Inventário
O INVENTÁRIO DE NÓS
Por Marco Arawak
Há períodos da vida em que parece que alguém entrou em nossa casa enquanto dormíamos e mudou algumas coisas de lugar. Tudo continua reconhecível, mas já não encontramos facilmente aquilo que procuramos.
Uma lembrança surge onde não deveria estar.
Uma ausência ocupa um espaço antes insignificante.
Uma antiga certeza perde a posição que tinha dentro de nós.
Talvez o desencanto comece assim: não como uma ruptura, mas como a percepção de que aquilo que sustentava nossa maneira de compreender o mundo já não permanece intacto.
Carregamos conversas, escolhas, desilusões, expectativas frustradas e vínculos que mudaram de forma. Nem sempre sabemos imediatamente o que fazer com tudo isso.
Algumas lembranças permanecem próximas; outras tentamos esconder. Mas aquilo que não nomeamos continua participando de nós.
Por isso, chega um momento em que precisamos examinar o que carregamos. Não para transformar cada experiência em ensinamento, mas para distinguir o que ainda nos pertence daquilo que mantemos apenas por hábito.
Aceitar que certas relações se afastaram, que alguns projetos terminaram e que nem tudo pode ser corrigido pela nossa vontade não significa considerar justo o que aconteceu.
Significa reconhecer os limites do nosso controle.
Talvez escrever seja uma maneira de realizar esse inventário. A palavra aproxima o que estava confuso, dá contorno ao que permanecia sem nome e permite olhar para uma experiência sem aumentá-la nem diminuí-la.
Reorganizar não é apagar. É escolher o destino de cada coisa. Algumas lembranças permanecem; outras perdem a centralidade.
Há sentimentos que precisam ser compreendidos antes de serem deixados para trás.
Há vínculos que encontram outra forma de existir.
Há portas que já não precisamos manter abertas.
Maturidade talvez tenha menos relação com esquecer do que com aprender a distribuir o peso do que vivemos. O desencanto pode permanecer na história sem determinar quem somos. Uma ausência pode ser reconhecida sem transformar-se em vazio permanente. O passado pode continuar verdadeiro sem ocupar sozinho o presente.
Também precisamos, às vezes, do silêncio. Quando o ruído diminui, surgem perguntas que evitamos enquanto tentávamos corresponder às expectativas alheias: o que ainda faz sentido?
O que mantenho apenas por receio de perder?
O que realmente pertence à minha história?
Nem sempre encontramos respostas. Mas perguntar já modifica nossa relação com o que vivemos.
Talvez coragem seja justamente isso: não viver sem receio, mas não permitir que ele decida sozinho o que permanece.
Não somos obrigados a transformar toda despedida em explicação, nem todo encerramento em começo. Algumas coisas precisam apenas ser reconhecidas e encontrar seu lugar na nossa história.
No fim, continuar não significa reconstruir quem éramos antes. Significa compreender que também somos feitos das escolhas que fazemos diante do que nos aconteceu.
Talvez esse seja o verdadeiro inventário de nós:
o que recebemos,
o que nos atravessou,
o que deixamos partir e
o que, conscientemente, decidimos conservar.
Não somos apenas o conjunto do que nos aconteceu. Somos também a maneira como damos destino ao que aconteceu.
O INVENTÁRIO DE NÓS
Por Marco Arawak
Há períodos da vida em que entramos em nós mesmos e percebemos que alguma coisa mudou de lugar. As mesmas lembranças continuam ali, os mesmos afetos, as mesmas marcas, mas já não sabemos exatamente onde guardamos cada coisa. Uma ausência se torna maior do que esperávamos. Uma antiga certeza perde o brilho. E aquilo que parecia definitivo revela, sem alarde, que também estava de passagem.
Talvez o desencanto não comece quando alguma coisa termina. Talvez comece quando já não conseguimos olhar para o que aconteceu com os mesmos olhos.
Carregamos palavras que ficaram por dizer, encontros que não chegaram ao destino imaginado, escolhas que ainda nos visitam de vez em quando e expectativas que a realidade não soube acolher. Algumas lembranças permanecem próximas. Outras se afastam para regiões menos visíveis da memória. Nem por isso deixam de participar de quem nos tornamos.
Chega um momento em que precisamos olhar para esse acervo íntimo sem a pressa de julgá-lo. Não para transformar cada acontecimento em lição, nem para encontrar uma explicação onde talvez ela não exista. Apenas para perceber o que ainda tem sentido e o que continuamos carregando porque nunca paramos para escolher.
Nem tudo o que recebemos precisa ser conservado. Nem tudo o que perdemos precisa ser recuperado. Há vínculos que mudam sem desaparecer completamente, projetos que terminam antes de cumprir o que prometiam e pessoas que continuam importantes mesmo depois de deixarem de caminhar ao nosso lado.
Há experiências para as quais não encontramos reparação.
Com o tempo, encontramos outra maneira de lembrá-las.
Aceitar isso não significa considerar justo tudo o que aconteceu. Significa reconhecer que a nossa vontade não governa o tempo, os outros, nem aquilo que já passou. Existe uma liberdade silenciosa em parar de pedir ao passado aquilo que ele não pode devolver.
