Ha mil Razoes para Nao Amar uma Pessoa
O gado bolsonarista invade Gramado na Páscoa! No entendimento do rebanho, não há melhor lugar para pastar!
"Hoje em dia há filhos que não escutam nem o pai e nem a mãe; damos conselhos e eles não estão nem aí, só Deus para ter misericórdia."
Caminho pela superfície fingindo que o sol, em seu contato pífio, não me queima; pois há muito caminhei pelas sombras.
“Há noites em que o coração conversa com a lua porque já não encontra linguagem entre os homens.”
— Juliana Hoffmann Liska
“Há silêncios que não são ausência de palavras; são excesso de sentimentos.”
— Juliana Hoffmann Liska
Eu não pedi que você ficasse.
Há um momento exato em que o amor deixa de ser tragédia
e passa a ser apenas clima.
Como garoa em roupa esquecida no varal.
Como cheiro de cigarro preso no banco de um carro antigo.
Como aquela dor de cabeça que já não preocupa ninguém
porque aprendeu a morar no corpo.
Você arrumava as coisas lentamente
e eu pensei, com uma serenidade quase ofensiva:
ela finalmente cansou de mim.
Não de mim inteiro —
isso seria grandioso demais —
mas desse homem pela metade
que chega do hospital cheirando antisséptico e cidade,
que fala de literatura latino-americana
como quem tenta salvar alguma dignidade do mundo,
que coleciona moedas estrangeiras
porque nunca conseguiu pertencer completamente ao próprio país.
Escorei no Renault noventa e um.
O carro estalava baixo, esfriando o motor,
como um animal velho respirando durante o sono.
Acendi um tabaco ruim.
Misturei mate uruguaio no fumo.
Não por boemia.
Nem estética.
Por superstição.
Alguns homens rezam.
Outros adulteram o cigarro.
Você passou por mim sem dizer nada
e eu gostei disso.
As grandes despedidas são profundamente constrangedoras.
Ninguém deveria transformar amor falido em espetáculo.
Pensei em Manuel Bandeira olhando janela de pensão barata.
Pensei em Benedetti entendendo tarde demais
que Montevidéu sempre foi uma maneira elegante de sofrer.
Pensei em Clarice,
naquela coisa terrível dela de perceber a alma das coisas
até quando elas já estavam mortas.
E então percebi uma coisa pequena,
quase ridícula:
eu tinha sobrevivido tempo demais.
Sobrevivi aos problemas.
Às cobranças que pareciam ser infinitas.
À vergonha de pedir ajuda.
À escola sugando meus últimos gestos humanos.
À fumaça.
À exaustão.
À sensação humilhante de fracassar devagar.
Sobrevivi até mesmo à esperança,
o que talvez seja a forma mais adulta de tristeza.
Você abriu o portão.
O barulho do ferro ecoou na rua vazia
como ecoam certas decisões irreversíveis:
sem dramaticidade,
apenas definitivas.
Eu poderia dizer que ainda te amava.
Mas seria inútil.
O amor, às vezes, não acaba.
Ele apenas perde utilidade prática.
Então fiquei ali,
encostado naquele Renault cansado,
fumando um cigarro adulterado com erva estrangeira,
olhando você ir embora
como quem observa um país desaparecer pelo retrovisor.
Sem raiva.
Sem poesia suficiente.
Sem salvação.
Só aquela melancolia fronteiriça
dos homens que aprenderam tarde
que viver também é perder território.
"Não há fato mais miserável do que o ser que não tem brilho ou sombra própria e precisa eclipsar o brilho do outro. Ter uma sombra exige profundidade. Quem só sabe copiar é tão oco que nem sombra consegue projetar sozinho — precisa da luz alheia até para existir."
- Leandra Pinheiro
Há momentos em que o homem olha para a própria história e não consegue compreender por que determinadas coisas aconteceram. Vê a injustiça avançar, vê pessoas que feriram outras continuarem caminhando como se nada tivesse acontecido, vê portas se fecharem diante de quem tentou fazer o certo e, por alguns instantes, pode surgir a sensação de que o mundo pertence aos injustos. Mas essa é apenas a visão limitada de quem enxerga um capítulo enquanto Deus conhece o livro inteiro..."
