minha vida
assim como as madrugadas
Nunca mais serão aquelas
Novamente.
A roleta vai girando
Qual roda da vida
Um conto de fadas
Uma Estrada Florida
ou Caminho difícil
Lamacento
Tudo é vida
e nada funciona
Cem por cento
Se não choverem flores
No teu caminho ruim
Faça acontecer
Mesmo assim
A vida é e sempre será
Uma jóia muita cara
Mas alguns de nós
Precisam saber
A maneira correta
de a lapidar
Um dia a roleta pára
No início
ou no fim
E tudo que restar
Medos e segredos
Guardados e esquecidos
Sob a égide de uma lápide
E, talvez
Algo muito bonito
Esteja escrito ali.
Edson Ricardo Paiva
Eu sinto a tua presença
Aqui, bem pertinho de mim
E penso também assim
de um jeito que você mesma
Poderia deixar-se ficar
Abismada
Sem explicação, nem nada
Por pensar que nem você pensa
Quando sozinha
Escuridão à meia-luz
Um denso silêncio
Entristece as madrugadas
Mesmo assim
Eu sei que ri
Sabendo-se também aqui
Pois esta minha imensa vontade
Me traz a sua presença
e põe aqui, pertinho de mim
E não me sinto mais, tão sozinho
E é muito doce
Essa presença
que meu pensamento trouxe
Enquanto isso...compromisso
Em olhar os ponteiros lentos
Contar momentos
e devorar cada hora que separa
A mim mesmo dessa alegria
Há tanto tempo adiada
de simplesmente olhar
e saber o quanto é bom
e respirar o mesmo ar
na escuridão da madrugada
Te olhando e olhando
e mais nada
Edson Ricardo Paiva
Ando
Meio que lerdo
de pensamentos
Ando
Meio que surdo
Um vento muito brando
Me acalenta
de vez em quando
Uma tormenta
Me atormenta
Quando, por falta de sorte
Venta mais forte
Ando
Pensando
Com minha cabeça de vento
e meus ouvidos moucos
Que não são poucos
Os motivos
Pelos quais eu me esquivo
de dar-lhes
Um tanto assim de atenção
Enfim
Se fosse ouvir meu coração
Seguiria a direção do vento
Que orienta o pensamento
E quando chegasse o dia
Que alegria
Estaria muito longe
da voz da razão
Esta
Abrange
Tudo que demais me guia
Então
Sempre que acaba o dia
Recolho meu sorriso
Adio
Outra vez minha alegria
Preciso
Fazer coisas que tanto odeio
O início me fez fazer assim
O fim não chegou
Estou ainda no meio
No meio de um sonho
Um sonho meio tristonho
Tristemente
Sonho acordado
Uma história linda
Portanto
Enquanto o dia não finda
e nem tampouco inicia
Paro um pouco
Me recolho
No mesmo canto onde guardo
A tristeza e a alegria
Mescladas
Ambas tem cara de nada
Aguardo um tempo
Que tarda a chegar
No tempo onde estou
Meu coração não parou
E nem minha alma morreu
Olho no espelho pra ter certeza
de que eu
ainda sou eu
E não há como negar
Nasce novamente uma lembrança
de que existe, sim
Uma esperança latente
Antes que seja tarde
Eu sei
No meu coração que arde
Nada
Nunca mais
Haverá de afastar a gente
e durmo em paz
Edson Ricardo Paiva
Hoje, ao cuidar do jardim
Eu pensei assim:
de que me vale cuidar da flor
se não tenho um amor
pra quem eu a possa ofertar?
E logo em seguida
surgiu-me mais uma pergunta
De que me valeria amar alguém
Se não a tivesse junto a mim
E se junto a mim, o amor acabasse
Pode ser que o amor durasse
E o desenlasse não fosse feliz
De que me valeria fazer tanta coisa
Se o mais importante eu não fiz
E de que me valeria fazer o mais importante
Se de instante em instante
A vida passa
E se a vida não passasse
Qual seria a graça
De ficar pra sempre nessa dor
E qual é o motivo da pressa
Em morrer sem viver
Sem flor a chorar por mim?
