Me Ame quando eu menos Merece
Depois do fim do mundo, quando ocorrerá o juízo final
Os santos habitarão Angra
E nunca mais agruras, saudades nunca mais;
Era o que propunha tanto deslumbramento
Naquele final de tarde,
Os seios peras de Janice pareciam sustentar o ocaso
Já era tarde demais
E dentro dos seus pesadelos
Pesava o pesar de pesar a dor
Ele comeu a namorada
A mãe da namorada, a irmã mais nova,
A vó andava muito carinhosa
E o seu sogro lhe olhava estranho...
Ele comeu a namorada,
A mãe da namorada,
A irmã mais nova
E a tia lhe dava selinhos...
Já era tarde demais
E sua cabeça fervilhava
E no final de tarde
Quando a tarde doura as nuvens
E pinta róseo o horizonte
Seus desejos de poeta suplanta a filosofia...
Hoje a tia... a tia tinha um ângulo bonito;
Um passado que adivinhava
Um busto encantador,
Uma beleza singular
Que ainda não perecera no tempo,
Seria um bom momento, um condimento...
O que mais se faria em Angra,
Vista paradisíaca, comida afrodisíaca...
Estavam todos tão felizes...
Ele comeu a namorada ,
A mãe da namorada, a cunhada caçula, a tia...
A avó era muito simpática, o sogro meio um ogro
Se bem que olhando direito...
ANGOLA
Tenho cinco séculos
E na angola,
Quando tua pele retinta trazia a minha mente
As noites, as graúnas ,
E as perolas negras dos teus olhos
Me diziam que eras Helena
Mas teus lábios me falavam de poemas
Que gostavam de beijar
Eu era ainda uma criança
E aprendi com teu corpo
Que é pecado não pecar por amor
Eu tinha cinco séculos
E aprendi beijar nas tuas ancas
E aquela criança amamentada pelos teus seios
E pelos que eu não seios
E pelos pelos feitos plumas
De um ave que eu gostava de voar
E sobrevoar as savanas
Assim conheci a selva do teu corpo
A África da tua negritude
E eu já tinha cinco séculos de juventude
E juventude para outros séculos
Amores e paixões para todas
As tuas áfricas e todas as angolas
BARQUINHO DE PAPEL
De vez em quando vou a praia
Não com a frequência de antes,
Mas ainda sonho diante das ondas...
Se eu fosse um peixe eu já teria sido pescado
Se eu fosse uma embarcação já teria naufragado...
Talvez tenha acontecido em outras vidas
Com peixes espadas e um navio fantasmas
Com degoladas namoradas
Que amei intensamente e nunca as tive...
Mas ainda sonho nessa imensidão de vagas enormes
Como um barquinho de papel que sobe e desce nessa ilusão
Que viaja no passado e de vez em quando vai a praia,
E não com a frequência de antes, mas ainda sonha...
ESQUARTEJADOS
saboreou seus dedos
lembrando o medo
das seis da tarde quando ele regressava
investigou suas golas, espionou suas etiquetas
roeu falange, falanginha e falangeta
lavou seu tênis e seus testículos
lembrou momentos bonitos
que já pareciam longe
quando fingia chupar seu sangue
e morder sua glande
fez picadinho do coração
ao som de um violino e um violão:
''mas não me olhe assim,
nem pense que eu sou ruim
e nem sou revanchista
eu só quero o céu do teu olhar
no olhar do meu céu
e me enganar que você foi fiel"
"eu rejeito o amargor desse fel
e esta angústia cruel
de imaginar-me traída...
e parecia absurdo
o ar de pânico do cadáver todo duro
com os olhos fixos e arregalados
depois vamos pra serra,
depois da serra elétrica
e da imperfeita métrica desse poema "
depois do último raio do crepúsculos
relaxa os músculos
vamos pra serra, depois da serra elétrica
vamos pra caverna dos esquartejados
te disse que nosso amor era pra sempre e infinito
terei esse olhar aflito terei teus gritos
terás companheiros: Osmar, Raul e Benedito
Perdoa! A fila anda...
ONTEM
Tudo era tão lindo,
Quando tudo era lindo,
Quando tudo era tudo
Que se resumia no indelével prazer
De achar que era tudo aquele querer
Era tudo que eu sonhava
Quando eu sonhava com tudo
De bom que eu pudesse ter
BABY, YOU LOOK SO FINE
Sabe aqueles cinco minutos de ansiedade mórbida
De quando se espera a pessoa amada no primeiro encontro,
Aquilo é pressa de viver
E quando a neblina cai, o trem apita, alguém esbarra
E a cigana te cerca insistindo em ler a tua mão,
Sou analfabeto e bruto nesse tipo de emoção;
Nada quero do futuro, hoje mesmo eu morro de prazer,
Hoje mesmo terei o prazer de morrer de amor;
Ah seus olhos são verdes, que coisa linda!