Preto e branco?
A vida não é só preto e branco,
há espaços em cores,
há nuances, há apostas,
sem respostas.
Há bem mais...
que apenas duas posições,
radicalmente opostas...
há mistérios insondáveis,
impenetráveis...
Há o conhecido sim,
e o desconhecido também,
o que poderia ter sido...
há o sentido, o avesso,
sem sentido...
sexto sentido,
o encontrado, o perdido.
O tropeço...
o oculto,
o revelado...
A vida não é só um lado,
e outro lado...
não é só presente e passado.
Tédio
Tédio...
pra vida não há remédio,
drama dos dias divididos,
mal vividos,
desiludidos.
silêncio que ecoa no vazio,
sombras de um tempo perdido.
Trama da vida,
mil começos,
nenhuma saída...
vida demasiadamente longa,
demasiadamente breve,
(des)afortunadamente,
quem a escreve sabe o que escreve
Há momentos em que o silêncio entra na vida como quem não quer nada, mas, pouco a pouco, ocupa todos os espaços. Ele se senta entre duas pessoas, paira sobre uma lembrança, repousa no canto de um quarto vazio e, sem dizer uma sílaba, revela o que nenhuma palavra consegue alcançar. O silêncio também fala, e muitas vezes fala com verdade do que qualquer discurso.
Ele se manifesta no olhar cansado de quem pede ajuda sem coragem de pedir, na pausa de quem guarda um sofrimento antigo, no abraço que dispensa explicações. Há silêncios que são muralhas, erguidas para proteger feridas. Outros são pontes, construídas com afeto, compreensão e presença. Em ambos, existe linguagem.
Ser humano aprender a escutar o que não foi dito. Nem todo silêncio é ausência; às vezes, é excesso. Excesso de dor, de amor, de medo, de saudade. Por isso, ouvir alguém vai além de prestar atenção às palavras: exige sensibilidade para perceber o que a alma sussurra quando a boca se cala. E talvez seja nesse espaço invisível que nascem as verdades profundas.
O que o Dinheiro Não Preenche
Há vazios que o dinheiro conhece, mas não sabe preencher.
Talvez por isso passemos boa parte da vida acumulando.
Acumulamos coisas, títulos, propriedades, roupas, objetos, números numa conta. E, pouco a pouco, quase sem perceber, começamos a chamar de necessidade aquilo que muitas vezes é apenas uma tentativa de preencher alguma ausência dentro de nós.
O problema não está em possuir.
Está em acreditar que possuir é suficiente.
Há uma estranha fome que cresce quanto mais alimentamos a ganância. Quem deseja ter para finalmente se sentir completo descobre, cedo ou tarde, que o “mais” não possui fim. Depois de uma conquista surge outra. Depois de uma compra, outra vontade. Depois de alcançar aquilo que parecia indispensável, o coração inventa uma nova falta.
A ganância tem essa natureza: promete saciedade enquanto fabrica fome.
A generosidade faz o contrário.
Faça um ato de amor.
Não precisa ser grandioso. Divida o pão. Ofereça seu tempo. Escute alguém sem olhar o relógio. Ajude sem anunciar que ajudou. Dê alguma coisa que lhe custe não apenas dinheiro, mas presença.
E observe o que acontece dentro de você.
Por alguns instantes, o desejo de possuir perde força.
Porque quando damos verdadeiramente alguma coisa a alguém, experimentamos uma riqueza que nenhuma propriedade consegue registrar.
Talvez seja essa uma das grandes contradições da existência: há coisas que somente possuímos quando somos capazes de oferecê-las.
O amor é uma delas.
A bondade também.
A compaixão, igualmente.
Ninguém se torna generoso acumulando generosidade para si. É preciso colocá-la em circulação.
Vivemos numa sociedade que frequentemente pergunta: “Quanto você tem?”
Mas raramente pergunta: “Quanto de você existe naquilo que você oferece aos outros?”
E talvez a segunda pergunta diga muito mais sobre nossa riqueza.
