Lembre se que um dia eu te Amei

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Eu fui um cara …
É eu fui um cara
Fui cara ingênuo
Um cara malicioso
Fui um cara sonhador
Mas também fui um cara iludido
É já fui cara que tentou ser um cara
É que quebrou a cara
Várias e várias vezes
Mas também fui um cara
Cara que levantou
Que caiu
Eu fui cara que construiu
Desconstruiu
Hoje sou um cara só um cara
Que pela ânsia de um dia querer ter sido o cara
Apenas que ser um cara
Um cara comum
Aquele tipo que cara
Que existe
Que resiste
Que insiste
E que no fim nunca perde o vício de querer ser o cara.
Marco Antônio
13/08/2026

⁠Quero dizer-te coisas,
mas tu e eu sabemos que
as palavras não passam de um fluxo de ar complicado.
Só o silêncio diz a verdade.

Ocidente e Ocidente

⁠quanto mais tempo eu leio como um curioso as obras da academia ocidental e à 'pesquisa', mais eu me torno hostil à intervenção da erudição ocidental branca nos assuntos dos povos colonizados.

não há necessidade de contribuições brancas, ocidentais, questionamentos ou análises em relação ao sul global, povos colonizados ou minorias étnicas.

acadêmicos e professores brancos fetichizam, estetizam e exploram em nome de sua educação, estudos e carreiras.

uma sala de aula ocidental facilitada por um acadêmico branco é um local de violência, não de revolução

*Era outra noite no pub*

Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.

Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.

Naquela noite resolvemos sair.

Conhecer um pub.

Talvez conhecer um ao outro.

O segundo sempre dá mais trabalho.

Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.

As pessoas fazem isso.

Entregam uma versão resumida de si mesmas.

Como se fossem currículos emocionais.

Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.

Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.

Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.

Depois veio o casamento.

Falido desde o começo.

Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.

E havia o relacionamento mais recente.

Abuso emocional.

Ela não precisou usar muitas palavras.

Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.

No intervalo antes de responder.

Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.

Eu ouvi.

Não porque soubesse o que dizer.

Eu quase nunca sei.

Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.

Então fiquei ali.

Ouvindo.

Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.

Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.

Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.

Homens falando alto para parecerem importantes.

Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.

Garçons carregando copos.

Garrafas alinhadas.

Luzes baixas.

Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.

Era um lugar razoavelmente decadente.

Gostei.

A decadência, pelo menos, não costuma mentir.

Observei os rostos.

Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.

Feliz.

Interessante.

Desejável.

Bem resolvido.

As imagens estavam por toda parte.

Nas paredes.

Nos copos.

Nas roupas.

Nas fotografias.

Nos telefones sobre as mesas.

Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.

Era curioso.

A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.

É quando a propaganda falha.

É quando aparece o sujeito.

Ou o que restou dele.

Ela continuou falando.

Eu continuei ouvindo.

Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.

Era sobre conhecer alguém além da pele.

E isso é perigoso.

A pele é uma excelente embalagem.

Esconde defeitos.

Esconde medos.

Esconde abandono.

Esconde pais ausentes.

Casamentos mortos.

Relacionamentos que transformaram carinho em controle.

Esconde quase tudo.

Até que alguém decide falar.

Então a embalagem começa a rasgar.

E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.

Nem eu.

Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.

Talvez todos sejamos.

A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Nunca tive.

Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.

Você começa tentando ser alguém.

Depois tenta parecer alguém.

Depois passa a defender essa aparência.

E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.

Ela falava sobre o passado.

Eu pensava no meu.

Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.

As histórias mudam.

A falta permanece.

Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.

Alguns bebem.

Alguns trabalham demais.

Alguns colecionam amantes.

Alguns colecionam dinheiro.

Alguns colecionam diplomas.

Alguns fazem discursos sobre felicidade.

Outros simplesmente ficam quietos.

Eu prefiro o silêncio.

Ele pelo menos não exige explicação.

Ficamos ali por algumas horas.

Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.

Talvez houvesse.

Talvez não.

Não importa tanto.

Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.

Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.

Isso já é quase uma espécie de milagre.

