Ha como eu Queria q ela Soubesse

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Açaimei-me


Agilson Cerqueira


Não me acontecem epifanias.
Não há clarões, nem súbitas compreensões que reorganizem o mundo.
O que há é a permanência — sólida, repetida — da estupidez.
Ela se infiltra nas falas, nas certezas, nos gestos automáticos.
Diante disso, não argumento, não confronto, não elaboro.
Reduzo-me ao essencial: calo.
Não por sabedoria, mas por economia.
Não por virtude, mas por recusa.

Na democracia representativa, a vontade representada é do representante. Logo, não há representação e nem democracia.

O Brasil de hoje está muito dividido. Há os que querem mudar o Brasil via redes sociais e os que não querem que o Brasil mude e usam para isso as redes sociais. Duro embate!

Há na gratidão uma altivez sublime que o ingrato ainda desconhece.

Há em cada um de nós um território inexplorado; o tempo nos revela ao mundo e desenha, pouco a pouco, o retrato de quem realmente somos.

Há no tempo um poder de revelar prioridades; nos direciona para tudo que nos é vital, deixando amainadas as nossas urgências.

O invejoso se torna coadjuvante na vida alheia; onde há inveja, a vida do outro deixa de ser apenas do outro.

Há quem atravesse a existência inteira sem sair da caverna das aparências.

Entre aquilo que vejo, ouço, tateio, provo e respiro e o real, há uma distância que não sei medir; mas o desconhecido logo me revela a pequenez do que sei.

Não é apenas o trabalho árduo que nos faz vencer; há riqueza também em cada passo do caminho.

Sem noite, não há dia produtivo.

O Prisma Velado


Um estranho tingido de nuances
tenta ocultar-se sob o peso das dores,
mas há uma claridade que vaza pelas frestas,
teimando em revelar suas cores.


Veste falas ásperas, molda controvérsias,
mentindo sobre a própria essência:
tem o olhar transbordando vida,
enquanto a boca impõe abstinência.


Cuidado, ele assusta.
É caminhar sobre lâminas de vidro;
basta um sopro, uma palavra mal posta,
para que o castelo caia, desvalido.


Inseguro, tropeça no próprio silêncio,
anseia pela escuta, mas recua no umbral.
Há um universo contido nesse peito,
que se veta o direito de ser real.


Brilha, pequena luz, rompe o casulo.
Esconder o sol não lhe faz sentido.
Seja agora, ou em um futuro mudo,
o amor reclama o que foi reprimido.


Essa hesitação cederá terreno
ao que pulsa e, doce, seduz;
uma voz que o retira do ermo
e o convoca, enfim, para a luz.


Não economize a alma, não se limite à razão.
Voe para além do que o medo condiz.
Busque o néctar, o mel, a entrega;
há doçura esperando quem se quer feliz.


O amor não pede licença nem explicação:
ele chega sem alarde, desarruma o porto,
e faz um belo estrago na solidão
dessa sua iludida arrumação.


Poesia de Islene Souza

Despertar.


Acordei há pouco,
Aproveitei e vim
Para dividir com você
O meu sonho.

És verso
Há o barulho do silêncio, na tépida madrugada.
A chuva que rola solta pela areia seca de uma duna em movimento.
O brilho do sol por trás da noite enluarada,
A cantiga nova repelida do firmamento,
As vozes de uma multidão numa cabeça já cansada.
A fantasia na realidade digerida
Transforma em cantos o redondo dessa vida.
Sem fome num banquete já servido,
Gritaria aos milhares se pelo menos um tivesse ouvido.
Indaga-se a renúncia da pena quando faltam letras,
Procura-se a poesia no campo já florido.
Num alarido majestoso colheu a flor solitária de um buquê róseo,

FILHO DO PARÁ



“Ó Pará, há tempos que vim de lá.

Deixei a solidão conduzir-me o coração,

como tua estrela solitária,

que exerce autonomia.

Recordo-me de que de ti herdei a cidadania.

De verdade, eu sou de lá,

da terra do Norte quente,

e tenho apreço por essa gente,

que, em festa, muito contente,

vem hoje se declarar:

eu te amo, meu Pará!

Pois, sou teu filho, sou guerreiro,

sou paraense, brasileiro!”

Tasselo Brelaz

A Escuta que Cura


Há uma força que não se impõe —
apenas se oferece:
a escuta.


Não a que responde rápido,
nem a que prepara defesa —
mas a que se inclina,
inteira,
para caber o outro.


Escutar é abrir espaço
onde antes havia ruído.
É suspender o próprio peso
para sustentar o que chega.


Há dores que não pedem conselho —
pedem presença.
E, quando encontram abrigo,
começam, por si, a se reorganizar.


A escuta verdadeira não interrompe —
acolhe.
Não julga —
compreende antes de concluir.


E nesse silêncio habitado,
algo sutil acontece:
o que estava fragmentado
encontra forma.


Porque ser ouvido —
de verdade —
é uma das experiências mais raras
e mais restauradoras que existem.


— E quem aprende a escutar,
torna-se instrumento de cura
sem precisar dizer quase nada.


Ir. Paulo Tondella

Há um pouco de tudo em tudo que vemos.
Há o barulho do silêncio, na tépida madrugada.
A chuva que rola solta pela areia seca de uma duna em movimento.

O brilho do sol por trás da noite enluarada,
A cantiga nova repelida do firmamento,
As vozes de uma multidão numa cabeça já cansada.

A fantasia na realidade digerida
Transforma em cantos o redondo dessa vida.
Sem fome num banquete já servido,

Gritaria aos milhares se pelo menos um tivesse ouvido.
Indaga-se a renúncia da pena quando faltam letras,
Procura-se a poesia no campo já florido.

Em sílabas mortas o guardião fez moradia.
Trancou a porta e se afogou na água fria.
Sentiu-se imponente sob o sol da manhã

Gotejou lampejos de suplício na tarde vã.
Lutando contra o mundo, soldado único se fazia.
Num alarido majestoso colheu a flor solitária de um buquê róseo,

e presenteou suas lembranças no esquecimento da sua história... (Júlio Raizer)

Aquele que almeja alcançar pleno êxito há de ser paciente, e nunca se precipitar em conclusões abruptas.

"Há os que escolhem a liberdade de estar só.
Há os que desejam a escravidão do amor."

O inimigo mortal do homem é a miséria. Não há pior discriminação do que a miséria. O estado de direito, consectário da igualdade, não pode conviver com o estado de miséria. Mais miserável do que os miseráveis é a sociedade que não acaba com a miséria.

Ulysses Guimarães

Nota: Trecho de discurso em 5 de outubro de 1988, durante a sessão de promulgação da nova Constituição brasileira.

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