Não há pecado em desejar conforto, construir patrimônio ou desfrutar aquilo que o trabalho proporcionou. O perigo começa quando esperamos que as coisas façam o trabalho que pertence à alma.
Uma casa pode proteger nosso corpo, mas não consegue abraçar nossa solidão.
O dinheiro pode comprar uma cama confortável, mas não necessariamente uma consciência tranquila.
Podemos encher os armários e continuar com o coração vazio.
Porque existem espaços dentro do ser humano onde os bens materiais simplesmente não entram.
São lugares reservados à amizade, ao afeto, à compaixão, ao perdão, à presença e à generosidade.
Talvez por isso um verdadeiro ato de amor seja também um ato de libertação.
Quando damos alguma coisa sem esperar retorno, alguma corrente invisível se rompe. Por alguns instantes deixamos de perguntar “o que ainda me falta?” e começamos a perceber “o que eu já tenho para oferecer?”.
E essa mudança de pergunta transforma uma vida.
Porque talvez riqueza não seja possuir muito.
Talvez riqueza seja precisar cada vez menos para ser feliz e ter cada vez mais de si para oferecer.
No fim, quase tudo aquilo que acumulamos ficará.
As casas terão outros moradores. Os objetos passarão para outras mãos. Os números perderão nossos nomes.
Mas aquilo que oferecemos por amor continuará caminhando pelo mundo dentro das pessoas que tocamos.
E talvez seja essa a única fortuna que a morte não consegue confiscar.
Há fases da vida em que o lar, que deveria ser abrigo, transforma-se em tribunal. Não há juízes declarados, mas toda palavra que pronuncio parece já nascer culpada. No casamento e dentro de casa, descubro que o silêncio não é ausência de voz, é defesa. Falo e recebo o contra-ataque; calo e sou acusado de indiferença. Assim, aprendo a arte amarga de medir frases como quem pisa em vidro.
Percebo então que não estou amordaçado por cordas visíveis, mas por expectativas alheias. Cada pessoa carrega sua dor, seu cansaço, sua verdade parcial, e todas colidem no mesmo espaço estreito. O conflito não nasce do que digo, mas do que o outro escuta a partir das próprias feridas. Em casa, a palavra raramente é apenas palavra: ela carrega histórias, frustrações e cobranças antigas.
Nessas fases, amadurecer não é vencer debates, mas compreender limites. Nem toda reação é ataque, nem todo silêncio é covardia. Às vezes, resistir é escolher o momento certo de falar; outras vezes, é reconhecer que não serei entendido agora. Aprendo que liberdade interior não depende de aplauso doméstico, e que dignidade também mora na escuta de si mesmo.
Talvez a maturidade seja isso: aceitar que amar inclui desencontros, e que a minha voz não precisa gritar para existir. Mesmo quando amordaçado por circunstâncias, continuo responsável por não deixar que o silêncio me transforme em alguém que não sou.
Olhos da Ingratidão
Há olhares que veem o mundo, mas não reconhecem o valor do que recebem. Os olhos da ingratidão são aqueles que atravessam gestos de bondade sem perceber sua profundidade. Eles observam, mas não compreendem; recebem, mas não recordam.
A ingratidão nasce quando a memória do benefício se enfraquece diante do orgulho ou da indiferença. Quem olha com esses olhos passa pela vida como se tudo fosse lhe devido, como se a generosidade alheia fosse apenas parte natural do caminho.
Filosoficamente, a ingratidão revela uma falha na consciência do vínculo humano. Toda ajuda cria uma pequena ponte entre duas existências. Quando essa ponte não é reconhecida, não é apenas a gratidão que desaparece — também se perde a percepção de que ninguém caminha sozinho.
Assim, os olhos da ingratidão não são cegos para o mundo, mas são cegos para a dádiva. E quem não aprende a enxergar o bem que recebeu corre o risco de viver cercado de pessoas, mas distante do verdadeiro sentido da reciprocidade.
Há momentos em que percebemos que o maior presente da vida não é ter um teto, mas encontrar um lar onde somos acolhidos, respeitados e amados de verdade. É nesse lugar que a alma volta a florescer.
