Geografia

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A Geografia dos Que Não Sabem Viver


Nunca aprendi a viver.


Talvez ninguém tenha aprendido.


Talvez chamemos de existência
a longa repetição de gestos
que fazemos antes de descobrir
que não levam a lugar algum.


Nasci tarde demais para a esperança
e cedo demais para o esquecimento.


Desde então,
habito uma espécie de intervalo.


Não pertenço às ruas,
mas também não pertenço ao silêncio.


Sou hóspede de lugares
que desaparecem quando alguém acende a luz.


É ali que resido:


entre o eco de uma voz
e a voz que já não existe,
entre a sombra de um corpo
e o corpo que partiu,
entre aquilo que desejei
e aquilo que tive medo de desejar.


Há uma crueldade particular
em continuar vivo
quando já não se espera nada da vida.


A esperança, quando envelhece,
não se transforma necessariamente em desespero.


Às vezes transforma-se em hábito.


E há hábitos mais difíceis de matar
do que qualquer esperança.


Carrego dentro de mim
uma cidade construída sobre ruínas.


Cada rua conduz a uma ausência.


Cada janela dá para alguém
que não voltou.


Cada quarto conserva o cheiro
de uma coisa que terminou
sem jamais ter começado.


É estranho perceber
que podemos sentir saudade
daquilo que nunca tivemos.


Talvez seja essa
a forma mais pura da melancolia:


sentir falta
de uma vida que nunca nos pertenceu.


Meus desejos também envelheceram.


Já não gritam.


Já não imploram.


Permanecem no fundo de mim
como moedas enferrujadas
no bolso de um homem morto.


Ainda posso tocá-los.


Ainda posso senti-los.


Mas já não consigo gastá-los.


Desejo o amor
como um condenado deseja a liberdade:


não porque saiba o que faria com ela,
mas porque precisa acreditar
que existe uma porta.


E talvez não exista.


Talvez todas as portas sejam apenas
formas arquitetónicas da nossa ilusão.


Talvez a liberdade seja
o nome elegante que damos
ao intervalo entre duas prisões.


Por isso permaneço.


Não por coragem.


Não por fé.


Permaneço porque até o abandono
exige uma certa perseverança.


A noite me conhece pelo nome.


As sombras já não me assustam.


Elas aprenderam a conviver comigo.


Às vezes sentam-se ao meu lado
e não dizem absolutamente nada.


É a conversa mais honesta
que já tive.


Então penso:


e se a vida nunca tivesse sido feita
para ser compreendida?


E se compreender fosse apenas
mais uma maneira de destruir
o pouco mistério que nos mantém respirando?


Talvez eu não esteja perdido.


Talvez não exista lugar algum
para onde voltar.


Talvez esta sensação de estar ausente
seja a única forma de presença
que me foi concedida.


A madrugada chega.


O mundo começa novamente
a fingir que amanhã importa.


Eu permaneço diante da janela.


Lá fora, alguém ri.


Um carro desaparece na esquina.


Uma mulher fecha as cortinas.


Um homem acende um cigarro.


E por alguns segundos
tudo parece absurdamente vivo.


Então percebo uma sombra atrás de mim.


Ela não estava ali antes.


Não me viro.


Porque existe uma pergunta
que passei a vida inteira evitando:


se tudo aquilo que perdi
continua vivendo dentro de mim...


então quem, exatamente,
é que está vivendo
quando eu já não estou?

De simples janelas
Vejo requintadas paisagens
Sou cinegrafista de caminhos
A captura de poesia.

"Olhar os mapas pode ser esclarecedor.
Olhar para eles de ângulos novos pode ser ainda
mais esclarecedor.
Mas, se você quer libertar a sua mente de todas
as idéias preconceituosas e preconcebidas que os planisférios tendem a produzir, provavelmente só
terá um remédio: arranje um globo - e mantenha-o
sempre rodando."

Passei toda a minha vida a estudar,e oque eu queria saber era a geografia do teu corpo,a quimica dos teus beijos,o desenho do teu coração,a matemática do teu sorriso e o português da tua lingua.

Permanência


Não peçam aos poetas um caminho.
O poeta não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua.
Falta-lhe o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.
O poeta lê apenas os sinais da terra.
Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e de presença.
Sabe apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil.
Conhece apenas do tempo o já perdido;
do amor
a câmara escura sem revelações;
do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.
Cego entre as veredas obscuras é ninguém
e nada sabe— morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

"se hundió en una amable geografía, en un mundo fácil, ideal, un mundo como diseñado por un niño, sin ecuaciones algebraicas, sin despedidas amorosas y sin fuerza de gravedad.

Física dos ventos
Química dos beijos
Geografia dos sonhos
Português da dança
Matemática do som
Arte do amor.

FACULDADE

Minha faculdade é a rua!
Formei-me em Letras,
História e Geografia.

Fiz letra de samba,
Letra de rap,
Letra de forma,
Letra de mão,
Letra de pixo,
Letra de grafite.

Fiz histórias nas ruas!
Contei histórias da vida,
Histórias de manos e minas,
Histórias do cotidiano…
Histórias de miliano,
Histórias verídicas.

Andei pelos guetos, becos,
Observei os terrenos baldios,
Construí poemas de madeira,
Barracos de papel.

Observei os arranhas céus
Os córregos poluídos.


