Luis Fernando Verissimo poemas Sonhos

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⁠Trago mãos vazias
e posso até mostrá-las.
Nos meus braços,
nada há.
A dor de Maria
me faz sentir
que sou total desalinho,
tropeçando nas pedras
do caminho.
Não há pontes unindo
meu sul ao meu norte.
E o vento melancólico
sopra, excessivamente forte.
- A alma balança.
Onde estará o ponto sagrado
da harmonia humana
para o mundo ser ancorado?

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Lembranças tantas...!
Qual é a melhor, eu nem sei...
Algumas, certamente vivi.
Outras, creio, sonhei.
O tempo andou distraído
e me alegro ao me lembrar
- nesta ausência de memória -
de tudo o que foi vivido.
A melhor delas
nem revelo.
Não por esquecimento,
mas pelo prazer
de a guardar...

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Fragmentos de um Evangelho apócrifo

27. Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
33. Dá o santo aos cães, atira tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...

Jorge Luis Borges
Elogio da sombra (1969).
Inserida por marcosarmuzel

⁠Ao espelho

Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
E depois outro, e outro, e outro, e outro…

Jorge Luis Borges
Poesía completa (2011).
Inserida por marcosarmuzel

Amor mil vezes já me tem mostrado
o ser-me vida o mesmo fogo ardente,
como quem queima um dedo e facilmente
no mesmo fogo o torna a ver curado.

Meu mal, tristeza, dor, pena e cuidado,
o bem, a vida alegre, ser contente
naquela vista pura e excelente
pôs, por essa maneira, o tempo e fado.

Que veja mil mudanças num momento,
que cresça nelas todas sempre a dor
não sei, que os meus castelos são de vento!

O tempo, que vos mostra ser senhor,
por mais que contra mi se mostre isento,
há de tornar por tempo tudo amor.

Inserida por pensador

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luís de Camões
Melhores poemas de Luís de Camões. São Paulo: Global, 2012.
Inserida por pensador

Carazinho
⁠Gosto de estar na terra amada
sorver um chimarrão com os familiares
admirar a avenida e as Flores
abraçar os amigos pelos caminhos.

Manifesto de coração o que sinto
pois aqui nunca estarei sozinho
me encanto cada vez mais
com as belezas de Carazinho.

Cidade da hospitalidade
nas ruas que sempre passo
sempre vejo novidades
e as que ainda não passei
são as sinto mais saudades!

Terra que me deu vida
belezas naturais
agricultura pujante
Povo fantástico
sorridente e conciso
nasci aqui e de
mais nada preciso.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠A vida traz o inesperado
- Gol olímpico –
Luas aluadas
Sombras que amanhecem

O rio sobe a montanha
em andaimes a espiá-la
e desliza em lágrimas

Vive e cultiva a flor
- Da pele -
Espinha e sente
o odor
da dor que dói
silenciosa

Acena ao divino
num flash de fé

Adormece leve
escutando o coração

Em paz…

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Lembranças enfileiradas,
balançadas
na cadeira de palha
de pernas quadradas.

O olhar fixo na estrada
Algum movimento...
- Vento – e mais nada!

O tempo não avança
nesta distância
- Isolamento
Espera demorada.

O azul do céu
- Nos olhos -
aguardando...

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Para eu ser feliz
bastam-me bons amigos,
uma morada de versos
rodeada de inspirações...

Uma corda no violão,
canções de fé e otimismo,
uma vertente de benquerença
e apreços no coração...

O barulho da natureza,
o som da poesia em meus ouvidos
e a certeza de que as amizades
são abraços de gratidão.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Caminhando desatento
sem hora, sem rumo
lentamente;
O que importa?

Coração aquietado,
bolsos cheios de mãos,
preso ao desejo de assim não ser:

Silencioso
Ausente
Invisível
Incrédulo

Não há vida
nas ruas...

Nem no íntimo
do andarilho.

Inserida por MoacirLuisAraldi

A imaginação atemática:
razão em equações enigmáticas,
versos perdem a rima,
grafias fonêmicas anímicas
sem acentuar nada da alma.
Sensibilidade dorme esquecida
Sem sonhos
Sem poesia
Sem vida

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠A estrela que não brilhou
A semente que não germinou
A flor que o veneno queimou

O ponto cego
O atoleiro inesperado
O vento frio da madrugada
A parte íngreme da estrada

O lixo que o cachorro virou
A carta que voltou
A luz que se apagou

O nada
A vaga negada
O intruso da fruta estragada

Nota destoada
O dente que dói
A mosca da feijoada

Ausência não sentida
Nascer nasceu,
mas nunca teve vida.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠A crença é o ofício do pecador
repetida ecoa a prece
como se a salvação
estivesse ancorada na vida
e viver fosse razão...

A santidade é involuntária
bondade é obrigação
se acontece o milagre
ilumina-se o coração.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Do que vivi na casa antiga
restou distância
e o tempo escondido
em momentos infantis

Daqueles amigos
dormem no peito
saudades e peraltices

Outros sonhos,
embarques sem fronteiras
tomados de esperanças
e desejos a realizar

A vida é um caminho
Alguns decolam fácil,
criando futuros novos,
oportunidades a mais

Foi ontem que nos despedimos
Em cada rosto vi saudade,
angústias de afastamentos,
certezas de esquecimentos

Cada um levou uma alma minha
A vida vai me dando outras
Mas as almas daquela época
foram-se todas (as que eu tinha).

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Não há culpa
O tempo erra
e a vida segue

O que choramos
não é a morte,
talvez a dor

Jeito de não ser;
Águas
sem rio,
Humanos sem brios.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠A janela apoia meu peito
Vejo a multidão aglomerada
pelas calçadas
na rua Solidão

Em mim a comoção
Desejos de abraçar
Enviar-lhes missivas de amor

A ternura enche-me o peito
faz brilhar meus pensamentos
Partículas doces de um sentimento

Jogo ao vento…

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Há um nada que me segue
insistente,
mesmo indolente
me flagela

Nada feito de vazios,
de carências ansiosas
- Vida morrendo de sede –
na enchente da modernidade

Vazio que nocauteia
Fímbria de maldições
Velas brancas acendem
para iluminarem-me o chão.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Aos olhos, as cores desbotam
sem brilho, viver não é sorrir
Se não está no olhar, onde estará?
Se a alma não voa
Viver é solidão
Se os olhos reprovam
- Pouco importa –
Quem avalia é o coração.

Inserida por MoacirLuisAraldi

⁠Sinto meu egoísmo
Minha voz me diz tanto
com tamanha segurança

Sou eu comigo
... Sigo

Me canso
Me abandono
Fico distante
Perco o sono
Sou eu assim:
às vezes comigo,
outras sem mim.

Inserida por MoacirLuisAraldi