Me Deixa que hoje eu To de Bobeira
Dentro de mim
Demétrio Sena - Magé
Mora dentro de mim, eu sei que mora
uma fauna impossível de conter,
sou a flora sombria dessa fauna
que não sei responder de qual espécie...
Correm dentro de mim, demônios tantos,
e tão tontos que sempre se atropelam,
não há santos na sombra de quem sou
entre vastas folhagens; galhos fartos...
Caem dentro das minhas armadilhas,
mas conhecem meus truques e se livram,
as matilhas de todo e qualquer bicho...
Ando fora de mim, porque não tenho
uma vaga na minha escuridão;
nem perdão por fugir do próprio ser...
... ... ...
Respeite autorias. É lei
Eu atravessaria o fim do mundo por você, mas não daria mais um passo por quem nunca teve coragem de caminhar na minha direção.
Eu e a minha dor
Eu, intensa, ela também.
Eu, temerosa, ela, tenebrosa.
Eu, pensativa, ela, ofensiva.
Ela é invisível, mas existe, e vem potente.
Ela é traiçoeira, não avisa, apenas surge e me derruba.
Sim, é uma dor minha, uma dor que eu não escolhi.
Se você me olha e me vê aparentemente feliz, não faz ideia de quanto dói aqui por dentro.
E mesmo que você se mostre solidário, jamais entenderá o que eu sinto.
Às vezes sou Frida: “A dor é parte da vida e pode se tornar a própria vida”, outras vezes sou Fiona: “À noite de um jeito, de dia de outro”.
Mas a vida segue e eu escolho ser feliz.
Nota:
Eu faço parte de 3% da população brasileira que é afetada pela fibromialgia, uma condição em que a dor é minha companhia.
No começo eu até pensava: “Tem gente que sente muita dor, pra mim é mais tranquilo.” Acontece que hoje eu passei a fazer parte daquele grupo também e isso me assusta.
É preciso viver um dia de cada vez, mas cada dia vem cheio de dor e angústia.
02/10/25
Eu sou da paz
Se você gritar, eu vou apenas falar.
Se você me ofender, eu irei ouvir e ignorar.
Se você tentar me agredir fisicamente, eu vou recuar.
Você vai continuar agindo de forma desrespeitosa, mas talvez o meu silêncio traga-lhe uma reflexão.
A vida é muito preciosa para a preenchermos com atitudes tóxicas e que em nada contribuem para o nosso crescimento.
No final tudo vai passar.
Eu ficarei bem, espero que você também.
Eu sou da paz! 🤍
Nota:
Uma reflexão sobre as relações do cotidiano, sobre como as pessoas tratam as outras. O ser humano precisa ser reiniciado...
NA QUITANDA DA VIDA
Na quitanda da vida,
eu aprendi que viver
não vem pronto.
A vida se oferece em porções:
tem dias que adoçam a boca,
outros que amargam a alma.
Tem dias de fartura
e dias em que a gente precisa
dividir o pouco
para ninguém ficar sem comer.
Foi no meu quilombo que aprendi
que a vida não se mede pelo que se possui,
mas pelo que se partilha.
Minha primeira escola foi o território.
Foi olhando a terra,
ouvindo os mais velhos,
sentindo o cheiro da chuva,
vendo o dendê nas mãos,
escutando as histórias que não estavam nos livros,
que comecei a compreender
que memória também é conhecimento.
Eu sou feita dessas coisas.
Do chão que meus ancestrais pisaram.
Das palavras que sobreviveram ao silêncio.
Das mulheres que sustentaram suas famílias
quando quase ninguém olhava para elas.
Das mãos que plantaram, colheram, cozinharam,
criaram filhos e mantiveram a comunidade de pé.
Por isso, quando digo quilombola,
não estou apenas dizendo quem sou.
Estou dizendo de onde venho.
Estou dizendo o que carrego.
Estou dizendo aquilo que não aceito perder.
Minha identidade não é fantasia.
Não é adereço.
Não é tema para novembro.
É existência.
É estar no mundo
sabendo que antes de mim
muita gente precisou resistir
para que eu pudesse estar aqui.
E estar aqui também é resistência.
Eu não quero que contem minha história
como quem observa de longe.
Quero falar.
Quero contar.
Quero produzir conhecimento
a partir do lugar onde meus pés estão.
Porque também fazemos ciência
quando guardamos a memória.
Também fazemos educação
quando ensinamos uma criança a conhecer sua história.
Também fazemos cultura
quando transformamos nossas vivências em arte.
O quilombo não é passado.
O quilombo é presente.
Está na criança que pergunta.
Na mulher que enfrenta.
No jovem que permanece.
No mais velho que aconselha.
Na comunidade que se reúne.
Na terra que alimenta.
Na memória que insiste em permanecer viva.
E eu sigo nessa quitanda da vida
escolhendo o que quero carregar.
Não levo tudo.
Algumas dores eu deixo na banca.
Alguns silêncios eu devolvo.
Algumas histórias eu reescrevo.
Mas a ancestralidade,
essa eu levo comigo.
Porque aprendi que não basta sobreviver.
É preciso existir com dignidade.
É preciso ocupar.
É preciso falar.
É preciso criar.
É preciso deixar marcas.
E quando perguntarem
o que é ser quilombola,
talvez eu não precise explicar tanto.
Basta olhar para mim.
Eu sou mulher.
Sou território.
Sou memória.
Sou continuidade.
Sou uma voz que veio de longe
e ainda está chegando.
E enquanto eu tiver voz,
o quilombo continuará falando.
Eu e os livros,
mares de encontros que me atravessam,
ventos que me levam a navegar saberes.
Cada página acende em mim
a chama esquecida,
essência adormecida que desperta
no entrelaçar de vidas,
na confluência dos caminhos
que me habitam.