Mas eu desconfio de milagres.

Eles costumam cobrar juros.

Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.

A cidade não tinha aprendido nada.

As pessoas também não.

Os carros passavam.

As luzes continuavam acesas.

Alguém ria do outro lado da rua.

Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.

Alguém estava começando um casamento.

Outro estava terminando.

Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.

Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.

E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.

A gente passa a vida procurando uma linha reta.

Não existe.

Existem curvas.

Desvios.

Contrações.

Recaídas.

Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.

E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.

Talvez seja isso.

Uma contradição tentando respirar.

Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.

Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.

Uma piada interna que ninguém explicou.

Uma risadinha sóbria diante do absurdo.

Um enigma.

E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.

Só continuação.

A eternidade em cativeiro.

A perpetuação irrepreensível.

Você acorda.

Trabalha.

Ama mal.

É amado mal.

Perdoa quando consegue.

Machuca quando não consegue.

Bebe alguma coisa.

Escuta alguém contar uma história.

Conta a sua.

E segue.

Não porque encontrou sentido.

Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.

Talvez sejamos apenas isso.

Notas inexoráveis.

Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.

Muito silêncio.

E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.

Talvez nem nós.

E é aí que começa o verdadeiro problema.

Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...

quem sobra?

Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.

O resto é apenas barulho.

E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.

O meu auge não é um lugar onde eu chego. É o fogo que me consome e me reconstrói todos os dias. Eu não busco a perfeição do agora; eu sou a fúria constante de quem se recusa a caber no próprio passado.

Eu não pedi que você ficasse.
Há um momento exato em que o amor deixa de ser tragédia
e passa a ser apenas clima.
Como garoa em roupa esquecida no varal.
Como cheiro de cigarro preso no banco de um carro antigo.
Como aquela dor de cabeça que já não preocupa ninguém
porque aprendeu a morar no corpo.
Você arrumava as coisas lentamente
e eu pensei, com uma serenidade quase ofensiva:
ela finalmente cansou de mim.
Não de mim inteiro —
isso seria grandioso demais —
mas desse homem pela metade
que chega do hospital cheirando antisséptico e cidade,
que fala de literatura latino-americana
como quem tenta salvar alguma dignidade do mundo,
que coleciona moedas estrangeiras
porque nunca conseguiu pertencer completamente ao próprio país.
Escorei no Renault noventa e um.
O carro estalava baixo, esfriando o motor,
como um animal velho respirando durante o sono.
Acendi um tabaco ruim.
Misturei mate uruguaio no fumo.
Não por boemia.
Nem estética.
Por superstição.
Alguns homens rezam.
Outros adulteram o cigarro.
Você passou por mim sem dizer nada
e eu gostei disso.
As grandes despedidas são profundamente constrangedoras.
Ninguém deveria transformar amor falido em espetáculo.
Pensei em Manuel Bandeira olhando janela de pensão barata.
Pensei em Benedetti entendendo tarde demais
que Montevidéu sempre foi uma maneira elegante de sofrer.
Pensei em Clarice,
naquela coisa terrível dela de perceber a alma das coisas
até quando elas já estavam mortas.
E então percebi uma coisa pequena,
quase ridícula:
eu tinha sobrevivido tempo demais.
Sobrevivi aos problemas.
Às cobranças que pareciam ser infinitas.
À vergonha de pedir ajuda.
À escola sugando meus últimos gestos humanos.
À fumaça.
À exaustão.
À sensação humilhante de fracassar devagar.
Sobrevivi até mesmo à esperança,
o que talvez seja a forma mais adulta de tristeza.
Você abriu o portão.
O barulho do ferro ecoou na rua vazia
como ecoam certas decisões irreversíveis:
sem dramaticidade,
apenas definitivas.
Eu poderia dizer que ainda te amava.
Mas seria inútil.
O amor, às vezes, não acaba.
Ele apenas perde utilidade prática.
Então fiquei ali,
encostado naquele Renault cansado,
fumando um cigarro adulterado com erva estrangeira,
olhando você ir embora
como quem observa um país desaparecer pelo retrovisor.
Sem raiva.
Sem poesia suficiente.
Sem salvação.
Só aquela melancolia fronteiriça
dos homens que aprenderam tarde
que viver também é perder território.

