Grito
O que me basta...
Apenas um dia como hoje. Me basta uma noite como esta, somente isto é suficiente pra fazer com que a alma grite, por um dia como ontem, por uma noite como aquela, onde um toque basta pra calar. Calar todo grito existente.
Aos que não suportarem o "chocante pluralismo de visões de mundo", como cunhou Jürgen Habermas, fica minha recomendação: entrem em uma caixinha e isolem-se do mundo, pois as paredes podem ser convencidas a grito; as pessoas, não.
E às vezes é através de cada palavra por mim escrita que o meu silêncio grita...E em meu peito se agita!
No fundo sabe que não passa de uma grande mentira. Vive enganando a si mesma, dizendo aquilo que seus ouvidos querem ouvir para se sentir melhor.
Tenta desesperadamente abafar o grito do seu coração, enquanto ele se contorce por dentro. Canta belas mentiras pra disfarçar a agonia causadas por suas próprias decisões.
Se vê jogando fora aquilo que mais quer, por puro capricho, enquanto se distrai com aquilo que no fundo sabe que não será para sempre.
Ontem nevou e fez frio. Não havia mais fogo para aquecer e a luz do Sol não brilhou mais. O caos trouxe a escuridão e a escuridão tomou os corações.
Ontem nevou e a neve cobriu nossas casas. Ficamos perdidos na rua, correndo de um lado para o outro, sem nem ao menos nos reconhecer.
Corações gelados, dominados pela maldade, riram de nós. O Sol se escondeu. Mas buscamos abrigo debaixo da videira.
O grito dos maus nos assombrou e o frio nos silenciou para sempre.
Quem restou se agarra firme naquela árvore e espera a redenção que aquece com fogo e ilumina com a luz que dissipa a neve e destrói o mal.
Sou repleta de alegria ao ponto de me cansar. Dramática? Talvez. Intensa? Com certeza. Sorrio discretamente ou escandalizo ao gargalhar. Choro sem que me notem, grito pra dentro ou berro de dor. Se quiseres chegar até mim, não seja qualquer coisa, não me queiras pela metade e não seja metade, não esconda o seu falar. Seja corpo, seja alma, seja choro, seja grito, seja sangue, carne e osso, só não seja mais ou menos.
Comecei a escrever em um caderno com folhas em branco e sem nenhuma linha...
No começo até me surpreendi , minhas letras pareciam desenhos em constante sintonia, iam de maneira linear, sem se desviar ,nem para cima e nem para baixo.
Mas, no decorrer do tempo, percebi que já não tinha linearidade, em um momento as palavras iam mais altas, em outros momentos elas pareciam afundar, como o silenciar de uma voz...
Eu continuei escrevendo sobre a vida nos altos e baixos das linhas imaginárias.
Na tentativa de fazer tudo certo e simétrico, mas, só me doía, doía a mente por pensar tanto, doíam o dedos por apontar meus erros, doía meu coração por não entender por inteiro.
Ainda assim insisti em escrever, escrever sobre a vida, uma vez que perdida no conturbar das linhas, encontrei meu eu, ela andava sozinha, entrelinhas, amando o dia, odiando a noite , falante durante a semana e se calando no fim.
Eu não consigo me calar diante do caos. Acho que essa é a minha missão, ainda que sozinho, é preciso gritar, exprimir o que pensa. A palavra é a minha única arma. Questão de sobrevivência. Não sou dos que adotam a violência da bala, nem do medo como discurso... Vou de poesia, de paz, de amor e de consciência, SEMPRE!
cansei
de segurar a onda
nas minhas costas largas
e aguentar as pontas
de quem não se desamarra
de fazer vista grossa
para essas almas rasas
de ficar no salto
se o meu corpo é samba
de manter a calma
nesse mar de lama
de conter o grito
meu bem mais bendito
de esperar o momento
precipício
para saltar dos trilhos
e não ter mais nada
a ver com isso
Uso do percalço e calço, palavras óbvias que se aplanam por desastre de um otimismo. Que eu piro e me permito...
Letras que não fazem sentido, quando ao óbvio me permito, entre atritos com meu grito. Desabam nas entrelinhas da minha vida de cor púrpura; Hora ou outra me permito ao capricho de certas escolhas que me fazem flutuar.
Ao meu redor está tudo silencioso, enquanto dentro de mim um barulho toma conta de tudo.
Vai ver seja o grito da minh'alma.
Sou, como tu, um riso desgraçado!
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor!...
A poesia é uma voz calada, que grita na escrita, aquilo que voz nenhuma diria. Então, que a poesia grita, aquilo que na escrita, voz nenhuma diria, é uma voz calada.
COISA DO DIREITO DE SER
Há tempos que se deve ser para outros,
O que elas querem que se seja, é acordo
É respeito, é por um tempo;
Sempre se é, o que se quer ser!
Será perda de energia se não for...
Calo-me para não desperdiçar-me;
Sou a resiliência, sou multiforme...
Discutem, discordam e insistem, logo se vão!
Volto sempre a ser eu, quando estou só;
Volto a ser eu quando estou pensando;
Volto sempre a ser o que gosto de ser.
Volto a ser eu quando encontro pessoas que amo;
Volto a ser eu , perto de quem sabe quem sou
Volto a ser eu, quando durmo, reinvento-me!
