Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza 😉

"VocĂȘ estĂĄ sĂł. Viveu um grande amor, que durou alguns meses ou vĂĄrios anos, nĂŁo importa, e agora estĂĄ naquele perĂ­odo conhecido como entressafra: nada nesta mĂŁo, nada na outra."

O jeito Ă© direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor estĂĄ em todos os lugares, vocĂȘ que nĂŁo procura direito.

NĂŁo consigo aceitar nenhum tipo de amor porque nenhum tipo de amor me parece do tamanho do buraco que eu me tornei.
Se alguém me abraçar ou me der as mãos, vai cair solitårio do outro lado de mim.

Tanta gente quer fĂłrmulas de amor eterno ...
NĂŁo acredito em fĂłrmulas, mas, por via das dĂșvidas,
não fale, não conte detalhes, não satisfaça a curiosidade
alheia. A imaginação dos outros jå é difamatória que chegue.

Aquele que usa da força física é um fraco.
O homem forte, de verdade, faz uso do amor e da razĂŁo.

As possibilidades de felicidade sĂŁo egoĂ­stas, meu amor.

Ouvi falar de amor como de um crime...

dar nĂŁo Ă© fazer amor

Um amor como o nosso estĂĄ fadado a acabar. E eu jĂĄ nĂŁo tenho mais fĂŽlego para soprar a fogueira.

VĂȘ, meu amor, vĂȘ como por medo jĂĄ estou organizando, vĂȘ como ainda nĂŁo consigo mexer nesses elementos primĂĄrios do laboratĂłrio sem logo querer organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma nĂŁo faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu – sĂł tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pĂ© diante de um susto. Sou: o que vi. NĂŁo entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas. Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que nĂŁo tem sequer sentido humano – porque – porque amor Ă© a matĂ©ria viva. Amor Ă© a matĂ©ria viva?

Clarice Lispector
A paixĂŁo segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

E agora estĂĄ vocĂȘ aĂ­, com esse amor que nĂŁo estava nos planos. Um amor que nĂŁo Ă© a sua cara, que nĂŁo lembra em nada um amor idealizado. E, por isso mesmo, um amor que deixa vocĂȘ em pĂąnico e em ĂȘxtase. Tudo diferente do que vocĂȘ um dia supĂŽs, um amor que te perturba e te exige, que nĂŁo aceita as regras que vocĂȘ estipulou. Um amor que a cada manhĂŁ faz vocĂȘ pensar que de hoje nĂŁo passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussĂ”es que vocĂȘ nĂŁo esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fĂŽlego. Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto nĂŁo encontramos o certo, e o certo era aquele outro que vocĂȘ havia solicitado, mas a vida, que Ă© pĂ©ssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que vocĂȘ desconfia que nĂŁo lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, nĂŁo apareceu. Olhe pra vocĂȘ vivendo esse amor a granel, esse amor escarcĂ©u, nĂŁo era bem isso que vocĂȘ desejava, mas Ă© o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em vocĂȘ no elevador, o amor que era pra nĂŁo vingar e virou compromisso, olha vocĂȘ tendo que explicar o que nĂŁo se explica, vocĂȘ nunca havia se dado conta de que amor nĂŁo se pede, nĂŁo se especifica, nĂŁo se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

"O amor que move o Sol,
como as estrelas"

" ser busca outro ser, ao conhecĂȘ - lo
acha a razĂŁo de ser, jĂĄ dividido.
SĂŁo dois em um:, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.

"Amor - eu deisse - e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais ocluto do jardim, mas seu perfume nĂŁo chegou a mim"

O ser busca o outro ser, e ao conhecĂȘ-lo acha a razĂŁo de ser, jĂĄ dividido. SĂŁo dois em um: amor, sublime selo que Ă  vida imprime cor, graça e sentido.

Acorda amor
NĂŁo Ă© mais pesadelo nada

Que imensa misĂ©ria o grande amor - depois do nĂŁo, depois do fim - reduzir-se a duas ou trĂȘs frases frias ou sarcĂĄsticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

...eu tive tanto amor um dia.

O amor vai permanecer, mesmo que as palavras sejam esquecidas, que a presença não seja constante e que os caminhos sejam diferentes.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.

Clarice Lispector
Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Nota: Trecho do conto Amor.

...Mais

Acordei cheia de alegria, amor, esperança e cinismo.

O amor romĂąntico Ă© como um traje, que, como nĂŁo Ă© eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formĂĄmos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romĂąntico, portanto, Ă© um caminho de desilusĂŁo.

Fernando Pessoa

Nota: Trecho adaptado de poema do "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares (heterĂŽnimo de Fernando Pessoa).

...Mais