⁠É amor que eu estou buscando, Mas de um tipo belo e inaudito que não está no mundo.

“Crônica do Inferninho”

Eu estava prestes a sair do trabalho quando decidi chamar um Uber para me levar para casa. Assim, poderia relaxar um pouco no caminho de volta, depois de um dia bastante cansativo.

Quando o Uber chegou, entrei no carro e disse:
Boa noite!
O motorista respondeu educadamente:
Boa noite, senhor!

Seguimos em direção à minha casa.

De repente, o motorista me fez uma pergunta:
O senhor não gostaria de passar pelo inferninho antes de chegar em casa?

Respondi imediatamente:
Não, obrigado!

Pouco depois, ele perguntou novamente:
Tem certeza de que não quer passar pelo inferninho antes de ir para casa, senhor?

Tenho! Quero chegar em casa o mais rápido possível!

Mais uma vez, o motorista insistiu:
Tem certeza mesmo de que não quer conhecer o inferninho, senhor?

Já com certa irritação, respondi:
Não! Quero ir para casa. Estou muito cansado e quero descansar.

Mas, novamente, o motorista tocou no assunto:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar do inferninho.

Dessa vez, alguma coisa despertou minha curiosidade.
Afinal, o que é esse tal de inferninho?

O motorista respondeu com um sorriso nos lábios:
O senhor precisa ir até lá para conhecer.

E completou:
Quem vai ao inferninho gosta muito.

O senhor não quer ir lá conhecer?

Não! Quero ir para casa, por favor!
respondi, já bastante irritado.

Claro, senhor. Não vou mais falar do inferninho.

Fez-se um silêncio total dentro do carro…

Mas, de repente, fui eu quem ficou com vontade de perguntar:
Onde fica esse inferninho?

O motorista respondeu:
O senhor gostaria de ir até lá?

Mas me diga primeiro: que diabos é esse inferninho?

Ele respondeu:
O senhor precisa ir lá para descobrir.

Você não pode simplesmente me dizer o que é esse inferninho?!

Não. O senhor tem que ir até lá!
exclamou o motorista.

Sério?! Eu tenho mesmo que ir para descobrir o que é?

Com uma voz muito convincente, ele respondeu:
Tenho certeza de que o senhor nunca viu um lugar como o inferninho.

Aquilo aumentou ainda mais a minha curiosidade.

E o motorista completou:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar!

Pronto. Minha curiosidade foi parar nas alturas.

Comecei a imaginar que devia ser um lugar cheio de mulheres, muita bebida, música alta… uma verdadeira zona!

Fiquei pensando naquele inferninho durante alguns minutos e, finalmente, perguntei:
Você pode pelo menos me dizer o que tem lá?

O motorista respondeu:
O senhor precisa ver com os próprios olhos. Não posso dizer nada.

Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.

Que lugar seria aquele? Até o nome era uma tentação! Devia ser bom demais. De repente, até o meu cansaço havia desaparecido.

E agora? O que eu faço???

Minha mulher pensa que estou trabalhando…

Hum…

O que eu faço???

Uma coisa era certa: se eu não fosse conhecer aquele inferninho, aquilo ficaria martelando na minha cabeça pelo resto da vida. Afinal, a curiosidade de um homem que se preze pode ser maior do que qualquer outra coisa!

Mas não.

Não cometi esse erro.

E ponto final!

Está bem falei para o motorista.
Pode me deixar em casa.

E ele me levou.

Mas aquele inferninho ficou na minha cabeça, me perturbando…

E tenho certeza de que ainda vai me perturbar por muito tempo.

Afinal…

Que diabos é esse inferninho???

E você?

Teria ido para casa… ou teria pedido ao motorista para levá-lo ao inferninho?

"Eu não estou apenas construindo um império de trilhões; estou desenhando o mapa de um futuro onde quem tem coragem nunca mais caminha sozinho."

