Me Perdoa mas eu Tentei

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Respirem cinzas.
Eu assofro pra limpar o cinzeiro — gesto pequeno, gesto de sobrevivência.
Há uma fuligem que insiste em falar meu nome, mas eu já não tenho paciência pra suas sílabas.


Cinco meses foram um mapa de mil estradas que ela percorreu na minha cabeça.
Quilômetros interiores, passaportes carimbados na memória.
Porém — nunca travei. Nunca parei. Nunca me neguei ao beijo que vinha entre uma lembrança e outra.


A insuportável mulher do olhar torto ocupou janelas inteiras, fez morada em gavetas.
Quando o olhar saiu de mim, a sala clareou como se alguém tivesse aberto a cortina de dentro.
Não foi vingança, não foi perdão; foi uma pequena aliança entre ar e verdade: eu respirei outro ar.


Já não estou mais aqui de tanto querer estar.
Essa vontade me evaporou de dentro — deixou o corpo e levou a fumaça;
ficou um corpo que aprende a olhar o mundo sem pedir licença.


Gritei. Clamei. Ninguém respondeu — talvez porque ninguém estivesse mais lá.
Talvez porque eu também não estivesse mais, e isso foi preciso: abandonar-se para reaparecer.
Eu fui para o abandono e voltei com as mãos sujas de cinza e o peito limpo de delírio.


Chamuscado e floresci. Memória como tatuagem que não dói mais, só lembra —
lembrar é menos que sofrer, é estudar a própria paisagem.
Sou ferida que virou mapa, cicatriz que sabe dizer caminho.


FIM DE TEMPORADA:
não é morte, é o abaixar da cortina com reverência e sem aplauso.
Como se os heróis tivessem perdido o brilho falso e ganhado o peso do que realmente importa: permanecer.


Obrigado por assistir.
(é um riso que sobra no fim do filme — seco, com fumaça na garganta.)


Eu sou o que vai e o que fica.
Eu sou o que permanece e prevalece.

“Pode parecer uma miragem no deserto, mas eu consigo enxergar a vitória no horizonte.”
Léo Pedacci ✍️

Eu paro, admiro, rezo, fotográfo e sigo viagem.

Deus escreve sempre certo, quem lê errado sou eu. Às vezes, não entendo os caminhos, questiono os porquês e me entristeço com o que parece dar errado. Mas Deus enxerga além do que vejo. No tempo certo, tudo se encaixa e a fé revela que Ele sempre soube o que fazia.

"Eu odeio a minha escola. Eu odeio todo mundo. Eu odeio minha vida."

Family Guy

Nota: Fala da personagem Meg Griffin.

Eu não pedi que você ficasse.
Há um momento exato em que o amor deixa de ser tragédia
e passa a ser apenas clima.
Como garoa em roupa esquecida no varal.
Como cheiro de cigarro preso no banco de um carro antigo.
Como aquela dor de cabeça que já não preocupa ninguém
porque aprendeu a morar no corpo.
Você arrumava as coisas lentamente
e eu pensei, com uma serenidade quase ofensiva:
ela finalmente cansou de mim.
Não de mim inteiro —
isso seria grandioso demais —
mas desse homem pela metade
que chega do hospital cheirando antisséptico e cidade,
que fala de literatura latino-americana
como quem tenta salvar alguma dignidade do mundo,
que coleciona moedas estrangeiras
porque nunca conseguiu pertencer completamente ao próprio país.
Escorei no Renault noventa e um.
O carro estalava baixo, esfriando o motor,
como um animal velho respirando durante o sono.
Acendi um tabaco ruim.
Misturei mate uruguaio no fumo.
Não por boemia.
Nem estética.
Por superstição.
Alguns homens rezam.
Outros adulteram o cigarro.
Você passou por mim sem dizer nada
e eu gostei disso.
As grandes despedidas são profundamente constrangedoras.
Ninguém deveria transformar amor falido em espetáculo.
Pensei em Manuel Bandeira olhando janela de pensão barata.
Pensei em Benedetti entendendo tarde demais
que Montevidéu sempre foi uma maneira elegante de sofrer.
Pensei em Clarice,
naquela coisa terrível dela de perceber a alma das coisas
até quando elas já estavam mortas.
E então percebi uma coisa pequena,
quase ridícula:
eu tinha sobrevivido tempo demais.
Sobrevivi aos problemas.
Às cobranças que pareciam ser infinitas.
À vergonha de pedir ajuda.
À escola sugando meus últimos gestos humanos.
À fumaça.
À exaustão.
À sensação humilhante de fracassar devagar.
Sobrevivi até mesmo à esperança,
o que talvez seja a forma mais adulta de tristeza.
Você abriu o portão.
O barulho do ferro ecoou na rua vazia
como ecoam certas decisões irreversíveis:
sem dramaticidade,
apenas definitivas.
Eu poderia dizer que ainda te amava.
Mas seria inútil.
O amor, às vezes, não acaba.
Ele apenas perde utilidade prática.
Então fiquei ali,
encostado naquele Renault cansado,
fumando um cigarro adulterado com erva estrangeira,
olhando você ir embora
como quem observa um país desaparecer pelo retrovisor.
Sem raiva.
Sem poesia suficiente.
Sem salvação.
Só aquela melancolia fronteiriça
dos homens que aprenderam tarde
que viver também é perder território.

seus olhos.


Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles.


Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais.


As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos.


Era como cair no mar sem ter medo de afundar.


Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar.


Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele.


Ela era esse intervalo.


Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto.


E talvez eu tenha amado também essa sensação.


A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro.


Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar.


E eu queria ser esse lugar para ela também.


Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar.


E ainda havia a saudade.


Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado.


Foi assim que ela ficou em mim.


Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos.


E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido.


Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela.


Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali.


Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar.


Ao lado dela.


E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir.


Ela existiu.


E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano.


Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva.


Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro.


Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar.


Era sobre confiar.


Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria.


E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar.


E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície.


Mas algumas profundidades não desaparecem.


A gente apenas aprende a carregá-las.


E eu ainda carrego aqueles olhos comigo.


Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.

⁠"A paz que ofereço diz quem eu sou. A paz que o outro rejeita diz onde ele está." — ChatGPT (Siger), em conversa com Régis.

Eu só tenho uma coisa para dizer o aço da minha pistola é Gerdau ou seja ou foi feito por mim ou pelo meus irmãos.

Você vai ver eu me afastar na mesma intensidade que cheguei! Vai até tentar me segurar, mas eu estarei longe, longe das suas mãos, longe o bastante pra não me alcançar mas.

​"Nas tempestades em que o ar me falta e a mente transborda, eu me torno um fantasma no meu próprio santuário branco: um lugar onde o vazio é o único abraço que não me sufoca."

"Quando o peso das memórias e o caos do mundo aceleram o meu peito, eu me encolho para dentro da minha própria cabeça -- flutuando como nuvem no vazio claro, onde o meu terror se cala para que ninguém o veja."

⁠Se o que eu digo ressoa em você, é meramente porque somos galhos da mesma árvore.

Eu sou apenas um primata depilado, consciente, vestido e perfumado.

Espelho, espelho meu, existe um ateu mais crente do que eu?

⁠É amor que eu estou buscando, Mas de um tipo belo e inaudito que não está no mundo.

⁠Ontem eu era criança, e hoje já tenho contas para pagar, mano o tempo não para.

“Crônica do Inferninho”

Eu estava prestes a sair do trabalho quando decidi chamar um Uber para me levar para casa. Assim, poderia relaxar um pouco no caminho de volta, depois de um dia bastante cansativo.

Quando o Uber chegou, entrei no carro e disse:
Boa noite!
O motorista respondeu educadamente:
Boa noite, senhor!

Seguimos em direção à minha casa.

De repente, o motorista me fez uma pergunta:
O senhor não gostaria de passar pelo inferninho antes de chegar em casa?

Respondi imediatamente:
Não, obrigado!

Pouco depois, ele perguntou novamente:
Tem certeza de que não quer passar pelo inferninho antes de ir para casa, senhor?

Tenho! Quero chegar em casa o mais rápido possível!

Mais uma vez, o motorista insistiu:
Tem certeza mesmo de que não quer conhecer o inferninho, senhor?

Já com certa irritação, respondi:
Não! Quero ir para casa. Estou muito cansado e quero descansar.

Mas, novamente, o motorista tocou no assunto:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar do inferninho.

Dessa vez, alguma coisa despertou minha curiosidade.
Afinal, o que é esse tal de inferninho?

O motorista respondeu com um sorriso nos lábios:
O senhor precisa ir até lá para conhecer.

E completou:
Quem vai ao inferninho gosta muito.

O senhor não quer ir lá conhecer?

Não! Quero ir para casa, por favor!
respondi, já bastante irritado.

Claro, senhor. Não vou mais falar do inferninho.

Fez-se um silêncio total dentro do carro…

Mas, de repente, fui eu quem ficou com vontade de perguntar:
Onde fica esse inferninho?

O motorista respondeu:
O senhor gostaria de ir até lá?

Mas me diga primeiro: que diabos é esse inferninho?

Ele respondeu:
O senhor precisa ir lá para descobrir.

Você não pode simplesmente me dizer o que é esse inferninho?!

Não. O senhor tem que ir até lá!
exclamou o motorista.

Sério?! Eu tenho mesmo que ir para descobrir o que é?

Com uma voz muito convincente, ele respondeu:
Tenho certeza de que o senhor nunca viu um lugar como o inferninho.

Aquilo aumentou ainda mais a minha curiosidade.

E o motorista completou:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar!

Pronto. Minha curiosidade foi parar nas alturas.

Comecei a imaginar que devia ser um lugar cheio de mulheres, muita bebida, música alta… uma verdadeira zona!

Fiquei pensando naquele inferninho durante alguns minutos e, finalmente, perguntei:
Você pode pelo menos me dizer o que tem lá?

O motorista respondeu:
O senhor precisa ver com os próprios olhos. Não posso dizer nada.

Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.

Que lugar seria aquele? Até o nome era uma tentação! Devia ser bom demais. De repente, até o meu cansaço havia desaparecido.

E agora? O que eu faço???

Minha mulher pensa que estou trabalhando…

Hum…

O que eu faço???

Uma coisa era certa: se eu não fosse conhecer aquele inferninho, aquilo ficaria martelando na minha cabeça pelo resto da vida. Afinal, a curiosidade de um homem que se preze pode ser maior do que qualquer outra coisa!

Mas não.

Não cometi esse erro.

E ponto final!

Está bem falei para o motorista.
Pode me deixar em casa.

E ele me levou.

Mas aquele inferninho ficou na minha cabeça, me perturbando…

E tenho certeza de que ainda vai me perturbar por muito tempo.

Afinal…

Que diabos é esse inferninho???

E você?

Teria ido para casa… ou teria pedido ao motorista para levá-lo ao inferninho?

Uma hora, cada fragmento encontra o seu lugar e tudo o que parecia disperso revela o caminho que eu estava construindo.

Sinto que sou o eco de um mundo que se foi antes que eu pudesse despedir. Caminho no agora como sombra deslocada — não fantasma, pois ainda sinto; não exilado, pois nunca tive de onde partir. Apenas um peregrino que chegou, devagar e com clareza dolorosa, no século errado.