Mentira
Quem se esconde atrás da mentira,
acaba deixando o rastro no chão.
A palavra pode até enganar,
mas o olhar sempre entrega a intenção.
Mentir para descobrir é tropeço,
é cavar buraco no próprio terreno.
Porque a verdade, cedo ou tarde,
bate à porta sem pedir terreno.
E quem pensa que mente por esperteza,
não percebe que mente a si mesmo primeiro.
A mentira pode até abrir uma porta,
mas nunca leva a um destino verdadeiro.
Dizem que soltar é prova de amor,
balela, mentira que aumenta a dor.
Amar é lutar, é segurar forte,
não largar a mão nem contar com a sorte.
Eu não quero sair da vida de quem amo,
sou raiz, sou chão, não sou vento sem plano.
Saudade me morde, mas eu não desisto,
porque amor de verdade é ficar, É ser visto.
Desiludir-se é o luto de uma mentira, é quando o espelho da expectativa quebra para que possamos, enfim, enxergar o rosto nu da realidade. Dói porque a verdade é fria, mas liberta porque o engano cansa.
“A criança com TDAH muitas vezes promete melhorar, não por mentira, mas porque também sofre quando não consegue cumprir.”
Do livro TDAH: A Mente que Não Descansa, de Nina Lee Magalhães de Sá.
“A mentira clínica pode esconder uma verdade afetiva: a necessidade desesperada de ser visto, cuidado e reconhecido.”
Do livro Síndrome de Munchausen — A Dor Fabricada, o Sofrimento Real: Uma Jornada entre o Engano e o Pedido de Socorro, da autora Nina Lee Magalhães de Sá.
“A saúde mental exige coragem para reconhecer que nem toda dor é simples, nem toda mentira é vazia, e nem todo cuidado pode ser ingênuo.”
Do livro Síndrome de Munchausen — A Dor Fabricada, o Sofrimento Real: Uma Jornada entre o Engano e o Pedido de Socorro, da autora Nina Lee Magalhães de Sá.
A verdade e a Mentira!
Vou contar uma história
Que o tempo nunca apagou,
De uma tal Verdade pura
Que o mundo não suportou.
É dessas que a gente escuta
Mas nunca se aprofundou.
Na pintura antiga e forte,
Que o pincel eternizou,
A Verdade Saindo do Poço
Foi quem tudo revelou.
Obra de Jean-Léon Gérôme,
Que esse enigma pintou.
Diz a velha parábola
Que um dia, sem previsão,
A Verdade e a Mentira
Se encontraram na amplidão.
Uma cheia de malícia,
Outra cheia de razão.
Disse a Mentira, ligeira:
— “Que dia lindo, afinal!”
A Verdade desconfiada
Olhou o céu natural,
E viu que havia beleza,
Que o dia estava especial.
Andaram juntas por horas,
Conversando sem parar,
Até que acharam um poço
De águas boas de banhar.
Disse a Mentira, sorrindo:
— “Vamos juntas mergulhar!”
A Verdade, cautelosa,
Na água foi encostar,
Sentiu frescor e pureza,
Resolveu então entrar.
Se despiu da sua essência
Sem pensar em se guardar.
Mas eis que a Mentira, astuta,
Saiu ligeira do chão,
Vestiu a roupa da outra
Sem qualquer hesitação,
E fugiu pelo mundo afora
Levando sua ilusão.
A Verdade, revoltada,
Do poço veio sair,
Nua, crua e sem disfarce,
Tentando se redimir.
Mas o povo, ao vê-la assim,
Preferiu dela fugir.
Viraram rosto e desprezo,
Ninguém quis a encarar,
Pois a Verdade despida
É difícil de aceitar.
Mais fácil é a Mentira
Bem vestida a circular.
Triste, a Verdade retorna
Pro fundo do seu lugar,
Se esconde no escuro d’água
Sem mais querer se mostrar.
E o mundo segue enganado,
Sem vontade de acordar.
E assim segue essa história
Que o tempo só confirmou:
A Mentira anda vestida
Do que nunca lhe pertenceu,
E a Verdade, envergonhada,
No poço se recolheu.