Há pessoas que fogem da zona de perigo; eu aprendi a fumar um cigarro e permanecer nela

Em um mundo onde tudo se transforma e o tempo escorrega pelas mãos, o que eu sinto por você é um ponto fixo, um farol que me guia na escuridão. O seu olhar é o lugar onde eu me encontro, e o seu abraço é o porto seguro de onde eu nunca mais desejo partir.
_Enzo Ruchell_

Eu queria ser como você
Um pequeno tolo a ser
Está dança não é para dois
Mas você continua a se mover
A tintura com a chuva se expurga
Escorre para longe, e mais longe
Continuas, esturga
Até não saber mais onde

Ao reparar a chuva sobre meu rosto eu concebi a eternidade; denotei o infinito como pedaço de um instante.

Sofri um golpe que partiu algo dentro de mim que eu nem sabia que podia se quebrar. A maior decepção da minha vida, vinda justamente da pessoa que eu jurava ser incapaz de ferir, da última de quem eu esperaria uma facada. Foi o tipo de dor que não atravessa… rasga...esmaga.

Esse dia marcou o fim de uma inocência, de uma confiança que eu jamais recuperarei do mesmo jeito. Ali, naquele instante, eu descobri que até o “impossível” pode acontecer, que até o “nunca” pode ruir, que o mundo vira ao avesso quando a facada vem de mãos que antes me acolhiam.

E mesmo assim, aqui estou.
Carregado de cicatrizes, sim, mas de pé.
Não por ter superado tudo… mas por ter aprendido a sobreviver dentro da própria tempestade.

Hoje eu olho para trás e não sinto só dor. Sinto fúria, sinto força, sinto a certeza de que aquilo que tentou me destruir acabou me transformando. Aquele foi o dia em que algo em mim morreu, mas também foi o dia em que outra versão minha começou a nascer, mais consciente, mais dura, mais forte, mais fria, realista e difícil de derrubar.

Eu tenho um coração triste e quebrado, marcado por dores que o tempo ainda não conseguiu apagar.
Carrego cicatrizes de batalhas silenciosas, de decepções que eu não queria viver e de sonhos que ficaram pelo caminho.
Mas, mesmo ferido, ele continua batendo.
Talvez mais cauteloso, mas ainda encontra forças para seguir.
Porque um coração quebrado não deixa de bater; apenas aprende que algumas dores se tornam parte da história que carregamos para sempre.

⁠Quantas vezes eu pedi a Deus que tudo fosse apenas um sonho ruim. Entretanto, nunca acordei dele.

Para alguns eu sou luz. Para outros um conforto em momentos difíceis. E embora eu me ame muito, tem momentos que sou só tristeza.

antes de mim.


Naquela noite eu recebi uma ligação de um número que não existia.


Não era número privado. Não era desconhecido.


Simplesmente não existia.


Ainda assim, atendi.


- Alô?


Do outro lado, silêncio.


Depois uma voz.


A minha.


- Não vá dormir hoje.


Eu ri.


Não porque fosse engraçado. Ri porque algumas coisas assustam menos quando a gente finge que são ridículas.


- Quem é?


- Você.


- Isso não tem graça.


- Eu sei.


A ligação caiu.


Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, esperando alguma explicação aparecer na tela. Nada.


Joguei o celular na cama e tentei esquecer.


Cinco minutos depois, bateram na porta.


Três batidas.


Sempre três.


Levantei.


Não havia ninguém.


Só um envelope no chão.


Meu nome estava escrito à mão.


Dentro havia uma foto.


Era uma foto minha dormindo.


No verso, uma frase:


“Você tem oito horas.”


Eu deveria ter chamado alguém.


Não chamei.


Talvez porque, no fundo, uma parte de mim já soubesse que aquilo não tinha começado naquela noite.


Passei a madrugada tentando encontrar uma explicação.


Procurei a origem do número.


Nada.


Revirei mensagens antigas.


Nada.


Olhei as câmeras.


Às 02:13, alguém entrou.


Era eu.


A mesma roupa que eu estava usando.


