Insignificante
Desprezar algo aparentemente inútil num conjunto é o mesmo que jogar fora uma peça de um quebra-cabeça.
A imagem nunca ficará completa.
Pena que, muitas vezes, só percebemos o quão pueris são nossas frustrações, quando perdemos o que realmente importa.
Por isso que há muito tempo aprendi a importância de ser grato, sempre relevando o que tem relevância e abandonando à insignificância o que é insignificante.
Há coisas que deixam de caber na vida da gente não por serem grandes demais, mas porque coisas miúdas e insignificantes não valem o lugar que ocupam.
"Na convivência a dois, algo fútil pode ganhar proporções exageradas, transformando-se em motivo de discussões desnecessárias. Essas situações acabam gerando impactos profundos, desgaste emocional e sofrimento, que poderiam ser evitados com mais leveza e compreensão."
E agora, Narciso?
E agora, Narciso, o que restou?
Do narcisista que tudo ofuscou?
Sob holofotes, tua autoimagem inflada,
Agora se apaga, luz já desmoronada.
Sabedoria vendida por cabotino,
Tatuada na epiderme do destino.
Teu monopólio de tirania e poder,
Ruiu no circo que insistias erguer.
Arrogância boçal, prepotência vazia,
Mordomias trocadas por trevas e agonia.
As arbitrariedades, as violações,
Os direitos humanos, tuas agressões.
Asseclas sumiram, restou a sarjeta,
O rei sem trono vaga na espreita.
Desprovido, amador, vaidoso e aloprado,
Isolado no casulo, esquecido e apagado.
Palhaço sem plateia, teu barulho cessou,
A paixão excessiva pelo eu te matou.
Falso brilho, privilégio que se desfez,
Um leão sem dente no desterro outra vez.
Desterro, ostracismo, exclusão e abandono,
Teu nome é desprezo, um verbo sem dono.
De verme a vulgar, de grande a vazio,
Na sarjeta da vida, teu último pavio.
E agora, Narciso, sem poder, sem alarde,
Quem és no silêncio? Quem és na verdade?
Um rei sem trono, apagado, insignificante,
Eterna lembrança de um eco distante.
Eu observo muitas pessoas reclamando das oportunidades que não tem, particularmente vejo a oportunidade como uma forma de atenção diferenciada, muitas vezes uma coisa insignificante pode ser uma grande oportunidade. Já escutei muito isso “nossas escolhas tem metade de chances para darem certo, é assim para todo mundo”. Então acredito que precisamos administrar o nosso medo, ansiedade, emoção e pressa. Conseguindo administrar bem isso acredito que vai sair de onde está e observar um mundo de possibilidades que tem. Quando digo administrar é administrar mesmo (planejamento, organização, direção e controle) imagina o medo sendo planejado, organizado, dirigido e controlado. Nem preciso dizer muito, com isso já terá uma visão diferente do que está acostumado a ver.
Hoje despertei enferma. Disse que era gripe — a desculpa habitual, uma justificativa pronta para quem pergunta apenas por educação. Mas, entre nós, foi mais que isso. A doença física era só a casca, o sintoma mais visível de algo que me envenena mais fundo. Não entrei em detalhes, é claro. Porque, no fundo, não há criatura viva que realmente deseje saber como estou. Eles escutam, mas não ouvem; dizem que se importam, mas é o silêncio que realmente diz a verdade. Quem ama de verdade adoece junto. Por isso calei-me — foi um gesto de amor-próprio. Ou de resignação.
Fiquei deitada de barriga para cima até as dez da manhã, imóvel, como um cadáver temporário, tossindo tanto que a própria garganta parecia se desfazer em fiapos. Um rasgo interno, uma agonia que vinha de dentro para fora. Permaneci assim até reunir coragem para me arrastar até a pia: havia pratos a lavar. E então os sequei, como quem seca também a si mesma — tentando dar um mínimo de ordem ao caos que me habita.
No café da manhã, preparei uma papa de Mucilon. Um gesto infantil, quase um consolo. Foi bom. Mas também foi tudo que pude fazer. Retornei à cama — meu pequeno túmulo provisório — e apenas consegui erguer-me por breves instantes às duas da tarde. Comi, quase por obrigação, e engoli o ibuprofeno como quem engole o cansaço acumulado dos dias.
Já marcava quatro horas quando, num gesto quase heroico, reuni minhas últimas forças para me levantar outra vez. Enfim tomaria banho. Mas o inesperado me golpeou: não consegui fechar a porta. A chave, antes leve como uma pétala, agora era chumbo em meus dedos.
E então compreendi — não pela razão, mas por um suspiro da alma — que fazemos diariamente coisas que não notamos, e que talvez por isso mesmo nunca agradecemos. Trancar uma porta. Lavar um prato. Respirar. Tudo isso era fácil — até deixar de ser. E só quando a capacidade nos abandona, é que percebemos o quanto aquilo nos pertencia. Ou pensávamos que pertencia.
Agora, estou deitada novamente. Tossindo.
Como quem fala com Deus em código morse.
Como quem espera um milagre no silêncio.
Como quem compreende, tardiamente, que o corpo adoece quando a alma já está exausta.