As colinas descem ao meu umbigo e eu digo
Vermelho de paixão: não para agora, agora não;
O mundo pode ser tão belo, a vida pode ser tão boa...
O trem apita, alguém esbarra,
A cigana mente e continua a garoa...
Baby, baby... you look so fine, mas não demore tanto,
Não demore nunca mais, eu tenho taquicardia
Eu sou uma criança e a esperança desce o morro
O teu olhar é o meu socorro, disso eu não morro
Nem que meu coração bata mil vezes por minuto
E por mais que essa agonia, essa pressa de viver pareça absurdo
Eu cavalgo sobre o meu coração ao pulsar dessa taquicardia
E é isso que move os meus dedos em direção a poesia...
Aonde iremos quando só lembranças festejarem os sentimentos
e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado?
poderei sonhar, sempre poderei sonhar perdido na imensidão das estrelas
e do mundo misterioso que elas nos intui. Suas belezas refratárias tornam profícua
a imaginação e mais que esse fascínio, só, e singularmente
a solitude deste vulto poético. Então antes que nossos olhares lânguidos
se percam nos labirintos do passado, vasculho um pretexto, qualquer desejo
que ficou implícito nos desvarios das emoções; a ordem das coisas muda, tudo muda de ordem mas a ordem dos fatores não altera o produto... haverá um momento... mesmo por alguns instantes, uma sensação de perda, um olhar...uma atitude que era uma mensagem mas não foi percebida e ficou perdida; então sob as estrelas, sob os signos e os mistérios, o magnetismo que harmoniza... parece que a noite e a capacidade de ver de novo é um paliativo... tudo torna-se mais brando e assimilamos os golpes mais duros, as acusações, os dedos em ristes, as palavras ásperas... então eu questiono: quando só lembranças festejarem os sentimentos e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado, aonde iremos? onde quer que formos teremos nossos corações sobre nossas cabeças, os sentimentos a fazer pulsá-los, o mistério e o cintilar das estrelas sobre o firmamento e a nossa única e grande certeza: a inabalável capacidade de recomeçar.
Nada era verdade quando a verdade era nada;
Matou o gato, o periquito, o cachorro,
Matou a namorada
Nada era verdade ainda;
Matou a galinha, o coelho, matou a vizinha...
A realidade se media pela quantia
E tudo se multiplicava por nada;
Matou o que era verde e o que não era
que era estático e o que se movia
Mas a verdade não aparecia
Matou o concunhado, o vigário a messalina,
E quando era sábado sem a contrição,
Sem chave de coxas na cintura,
Sem a loucura daquela língua e aqueles lábios,
Achava-se sábio...
Mataria o anão, o filósofo, o prefeito;
Mas por mais que matasse, não mataria o prazer
O prazer de matar, talvez matar não fosse solução,
Talvez a solução fosse morrer
Morreria num sábado ensolarado, numa segunda Chuvosa
Ou numa quinta; numa quinta serena...
Missa de sétimo dia e novena...
Um edifício, trigésimo andar...
Um voo onde sua alma alcançasse mais fácil o céu
E somente seu corpo se esfacelasse
No solo duro da realidade
Porque a verdade era nada, nada era verdade...
VOZ DA POESIA
Às vezes o meu olhar sobe o morro
Quando morro de saudade
E a razão pede socorro...
Eu já fui tão feliz um dia
Que a raiz que me sustenta,
E a luz que me ilumina
Se inclina pra colina
E colore a tarde de salmão, rosa e dourado...
Eu ponho de lado o meu orgulho
Às vezes e sem querer fazer barulho
Eu canto um samba;
Algo que batuca no meu peito
Eu não tenho jeito,
Eu sou escravo desse amor...
E de outros amores que eu não soube,
Mas li em algum poema
Ou assisti em algum cinema
Eu sou a voz da poesia
Mas tenho medo do seu cântico,
Eu que já fui feliz um dia
Prefiro ser sozinho do que ser romântico...
PILARES
Às vezes quando o que temos é o que nos traz medo tememos pelo que Temos e pelo medo;
Às vezes quando o que temos é só um segredo
O que temeremos?