O mesmo rosto.


A mesma cicatriz pequena perto da sobrancelha.


Eu parei o vídeo.


Voltei.


Assisti de novo.


Eu entrava em casa às 02:13.


Mas eu estava em casa.


Sentado na frente daquela tela.


O vídeo continuava.


Eu aparecia no corredor.


Parava diante da minha porta.


Olhava diretamente para a câmera.


E sorria.


Depois levantava a mão.


Três batidas.


A gravação terminava.


Eu olhei para a minha porta.


Três batidas vieram do outro lado.


Não abri.


Às 05:40, alguém bateu novamente.


Dessa vez, uma mulher falou meu nome.


Eu conhecia aquela voz.


Era impossível.


Ela tinha morrido há seis meses.


Fiquei parado no meio da sala.


Ela disse:


- Você prometeu que não faria isso de novo.


Não respondi.


- Eu sei que você está aí.


Meu corpo inteiro ficou frio.


- O que eu fiz?


Silêncio.


Depois:


- Ainda não fez.


Às 06:15, recebi outra mensagem.


Uma localização.


Um endereço que eu não reconhecia.


Abaixo, apenas:


“Se quiser saber por que todos estão tentando impedir você, venha sozinho.”


Fui.


Não sei por quê.


Talvez porque algumas perguntas sejam mais perigosas quando ficam sem resposta.


O lugar era uma casa abandonada.


Entrei.


Havia fotos nas paredes.


Centenas.


Todas minhas.


Eu criança.


Eu adolescente.


Eu adulto.


Eu dormindo.


Eu chorando.


Eu dirigindo.


Eu trabalhando.


Eu abraçando pessoas.


Eu terminando relacionamentos.


Eu sozinho.


E então encontrei uma foto que me fez parar.


Era eu, sentado naquela mesma casa.


Com cinquenta e poucos anos.


Ao meu lado havia uma mulher.


Não reconheci.


Atrás da foto estava escrito:


“Primeira tentativa.”


Outra foto.


Eu, mais velho.


Sozinho.


“Segunda tentativa.”


Outra.


Eu sorrindo.


Uma família ao meu redor.


“Terceira tentativa.”


E então uma última.


Eu, exatamente como estava naquela manhã.


Abaixo:


“Quarta tentativa.”


Foi quando ouvi passos.


Virei.


Um homem entrou.


Eu conhecia aquele rosto.


Era o homem do vídeo.


Era eu.


Só que mais velho.


Muito mais velho.


Ele fechou a porta.


- Finalmente.


- O que está acontecendo?


Ele sentou.


- Você vai me odiar.


- Quem é você?


Ele respirou fundo.


- Sou a única versão sua que conseguiu chegar até aqui.


- Até onde?


Ele olhou para o relógio.


06:59.


- Até antes da escolha.


Ele explicou tudo como se estivesse contando uma história que já tinha contado muitas vezes.


Disse que aquela noite acontecia repetidamente.


Sempre.


Eu recebia a ligação.


Recebia a foto.


Via as câmeras.


Ia até aquela casa.


Encontrava ele.


E então precisava escolher.


Existiam quatro possibilidades.


Em uma, eu permanecia exatamente como era.


Em outra, mudava tudo.


Na terceira, esquecia completamente aquela noite.


Na quarta...


Ele parou.


- Na quarta, você me mata.


Eu ri.


- Por que eu faria isso?


Ele olhou para mim.


- Porque eu sou a única coisa impedindo você de ter a vida que quer.


- Que vida?


Ele não respondeu.


Foi até uma parede.


Havia uma porta.


Uma porta que eu não tinha visto antes.


Ele colocou a mão na maçaneta.


- Você precisa escolher antes das oito.


- E se eu não escolher?


- Já escolheu.


- O quê?


Ele abriu a porta.


Do outro lado havia meu quarto.


O meu quarto.


Exatamente como estava naquela noite.


Minha cama.


Meu celular.


A janela.


O envelope.


Tudo.


Eu entrei.


Na cama havia alguém dormindo.


Eu.


Ele estava dormindo profundamente.