Procuro um jeito de explicar
Minha mente fica em silêncio
quando eu tento falar de você,
as palavras chegam tão perto,
mas não conseguem dizer.
Eu penso em mil maneiras,
procuro um jeito de explicar,
mas tudo que sinto aqui dentro
é grande demais pra caber no falar.
Talvez eu não saiba escrever
aquilo que você faz nascer,
porque tem sentimentos tão bonitos
que nenhuma frase consegue descrever.
E eu tento, verso por verso,
juntar palavras pra te alcançar,
mas quanto mais eu tento explicar,
mais vontade eu tenho de te abraçar.
Então talvez seja esse o segredo:
você não foi feita pra explicar.
Foi feita pra ser sentida,
daquelas pessoas que a gente encontra
e simplesmente não consegue esquecer.
Se a poesia se perde quando fala de você,
talvez seja porque, dessa vez,
meu coração escreveu primeiro
e minhas palavras chegaram depois.
O tempo passa, o tempo voa, e eu, aqui, permanecerei — sereno, de consciência tranquila e seguindo a minha caminhada.
O Silêncio de um Coração Covarde
Eu tenho um coração covarde, que só sabe amar em silêncio. Quase tudo o que senti por alguém, guardei para mim, como se conviver com a eterna dúvida de “Em algum lugar do seu coração, haveria sequer uma faísca de amor por mim?” fosse melhor do que arriscar ouvir que o meu amor jamais poderia ser correspondido.
Talvez eu esteja fadada a esse destino: amar justamente aqueles que não conseguem retribuir o que sinto. E eu não estou sendo dramática dessa vez, eu juro. É que, de alguma forma, eu sempre acabo no meio de duas pessoas que se amam. E eu sou a coadjuvante invisível que queria ser capaz de mudar seu destino. Pensando bem.. A culpa é inteiramente minha. Nunca tive a capacidade de olhar para a própria história e tentar reescrevê-la. Eu nunca tenho coragem suficiente para mostrar o que sinto. Por ninguém. E, por você, menos ainda.
E então, foi assim que eu aprendi a me contentar com tão pouco. Com estar por perto, ouvir sua voz, dividir pequenos momentos que, para você, talvez sejam apenas amigáveis, mas para mim, são como lenha para o meu coração. Às vezes, em meio à euforia, eu me fecho. Minha expressão muda quando volto à realidade e percebo que seu olhar está brilhando, mas não é em minha direção.
Mas apesar dessa dor, ainda prefiro ouvir você dizer que o ama enquanto me sufoco com os meus próprios sentimentos, a sentir sua voz se tornar cada vez mais rara depois que eu me afastar, por não suportar a dor de amar sem ser correspondida. Não me julgue, por favor, é o melhor que posso fazer por agora…
Até algum tempo atrás, isso era suportável. Quando eu percebia que estava desempenhando novamente o papel de coadjuvante, apenas colocava meus dois fones de ouvido no máximo e reproduzia 'Heather' do Conan Gray. Cuja letra se encaixava tão perfeitamente à situação que parecia a trilha sonora de uma cena da minha "história". Quando eu chegava em casa, assistia a 'A Noiva Cadáver', filme que acabou se tornando o meu favorito. Principalmente porque, para me igualar ainda mais à Emily, eu só precisava estar morta.
Isso era tudo que eu fazia, e ainda faço: tentava me consolar através de músicas e filmes que eu me identificava. Derramo algumas lágrimas de vez em quando. Questiono o que há de errado comigo mesma ─ “O que falta em mim?”. E então guardo tudo outra vez. Guardo, guardo e guardo, sem cogitar que um dia atingiria o meu limite.
Agora, pela primeira vez, os meus sentimentos parecem grandes demais para continuarem escondidos aqui dentro. São tão espaçosos que sinto que, qualquer dia desses, vou me afogar neles. Quando estou ao seu lado, eles quase transbordam. Um gesto protetivo seu, uma palavra bonita, um olhar demorado, e todas as borboletas parecem se mover dentro de mim, procurando uma saída.
E, mesmo assim, eu continuo neutra. Sendo a pessoa com quem você pode desabafar sobre suas decepções amorosas, enquanto me contorço para não dizer que eu poderia te oferecer o dobro do amor que você tanto deseja. Porque esse coração covarde, que aprendeu a amar em silêncio, ainda acredita que é melhor sufocar com o próprio amor do que correr o risco de perdê-lo.
É assim que me sinto.
━ Yasmin Goulart
Acolher o que está Quebrado
Eu não quero somente a parte bonita de você,
Quero conhecer o que você esconde quando ninguém vê,
Quero tocar suas cicatrizes sem fazê-las doer,
E amar até aquilo que você aprendeu a esconder de si mesma.
Se o mundo te ensinou que amar era sofrer,
Eu quero ser a prova de que pode ser diferente,
Vou ficar quando suas forças desaparecerem,
E te abraçar justamente quando se sentir insuficiente.
Não prometo consertar tudo que a vida destruiu,
Nem apagar cada lágrima que caiu do teu olhar,
Mas prometo ficar quando o teu coração desistir,
E juntar, com minhas mãos, os pedaços que você deixar quebrar.
Porque eu não quero um amor perfeito, quero um amor verdadeiro,
Daqueles que permanecem quando o encanto termina,
Quero conhecer teu caos, teu medo e teu mundo inteiro,
E ainda escolher você — todos os dias, por toda a minha vida.
ESTRUTURA DE LIVRO
Eu não sigo estrutura
Eu sigo o coração
Você prefere um sumário
Ou amor na conclusão
Eu escrevo no pensador
Para chegar no seu coração
Pare de brigar por besteira
E seja o amor e a paixão
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