Saulo Nascimentto
X
No coração do fogo não há queima,
tampouco centelha a aviltar.
Quem nada reteve, acendeu o ouro,
não fogo em palha a brasar.
Sem nó
Deus mora nos detalhes; o diabo, porém, nas distrações. Por isso, o porquê é o caminho de todo aquele que busca ser sábio.
Caíste...
do alto sublime em queda,
ou fuga da irídia tenaz...
a quem sabe do outono semblante,
mártir, o fulgente capataz.
Caíste...
em terra vultosa,
destronada, quedante em dor,
tal homem, fulcror impingente,
ou serpente, sedante, à ruína, depor...
Saulo Nascimentto
Nella città VII - Dor
Onde nasceram os homens, também rastejam os vermes...
Dize-me, peço-te:
qual é tua lida com a dor?
E eu,
carrasco de misericórdias tardias,
cuspirei teu espírito ao pó.
Vis-à-vis com os vis
Há homens que da violência trazem a chaga, porque lhes feriu primeiro a carne e a alma; há homens que da violência fazem casa, porque nela se assentam, dela se servem e por ela se governam; e há homens violentos, mais vis que desgraçados, porque, conhecendo o fel da dor, não o abominam: dão-no a beber ao próximo.
Que culpa há em ser ferido? Nenhuma. Que desgraça há em morar na ferida? Grande. Mas que baixeza é ter sofrido o golpe e, podendo quebrar-lhe o ferro, escolher brandi-lo contra outro!
Saulo Nascimentto
Vingança de barro
Se o mal que me fizeste hoje te esquece,
não cuides que ao meu peito se consome;
A ti não ferro, sangue, nem tormento,
Ver-te-ei cair, não por meu braço armado,
Que a vingança melhor, se bem entendida,
não é matar quem um rancor encerra.
Áspide
Deus mora nos detalhes; o diabo, porém, nas distrações...
Do alto sublime em queda, ou fuga da irídia?
a quem sabe em outono semblante,
agora, fulgente capataz.
Caíste...
em terra vultosa,
destronada, quedante em dor,
tal homem, fulcror impingente,
ou serpente, sedante, a ruína?
Vis-à-vis com os vis
Há homens violentos mais vis que desgraçados, porque, conhecendo o fel da dor, não o abominam, antes dão-no a beber ao próximo. Que culpa há em ser ferido? Nenhuma. Que desgraça há em morar na ferida? Grande. Mas que baixeza é ter sofrido o golpe e, podendo quebrar-lhe o ferro, escolher brandi-lo contra outro!
Écfora I - Rubro
A fiar o rubro sobre o rubro, qual sangue vertido em sacrifício...
Sangue ao chão... deitado em pó...
Vertido, retorna ao que antes fora: fútil?
Pueril ao vento?
Vento que sopra ao sul, ao norte e aquém, mas para tão além, fugaz...
Talvez sangue... ou apenas pó... Mas, para tão além, o que, na verdade, ele é?
Pulvis
Todos hão de encontrar seu muro!
Vede, tudo quanto é carne em pó se encerra!
Eu, do pó, concebido; e, todavia,
ainda que eu, ao pó, retorne,
jamais eu mesmo, ao pó, retornarei.
Nella città II - Meu véu
Todos dizem ter a verdade, como se fosse um objeto que se guarda no bolso, ou algo a ser fatiado, repartido em porções individuais: este pedaço é meu, aquele é seu. Mas a verdade... a verdade não se deixa possuir. Ela apenas é. Está lá, livre e inteira, mesmo quando ninguém a vê.
Eu a sinto, às vezes, num instante que passa, incapturável pela compreensão. Ela não se deixa ressignificar. Não cabe em palavras, não se curva à vontade alheia. É. Como a luz que atravessa uma janela, mesmo quando o vidro está empoeirado. O que vejo... é sempre manchado pelo que sou.
Mas o erro, o erro é pensar que a verdade é minha só porque a vi. Não é. Ela não é minha, não é tua, não é de ninguém. É só dela. Minha é a percepção. E percebo com mãos trêmulas, com olhos que mentem, com o silêncio do que ainda não entendi.