O homem mais velho apareceu atrás de mim.


- Essa é a primeira vez.


- Primeira vez o quê?


- A primeira vez que você conseguiu chegar até aqui sem lembrar.


Olhei para o homem na cama.


- Então quem é ele?


O velho ficou em silêncio.


- Você.


- Não.


- Sim.


- Mas eu estou aqui.


Ele sorriu.


- Esse é o problema.


O relógio marcou 07:59.


Uma sirene começou a tocar em algum lugar distante.


Eu olhei novamente para a cama.


O homem dormindo abriu os olhos.


Sentou.


Olhou diretamente para mim.


E falou:


- Não vá dormir hoje.


Eu senti o sangue desaparecer do rosto.


Era a mesma frase.


A mesma voz.


A minha voz.


O velho começou a chorar.


- Não...


- O quê?


- Dessa vez foi diferente.


- O que foi diferente?


Ele apontou para mim.


- Você nunca deveria ter me visto.


A luz apagou.


Por alguns segundos, não existiu absolutamente nada.


Então ouvi uma porta fechando.


Quando a luz voltou, o velho tinha desaparecido.


A casa estava vazia.


As fotos haviam sumido.


A porta também.


Só havia uma coisa sobre a mesa.


Meu celular.


Ele estava tocando.


Olhei para a tela.


Era uma chamada recebida.


O número não existia.


Atendi.


Do outro lado, silêncio.


Depois uma voz:


- Alô?


Era minha voz.


Mas dessa vez eu não falei nada.


A voz continuou:


- Quem é?


Eu reconheci a frase.


Era exatamente o que eu havia dito naquela noite.


Então percebi.


A história não estava se repetindo.


Eu estava dentro dela.


Eu não tinha recebido uma ligação do futuro.


Eu estava ligando para o passado.


E o homem que eu havia encontrado não era uma versão futura minha.


Era a versão que existia antes de mim.


A quarta tentativa.


A terceira.


A segunda.


A primeira.


Todas as vidas.


Todas as mortes.


Todos aqueles homens.


Não eram versões diferentes.


Eram pessoas diferentes que tinham recebido a mesma ligação.


Todas achando que eram eu.


Todas tentando descobrir quem começou aquilo.


Todas chegando àquela mesma casa.


Todas encontrando alguém mais velho esperando por elas.


Até que uma delas finalmente entendesse.


Não havia nenhum primeiro homem.


Não havia começo.


Só havia o próximo.


A ligação continuava.


Eu poderia desligar.


Poderia falar.


Poderia perguntar.


Mas alguma coisa me impediu.


Então fiz a única coisa que ainda não tinha feito.


Olhei para o relógio.


08:00.


E disse:


- Não vá dormir hoje.


A ligação caiu.


Fiquei parado.


Esperando.


Três batidas vieram da porta.


Eu não me mexi.


Mais três.


Depois ouvi minha própria voz do outro lado:


- Quem é?


Eu olhei para a porta.


E, pela primeira vez, entendi o que estava acontecendo.


Não havia alguém tentando entrar.


Havia alguém tentando sair.


E eu não sabia mais de qual lado da porta estava.


Fim.


Ou talvez só mais uma tentativa.

Eu estou triste.
tão triste que já nem sei mais onde começa ou termina.
é um cansaço que não passa com descanso,
é um peso que não se explica
só se sente.
eu estou tão triste
que até existir parece esforço demais.
e o mais difícil de admitir
é que não é sobre querer ir embora…
é sobre não aguentar mais ficar assim.
eu estou cansada de estar triste.
cansada de tentar e não sair do lugar,
cansada de sustentar algo dentro de mim
que já não se sustenta sozinho.
tem dias que a vontade não é viver,
é só desaparecer um pouco…
silenciar tudo isso que não cala.

Eu resolvo, às vezes com um "tudo bem" e um nó na garganta.
Outras, despejando palavras ao vento.
E, quando já não há mais o que dizer, eu simplesmente resolvo com um adeus silencioso.
Mas sempre, de alguma forma, eu resolvo!