Luto Morte
Já faz alguns anos que venho participando de simpósios, seminários, escolas bíblicas, e conferências. Sempre que se abre um precedente, a localização geográfica do vale da sombra da morte descrito no salmo de Davi, desperta uma discussão acalourada e ninguém nunca tem certeza de nada. As descrições mais aceitas é que se tratava de um desfiladeiro ingrime, estreito e perigosíssimo, onde ladrões habitam as cavernas. Outros dizem que se tratava do vale dos leprosos. Mas, de fato, ninguém sabe se era um local ou uma situação que ele atravessou. De qualquer forma, para quem busca esta informação, a resposta está aí para todos. Nunca o vale da sombra da morte foi tão real, como os dias que nós atravessamos hoje. Afinal, a morte está literalmente no ar e cada um de nós trilhamos por este vale. Não temas, Deus está contigo. Creia!
"A fama passa, a importância fica. Quem morre é porque foi esquecido. Quem foi pelas obras importado, jamais morrerá."
Penso que a mortalidade de nossos desejos, sonhos e aptidões, seja fundamental pra que façamos escolhas e sacrifícios em direção ao que mais queremos em vida. Para muitos, esta busca simplifica-se em felicidade ou legado. Queremos levar o melhor da vida e deixar o melhor de nós para o mundo, basicamente. A morte nos dá um prazo, uma condição. E nisto fundamos qualquer valor sobre a vida. Sobre nós.
Se tudo está intrinsecamente ligado, razão pela qual chamamos 'universo', então é fácil presumir que um dia, em algum ponto deste entrelaçamento, um evento singular irá acontecer no encontro entre nossa consciência e sua origem. A morte, por fim, terá seu significado resoluto.
O fato de não compreendermos com precisão o que acontece diante da interrupção da vida - biológica, mental e todas as energias - da mesma forma que entendemos o nascimento de um ser vivo, me leva a imaginar um universo ainda maior na totalidade de suas dimensões. Transcendemos a realidade conhecida? Mergulhamos num sono completamente escuro e sem sonhos do qual jamais despertaremos outra vez? Nossa matriz energética se dispersa e não se converte em mais nada, apodrecendo-se com a matéria de nossos corpos? Melhor, se almas ou espíritos existem, como um tipo de matéria ou energia, a morte seria um estágio natural do processo que nos leva a assumir sua verdadeira forma ou seu perfeito estado?! Uma possibilidade fascinante! Aterrorizante!
Sempre me lembro da maior dualidade da vida: força e fragilidade. Caio na resolução de que somos ingênuas criaturas desamparadas na imensidão do cosmos, seduzidos por sua mortal exuberância.
A insensibilidade do nosso representante maior é totalmente desumana, insana e mortal. Entretanto, essas mortes fora de controle, da pandemia, são de nossa total responsabilidade.
Às vezes aqueles que se foram mais cedo, aqueles que decidiram que iriam parar seu próprio tempo, aqueles que pararam sua dor por conta própria, estes, estes perceberam que não é possível sonhar acordado, apenas imaginar, então caíram em um sono do qual não podem mais acordar, sua dor parou, sua respiração se tornou um desejo de quem permaneceu acordado... Nenhuma carta foi deixada, nenhum "adeus" foi dito, dívidas de saudades se acumularam e aquele pensamento de que tudo poderia estar bem agora, esse pensamento será eterno.
Meu amor se vai
Eu já não sei mais o que comer
Eu já não sei mais o que beber
Eu já não sei mais como viver.
Resta pouco tempo pra ti
Vai sobrar só o caos pra mim
Eu não sei mais como agir.
Você está indo,precisa de espaço
E tudo que eu queria era seu último abraço.
-andreise vitória.2020
O escritor é um maluco que tem a obrigação ou o duvidoso privilégio de ver a realidade, e por isso, quando um escritor para de escrever, acaba se matando, porque não consegue se livrar do vício de ver a realidade, mas já não tem aquele escudo para se proteger dela.
Eu então percebia, pela primeira vez, que tudo segue, desbota, estraga enquanto a vida continua. Que não existe final na nossa história até que chega a morte e o corpo se desfaz.
Não há palavras que aplaquem a dor da perda de um ente querido. A energia e a força recebidas, todavia, são reconfortantes.
Sufoco, insaciedade, injustiça, dor, sofrimento, amargura, incapacidade, fraqueza, saudade... pra qual objetivo? Milagre biológico ou catástrofe? Sinto-me incapaz de seguir qualquer ideologia, não tenho minhas próprias. Não sei o que sou, pra que eu estou, pra onde eu vou... isso dói, me dá desespero e uma hora vai acabar, mesmo tentando correr e abraçar alguém pra acalmar, mas ela chega e quando você nem perceber já não ama, pensa, sonha, vive..
Eu costumava brincar com a ideia de que, ao morrermos, finalmente ficamos sabendo para que a vida serviu. Nunca imaginei que poderia descobrir isso quando outra pessoa morresse.