E então, nessa hora eu pensei assim:
Acho melhor eu cuidar desse jardim
Edson Ricardo Paiva
Ainda não inventaram um jeito certo
de sorrir nos momentos de tristeza
Também não é fácil espantar a vontade
de estar perto, quando a gente gosta
Mas que a vida as insiste em pôr distante
Um dia a gente entende que o melhor
É tentar e tentar e tentar ...
tentar até aprender ...a deixar ir
Pois aquele que quiser permanecer
Ainda que distante , tem saudade no peito
E dá um jeito de mandar aviso
a pedir pra não ser esquecida
Pois não existe um jeito
de viver a vida sem sorrir tristeza
Mas viver de tristeza é arremedo de vida
Pois felicidade é coisa sempre dividida
Ser triste em segredo a gente não precisa
Apenas viver é preciso.
Edson Ricardo Paiva.
Na varanda do quintal
Igual a tantos ontens
Hoje escondo um olho à luz do Sol
E vejo um pouco mais aquém
E penso por um segundo
Que nunca olhei tão profundo
Enxergo em olhar marimbondo
Levando pra sob o telhado
A alguma coisa que Deus lhe deu
E concluo aqui comigo
Se esse voar fosse meu
Eu voava até o fim do mundo
Chegando o final do dia
Dizia pro meu amor
Por favor, se ainda não me esqueceu
Se eu fosse você, não esquecia.
Abelha a fazer mel na telha
Desde que sumiste
A chama da vela
Bailando tão triste
Madrugada que ainda clareia
Na areia das horas
Caminho de volta
Não há nada que eu faça
Ou que possa fazer
O monstro da Santa Agonia
É fumaça de vela a também ir embora
Aquilo a que tanto eu queria
Vou querer por mais outro dia.
Edson Ricardo Paiva.
Um dia
A gente vai poder
Olhar de frente pro Sol
E toda magia que se oculta
Há de revelar-se tão natural
Quanto a beleza dos atóis
E cada um de nós
Sem qualquer exceção
Será feliz
Toda alma
E todo coração
Será somente igualdade
Toda semente que brotar da terra
Pertencerá ao reinado da vida
As fronteiras que criamos em nosso derredor
Serão as primeiras a cair
E nenhuma nação
Não cairá e nem será derrubada
Todo mundo saberá
Que diante de tamanha harmonia
Barreiras serão distância
Limites da própria visão
Nada além
Mas nesse dia
Quem procurar
Um ser imperfeito
Que existiu
Descobrirá que essa busca é em vão
Pois toda ilusão que ofusca
A qualquer visão nesse sentido
Será passado
Mas o mundo continua
Sendo somente uma esfera
Não vai haver linha que reduza
A dor crônica e aguda que existir
Na alma e no coração
De cada triste poeta
Dores que a ninguém revela
Tristezas que se vão no vento
Navegando à deriva
Tempestade ... brisa
Um barco à vela a se perder de vista
Fica um poema em linha reta
Fica a saudade guardada
Num lugar escondido
Em cada passado
Um dia, tudo será perfeito
E as coisa que existem
desse modo como as vemos
Serão esquecidas
Disso tudo
Resta somente as lágrimas
Que tanto nesse dia
Quanto hoje
Não significam nada.
Edson Ricardo Paiva.
Chega um dia na vida
Que a medida de tudo
Muda
A passagem do tempo
E a contagem das horas
Dinheiro contado
O Relógio emudece
Cresce a escuridão
Escurece
E tudo é medido
Pela altura
Nessa altura da vida
É que se descobre
Descobri
Que eu não sou quem eu era
Eu morri
Faleci de esperar
O dia que não veio
Morri de tanta espera
Bem no meio da vida
Esperei por ela
Parado
Bem no meio do passeio
Um arranjo de flores
Hoje, em meio a essas dores
Não sei se era pra mim
Ou se pra ela
Minha causa mortis
Desnuda
Fingindo vestida
Foi vida
De todo despojada
Minha vida me matou
Enquanto a vivia
Triste a morri
E a vida seguia
Morri de vida
Sem rumo
Sem prumo e nem norte
Eu morri uma morte linda
de morte despercebida
Enquanto a vivia ainda.
Edson Ricardo Paiva.