Talvez escrever comece nesse ponto. Não quando compreendemos tudo, mas quando encontramos palavras para permanecer diante do que vivemos sem fingir que foi diferente. A escrita não desfaz o passado. Apenas nos permite olhá-lo de outro lugar.
Às vezes, isso basta.
O que parecia absoluto ganha contorno. O que permanecia confuso encontra um nome. E aquilo que ocupava quase todo o pensamento começa, pouco a pouco, a perder o tamanho que tinha.
Reorganizar não é apagar.
É escolher.
Algumas lembranças merecem permanecer perto. Outras podem descansar mais longe. Há sentimentos que precisam ser compreendidos antes de serem deixados para trás. Há vínculos que encontram outra forma de existir. Há portas que, depois de algum tempo, já não precisamos manter abertas.
Maturidade talvez tenha menos a ver com esquecer do que com aprender a não entregar ao passado o governo do presente. Uma lembrança pode continuar viva sem ocupar tudo. Uma ausência pode ser reconhecida sem se transformar em destino. Aquilo que nos marcou pode permanecer verdadeiro sem decidir, sozinho, quem ainda podemos ser.
Às vezes precisamos nos afastar do ruído. Não para fugir, mas para escutar o que pensamos quando ninguém está falando por nós.
É nesse intervalo que algumas perguntas aparecem: o que ainda faz sentido? O que continuo sustentando apenas por receio de perder? O que escolhi de fato e o que simplesmente aprendi a carregar?
Nem sempre encontramos respostas. Algumas perguntas permanecem durante anos, mudando de significado conforme nós mesmos mudamos. Talvez isso também seja amadurecer: aceitar que nem tudo precisa ser resolvido para deixar de nos confundir.
Talvez coragem seja não viver sem receio, mas não permitir que ele escolha sozinho o que permanece.
Por isso, nem toda despedida precisa transformar-se em explicação. Nem todo encerramento precisa anunciar um começo. Algumas coisas simplesmente terminam.
E talvez seja suficiente reconhecer que existiram.
Continuar também não significa voltar a ser quem éramos antes. Há acontecimentos que modificam nossa maneira de olhar, de escolher, de permanecer e de partir. Depois deles, a antiga disposição das coisas já não volta exatamente ao lugar.
Então aprendemos outra maneira de estar no mundo.
Não necessariamente mais fácil. Nem sempre melhor.
Apenas nossa.
Talvez seja essa a parte mais silenciosa do amadurecimento: compreender que não somos somente aquilo que recebemos da vida, mas também aquilo que fazemos com o que recebemos.
Esse é o inventário de nós: as presenças que nos formaram, as ausências que nos modificaram, os encontros que permaneceram, os desencontros que nos ensinaram limites, aquilo que deixamos partir e aquilo que, apesar de tudo, escolhemos conservar.
No fim, não somos apenas o que nos aconteceu.
Somos também a maneira como aprendemos a viver depois.
E talvez, quando já não precisamos esconder o que fomos nem transformar o passado em monumento, quando algumas lembranças deixam de pedir explicações e certas ausências já não exigem respostas, possamos olhar para tudo o que ficou sem orgulho e sem culpa.
Não para dizer que tudo valeu a pena.
Mas para reconhecer que tudo isso fez parte de nós.
E que ainda existe, dentro de nós, alguma coisa que não estava no inventário.
A escolha do que fazer com o que vem depois.
Rebatismo Poético
Ouvindo a tempestade
orquestral sigo com
o meu inventário natural,
apaixonado e poético,
(Porque só amamos
aquilo que conhecemos).
Talvez seja um dia
compreendido que é
preciso tornar habitual
a liberação continua
do pensamento colonial,
(Porque ninguém ama
aquilo que não conhece).
Pensamento talvez não
proposital que deu
outros nomes às nossas
riquezas que por muitos
ainda não foram conhecidas,
e por ser desconhecidas
estão escorrendo entre
os dedos todos os dias.
Conflitos, desencontros
e a falta de apreço
entre nós ainda são
efeitos vivos porque
ainda não nos conhecemos,
Mas ainda conservo
uma fé sobrenatural que
se torne página virada,
e que tenhamos orgulho
absoluto da nossa Pátria.
Se eu tivesse poder iria
rebatizar com a minha poesia
toda a vida que necessita
que neste solo gentil habita
para que se torne conhecida,
facilmente reconhecida
e para que nunca mais
ninguém se esqueça no dia-a-dia.
Fazendo contas dos caminhos
das rugas
das coisas perdidas
das rusgas
das apostas
do que já não me lembro
de quando saí ganhando
do muito que perdi
dos sonhos
das noites repetidas
dos dias vagos
passei horas fazendo contas
depois de tudo que deu errado
do tempo impondo gravidade
do desespero clamando por suavidade
das hegemônicas fragilidades
das minhas formalidades ultrajadas
das fantasias andrajosas
da poesia movediça
minhas distâncias
gravadas em cada palavra
em cada dissimulação
nesta impiedosa memória
desta existência desfolhada
