Homem Elegante
Não só a paixão é cega como a rejeição também o é. Homens rejeitados são capazes das piores covardias.
Havia ali a massa de um homem futuro, à espera que os anos, cuja ação é lenta, oportuna e inevitável, lhe dessem flacidez ao caráter e virilidade à razão.
Um transeunte perdido na solitude de seus pensamentos junto a uma mistura indecifrável e corrosiva de sentimentos, decerto está tentando descobrir uma maneira de escapar da rotina, da loucura. Talvez esse homem urbano deva perder-se para encontrar-se, trilhar caminhos desconhecidos e divertir-se com o que encontra, parar para aproveitar os pequenos momentos.
O homem deve bastar-se a si mesmo, isto é, não depender dos outros para nada ou para o mínimo possível, as pessoas em sua autossuficiência precisam não ter necessidade de nada de que venha de outras pessoas.
Uma vez, perguntou-se, em minha presença, em que consistia o maior prazer do amor. Alguém naturalmente respondeu: "em receber". E um outro: "em dar-se". Um outro ainda: "prazer de orgulho". E mais outro: "volúpia de humildade". Houve, por fim, um descarado utopista que afirmou que o maior prazer do amor era o de formar cidadãos para a pátria.
Quanto a mim, digo: a volúpia única e suprema do amor está na certeza de fazer o mal. E o homem e a mulher sabem, desde o nascimento, que no mal se encontra toda a volúpia.
Não se pode captar Deus a não ser pessoalmente. Cada homem tem sua vida e seu Deus. Seu advogado e seu juiz. Sacerdotes e ritos não passam de muletas paliativas de paralisia de uma alma cada vez mais incapaz de viver e experimentar
Quando alguém conhece a si mesmo está conhecendo a singularidade e não a totalidade do homem. Conhecer a nós mesmos não é a garantia de conhecer os outros.
Para uma mulher vingativa não basta um simples pedido de perdão, ela também vai querer ver o indivíduo arrastando com a cara no asfalto, virando lata de lixo na rua para catar latinha e também ter o ego inflado ao desejar que o cidadão implore o perdão dela para que simplesmente ela diga "não" com todo o desprezo possível.
Desde o nascimento, o homem carrega o peso da gravidade em seus ombros. Ele é aparafusado à terra. Mas o homem só tem que afundar embaixo da superfície e ele estará livre.
Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levem nove meses para vir à luz. Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou de ovelhas, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas.
(Demian)