Eu peço a Deus
que me livre de estar perto
no dia em que toda existência
Tiver sido um livro que já foi lido
Eu quero viver no Saara
Cujas estrelas no céu
Não param nem para brilhar
Eu também quero um olhar amigo
Que me leve no abrigo de uma oração
E que eu traga comigo, em meu coração
Qual sarça não consumida
Um jogo de paciência
Maior que o poder do fogo
A força que não supera
A divina ciência, aquela que ensina
Ser a simples passagem do tempo
A semente que cresce
Pra envelhecer em floresta
E agora aquele imenso mar, evapora
Mas eu vou estar bem distante
Quisera trazer comigo nesse dia
Uma boa lembrança qualquer
Poder renascer criança
Num lugar onde Deus quiser.
Edson Ricardo Paiva.
Era somente o silêncio
De um tempo que se foi
Era noite
Todo mundo queria
E um dia eu também quis
Amanhecer distante dali
Porque pensei
Que poderia voltar lá
A qualquer instante
Percebia em meus ouvidos
O ruido mágico e único
Na paz do silêncio
Que de longe vem
Naquele mágico momento
Que o silêncio a tudo diz
E tudo faz sentido
Era o encanto do não saber
Que a brisa a soprar lá fora
Depois de ir embora, não volta
Era um pensar inocente
Que tudo aquilo nos pertencia
Era da gente
O silêncio em silêncio ficou
Pediu ao tempo que dissesse
Que a vida ao redor
Tem vontade própria
E nos convida a viver
Mas o viver da vida
Obedece
À sua própria vontade
E não a nossa.
Edson Ricardo Paiva.
Hoje eu abri a janela
E enxerguei longe, lá no Céu
Algo que parecia
Um casal de andorinhas
Voando alegremente
Não sei se estavam mesmo lá
Ou se era ilusão da minha mente
Com o tempo a gente percebe
Que não é certo
E nem inteligente
Sempre crer
Naquilo que se vê de longe
Nem naquilo que se vê de perto
Mas as andorinhas
Pra sempre estarão voando
Acreditando nelas
Ou não
O difícil não é sabê-las
Pois é pra isso que existem janelas
Triste
É viver sem nenhuma ilusão.
Edson Ricardo Paiva.
Pedi ao Sol um quente abraço
Pedi ao tempo que parasse
e olhasse um pouco pra gente
Tentei escrever uma canção
Que falasse da lua nova
Quando míngua pra crescente
Saí à rua pra fazer
Alguma coisa que eu há muito não faço
e esperei o Sol nascente
Saí ao mundo pra fazer
Quem sabe, o que nunca fiz
Te convidei pra vir dançar na chuva
Meti minhas mãos num arco-íris
Qual se ele fosse um par de luvas
Te perguntei se era feliz
Pedi ao vento uma resposta
Falei com os companheiros
Que me cercaram a vida inteira
Agradecendo aos rios
Não chutei, nem desviei-me
das pedras do caminho
Cantei canções para o mar
Depois eu dei um abraço no ar
Coisas que fiz a vida inteira
Por cada irmão que me cercasse
e antes que o dia acabasse
Voltei pra casa e fiz algo
Que desde há muito eu não fazia:
Sorri meu melhor sorriso pra noite
e desejei bom dia ao dia
Mas não me senti satisfeito
O Sol no céu
Águas no mar
O rio no leito
A chuva que cai neste canto do mundo
Num pranto profundo e na mesma cadência
Então eu perguntei à lágrima
O porquê da tua ausência.
Edson Ricardo Paiva.
Era um som que vinha do cristal
Era como que uma espera
Fina fera que espantava o mal
Era como um vento leve
Que te leva a ver o mundo
Lá do alto da colina
Mas depois quebrou-se
Acabou-se o vidro do cristal
Coisa que se quebra à toa
Quando cai
Um barulho de algo bom que voa
Sempre vai...sempre termina
Pra mais tarde olhar-se ao longe
E de longe até parece boa
Mas aquele mesmo som de antes
Durante o tempo que soava bom
Não soa mais
E jamais de novo há de soar igual.
Edson Ricardo Paiva.
- Relacionados
- Textos de amizade para honrar quem está sempre do seu lado
- Mensagens de amizade para valorizar e celebrar quem sempre está ao seu lado
- Poemas de aniversário: versos para iluminar um novo ciclo
- Frases de efeito que vão te fazer olhar para a vida de um novo jeito
- Frases para falsos amigos: palavras para se expressar e mandar um recado
- Frases de saudades de quem morreu para manter viva a sua memória
- Frases de perda de um ente querido para encontrar conforto em palavras
