Irmao Nao Va embora
Série: microcontos
O ÚLTIMO ATO
Sobre o púlpito partitura e violão. No palor da ribalta não há público nem canção...
Não levou nada...
Não deixou nada
Ou quase nada.
Nenhuma sentença.
- calada!
Partiu sem palavras
Escrita ou falada.
Apenas do nada.
Ela partiu!
POR QUE?
Escrevo o que penso.
Mas não sei se penso o que escrever.
Escrever não é questão de necessidade
A questão é se há necessidade de escrever o que penso.
No entanto, penso escrever tudo que há em mim.
- Não sei porque!
- Tem que haver por que?
AMOR MATERNAL:
O amor que assoberbaste
Sei, não era o que querias.
Nem de longe encontraste
Um amor em sintonia
Amar como anseias
É feérico e bem sutil
Só o êxtase delineia
Um amor tão juvenil
O amor com sutileza
Diz o coração febril
É de tamanha grandeza
Que torna o universo vil
O amor a quem almejas
É amor de mãe pra filho
Não possui outro perfil.
Série: Minicontos
PANDEMIA
Não havia velório nem despedidas. No campo santo, o apartheid era colossal...
O UNIVERSO NÃO TEM PRESSA
Para que tanta pressa?!
Nem o sol, nem a lua.
Esse mal não lhes convém
Giram lentamente o tempo todo!
Por estarem acima
Refletem os mares e lagos
Aquele a quem pressa lhe faz bem
Seus passos serão sedentos.
Ah! Pra que tanta pressa?
Se o tempo que ainda resta
São sonhos que não veem.
A FÉ NÃO COSTUMA FALHAR:
O carmim a cortar o universo cor de anil
Abre fendas no chão ressequido
Num prenuncio de bom presságio
E os filhos da outra
Todos em um só coro trovam
Arando o solo num para afugentar
A ave que reluz mau agouro
Nos ares e lares do meu sertão
Hostil...
E num ímpeto de alegria e emoção
Curvam-se ante a mãe natureza
Em agradecimento ao que nunca, nunca.
Deixaram de acreditar
A fé, tão peculiar do caboclo Sertanejo.
Série: Minicontos
NECROPOLITICA
Petrópolis sepulta sonhos e realizações. Não é a fúria da natureza.
- Imprudência da sociedade?
- Também não!
De certo, propósito neoliberal...
Série: Minicontos
MEDO DE SEUS DEMÔNIOS
Macho alfa, não admitindo separação, “decreta” sua própria prisão após várias ameaças, a fim de não cometer feminicídio, segundo o delinquente agora autuado...
Comunismo não significa tirar de quem trabalha duro para entregar a quem nunca trabalhou. Isso é coisa do capitalismo!
FELICIDADE:
O maior legado que se pode deixar
Para os filhos
Não são bens matérias,
Moveis ou imóveis.
Todos são efêmeros.
Ademais, podem nos causar
Danos irreparáveis
Não deixem entardecer,
Ensine seu filho a ser feliz
Deixando-o em justa posição.
NÃO DIGAS NADA
O silêncio é tão suave
Que explicita minhas reticências
Tão leve, que leva à toda compreensão
Não digas nada...
Nada mais perigoso que a certeza da razão.
Nada digas haver razão
Venere o frescor da dúvida
E, te farás razoável, são.
AUTOCONSCIÊNCIA
O poeta diria que não há comunicação com a alma.
Senão, a própria.
Alheia...
Apenas alhares, gestos ou palavras.
Meu âmago é seco porque minh'alma
Dialoga com a tua em pleno hecatombe existencial.
O abismo entre mim e você se reflete no soprar do vento aos meus ouvidos.
Como será o interior de outrem,
Alguém se atreveria sonhar?
A lei do espelho fala por si.
O poeta não apenas escreve
Reflete pensamentos.
SER PRETO
Ser negro não é apenas na cor
Na dor ou lugar de nagô.
É preciso ter "raça". Atitude!
Ser negro, afeito de negritude
Se perde ao verbo que ilude.
Ser negro é romper o discurso,
Mudar o percurso que se toma
Em curso.
Negro, sobretudo, jorro plasmático
Tamboril do terceiro continente.
Buscando alforria, autonomia.
Resistência é estado de liberdade
Não à branca consciência negra
Liberdade, liberdade...
AMOR PELO NÃO
O amor?
Ah, o amor!
Amar sob o gesto de dizer
Não.
O amor sem o não é fugaz e mortal
Quando sim, contrapõe-se à razão.
Logo, é pragmático dizer sim.
Gesticula suposta indulgência
O sim é elementar e mascara
A incoerência, insensatez...
O amor é volúvel quando se atem
Ao sim.
Na sensatez do ser
Não é simplório dizer não
Entretanto, quem ama com razão
Diz não.
O sim remete à compaixão
E segrega as nuances do coração.
SUPLICANTE
Se queres me negar, seja de pouquinho
Que não possa ouvir o tilitar do teu coração
Enebriar-se de rancor.
Quando fores... Saia de mansinho
Pode estar meu coração.