Minha faculdade é a rua!
Formei-me em Letras,
História e Geografia.

Para quê estudar tanto,se o que eu quero está na HISTÓRIA de sua vida,na GEOGRAFIA de seu corpo e na QUÍMICA de seus beijos???

A geografia serve antes de mais nada para cozinhar o Galo

Na geografia da vida existem montanhas, abismos, vales e desertos...
Quando estamos no topo da montanha só conseguimos rir o dia todo e ficar exaustos de tanta excitação e alegria...
Até que alguma coisa acontece e nos precipitamos montanha abaixo...
O tombo pode ser maior ou menor, os arranhões mais ou menos profundos, porém a dor é sempre a mesma... mas ninguém a conhece, pois não há ninguém caindo junto com você.
Quando chegamos lá no fundo, ficamos machucados e doloridos por um tempo, deitados em nosso abismo... mas o tempo que demorem nossas feridas em sarar dependerá somente de nossa disposição para nos levantar.
Chega então o tempo de atravessar o deserto, o tempo das lamentações e das lágrimas, e de avançar arrastando os pés e a alma, mas a medida que avançamos a dor vai se transformando em meditação e finalmente, em aprendizado... e quando queremos lembrar, nosso deserto tem-se transformado num verde vale.
Chegaremos então novamente ao topo da montanha, e voltaremos a exultar de alegria, e o ciclo recomeçará...
Estranhamente, não produzimos frutos quando estamos no topo da montanha, nem quando estamos agonizando no abismo de nossa dor... só produzimos frutos de sabedoria enquanto atravessamos o deserto.

Sábio não é aquele que nunca cai, mas sim aquele que lembra o que aprendeu com cada cicatriz...

Quem enfrenta os próprios medos, não apenas se supera, mas muda a geografia do impossível.

Quem enfrenta os próprios medos não apenas se supera, mas muda a geografia do impossível.⁠

Geografia da Incerteza


Não sei onde habito. Se sou este que agora respira, preso na pele, no susto, no grito, ou se sou apenas a moldura de uma mentira.


Talvez eu more no que fui, nos rastros de passos que o tempo apagou, num rio de ontens que em mim ainda flui, na sobra de alguém que de mim se cansou.


Ou quem sabe meu nome esteja guardado no que eu não ousei, no que ficou por vir, naquele silêncio que foi sufocado por medo de queda ou por medo de rir.


Sou o centro, o rastro e o horizonte, um nó no umbigo, uma eterna procura. A gente é a sede, a estrada e a fonte, perdidos no meio da própria mistura.

A Geografia do Quase
Nós somos o segredo que o tempo não conta,
A linha do horizonte que o sol nunca toca.
Tu és a pergunta na ponta da língua,
Eu sou o silêncio que a boca sufoca.


Caminhamos juntos na mesma calçada,
Mas em mapas distintos, em eras rivais.
Eu vivo no "agora", tu vives no "nada",
Dois corpos vizinhos... dois mundos jamais.


Te amo no espaço onde a lógica falha,
Onde o não e o sim se confundem no ar.
És a minha derrota e a minha medalha,
O naufrágio doce de quem não quer se salvar.


E se a vida nos pune com essa distância,
Que é feita de tudo, menos de chão,
Eu te abraço na sombra, com a mesma constância,
De quem guarda um incêndio dentro do porão EVER .. .. ...

Teste de Geografia


Dizias que o mundo era pequeno demais, traçavas fronteiras no mapa do lençol, medias a distância entre o nunca e o jamais, buscando o caminho pra um resto de sol.


Pediste que eu fosse o teu norte fiel, a rosa-dos-ventos de um cais sem navio, mas perdi o sentido, rasguei o papel, e o nosso Equador tornou-se vazio.


I
Onde fica o relevo do teu abraço?
Em que latitude se esconde o teu riso?
Pois sinto um abismo em cada passo, nesse hemisfério que não é o paraíso.
II
Qual a demografia da tua saudade?
Quantas ausências habitam o teu peito?
Se o amor é um solo de pouca fertilidade, onde o silêncio se torna direito.


No fim, a prova não teve nota ou glória, apenas a erosão de um tempo que passou.
Ficou a geologia de uma velha história:
Onde havia um vulcão, hoje a cinza restou.


O mapa dobrou-se, a bússola quebrou, e a conclusão do teste é um tanto amarga:
Quem muito se isola, continente virou, levando o oceano como única carga.


© *Paulino Florda*, No labirinto dos açoites, 2026

⁠suas raízes estão firmemente ligadas a uma geografia onde não pertence. ela não conseguiu florescer e nem conseguiu misturar-se e ele cavou o solo seco apesar de toda a sede que eles viveram.

Lugar é geografia, um local para a política; comunidade evoca as dimensões sociais e pessoais de lugar. Um lugar se torna uma comunidade quando as pessoas usam o pronome “nós”.

Richard Sennett
A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 2015.

O medo ensina geografia de meus limites. Se eu o enfrentar com cuidado, amplio fronteiras. Se cedê-lo sem luta, empobreço de coragem. Aprendo a lidar com ele como quem estuda mapa. E, aos poucos, bordo novas rotas em mim.

Natureza.
Faculdade / Universidade / Curso
Geografia / Biologia / Ciências
Previsão, do tempo.
Vai chover.