Nada vale tanto espanto
O mundo tem suas pilastras;
Nada fica solto ao vazio,
Temos cabos e andaimes
O mundo tem um fundo de verdade nas suas mentiras
O mundo tem suas pilastras,
O que nos sustenta é exatamente o que nos faz cair...
O que nos sustêm são as abstrações
Amor, ódio,paixão, esperança, alma ,
O ar que respiramos e fé...
Nada fica solto no vazio,
Ou melhor o vazio fica solto no nada...
Temos pilares que nos sustentam
E o que nos sustem é o que nos faz cair e ninguém vive sem isso... ;
ONTEM
quando não for mais hoje,
quando não for tão breve,
me leve nessa brisa lisa desse teu sorriso,
eu não preciso de nenhuma teoria
que explique o tiquetaque do relógio,
nenhuma teologia que explique o que é divino,
eu sou menino e a paixão carrega na tormenta
o que me atormenta depois do que... foi ontem
eu posso ser melhor do que ser só,
eu posso ser solitário...
mas lugares comuns me afligem...
eu posso ser bonito,
contanto que manhãs ensolaradas
me lembrem ofegantes as tuas narinas;
como é belo fazer poesia
porque amor foi o que fizemos ontem...
Meu amor, quando o amor não for teu;
e só o teu amor...
como se a dor do mundo nos teus ombros,
como se os escombros da paixão
farpassem teu coração na dor imensa da desilusão;
o amor não caminha com ansiedade;
amor é uma cidade tão tranquila;
gente bonita na janela,
um milharal, um cajueiro
e a poesia a se banhar num lago cristalino;
o amor é um menino com todo tempo do mundo,
o amor é dono dos horizontes
e do tempo e se não for assim,
é qualquer sentimento, menos amor
Sempre sonhei demais e há muito tempo atrás
quando o mundo era belo e tinha tons lilás...
Sempre haverá em algum lugar o meu desejo,
em outro rosto o teu sorriso,
a alfazema a colorir minha saudade em outras primaveras,
Essa magia que a paixão nos oferece,
nos leva assim dramática e tão suavemente,
tranquila e tão agressivamente...
um dia desses eu adolescia; a multidão de ontens,
Sorrisos e olhares, chicletes e cigarros...
Meus blue jeans que desbotavam a ritmos de desejos, sorrisos e bocejos,
e como nos perdemos assim tão fácil
se tínhamos o controle do tempo e todos os poderes
que virtualmente a juventude nos impõe...
quando algum dia os céus terão as mesmas cores,
e tardes serão promissoras de noites de amores...
agora que eu entendo que não entendo nada
e a dependência de depender de algo
é a única referência que eu tenho do que eu não tenho...
alguém me fala de aventura
com um sorriso aberto da cor do céu da minha adolescência...
eu que sempre sonhei demais, e há muito tempo atrás
quando o mundo era belo e tinha tons lilás
acreditando que a luz dos horizontes e nossas fantasias
alimentam o lado bom de nossas almas
e nos fortalecem diante das paixões...
O SILENCIO
O silencio se impõe
Quando as palavras pensam que foram sucintas
E os sentimentos que fonemas não traduzem,
O silencio conserva...
Os poemas das dores dormem durante os olhares
Que buscam uma explicação para a emoção
Que as palavras não conseguem explicar,
O silencio conserva essa emoção silenciosamente;
Esse poema de vagalumes, grilos e brisas só a alma percebe;
Os montes se erguem majestosos para colherem ocasos
E o silencio está ali divino e materializado...
É este poema que inspira a todos os poetas: o silêncio.
quando não tenho nada,
tenho tudo de que preciso,
quando preciso de tudo, nada tenho;
mas o que me levará
a tal necessidade de existir;
quando só o fato de existir
já me traz tantas necessidades...
Tinha sempre água na geladeira
quando tínhamos geladeira...
de vez em quando me vem essa lembrança,
entre muitas lembranças
que certamente eu tinha
e de certo, muitas dessas lembranças eram saudades,
agora não me lembro de nenhuma saudade...
o buriti parecia colher estrelas
depois da cerca do nosso quintal,
é um neon incandescente neste breu
onde o passado se apaga,
algum vulto se debate impetuoso,
sabe esses fantasmas que se rebelam
e murmuram nos calabouços...
alguma coisa deveria brilhar nessa manhã,
mas é só uma manhã como todas as manhãs;
água gelada, sorrisos anônimos...
uma ternura piegas nesse olhar triste
que talvez queira me dizer algo que eu não entendo mais.
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