Fundo
Felicidade é a liberdade que nasce ao aceitar que, no fundo, cada pessoa está interessada apenas na própria história.
Do fundo do poço ninguém passa, mas o declínio da queda livre sirva para aprender não despencar outras vezes.
A Vida ao Fundo dos Teus Olhos
Amar-te é reconhecer
que o infinito
não vive nas estrelas, mas no intervalo entre o teu silêncio e o meu.
Quando anoitece, descubro
que o corpo também pensa,
que a pele também tem sede.
Há em nós um pensamento antigo,
como se o universo nos tivesse imaginado antes de nos encontrarmos.
E se o mundo ruísse agora,
se tudo se desfizesse em pó,
ficaria ainda este fogo
o teu, o meu, o nosso
a incendiar o que resta da noite.
No teu beijo encontro a origem,
no teu corpo a razão,
no teu olhar a prova
de que o universo não é caos
é escolha.
E eu escolho-te,
mesmo sabendo
que o amor
é sempre um risco
que vale a vida.
Quando entro no fundo de ti,
o mundo afina
o seu próprio silêncio,
como quem encosta a alma
a um grito no precipício
para ouvir se ainda ecoa.
Há instantes que nos escolhem
antes de sabermos o nome deles
e tu és esse instante:
a forma mais suave
que o destino encontrou
de me tocar.
Há encontros epidérmicos
que não passam,
ficam suspensos,
como lua cheia
a reconhecer o próprio destino
no rosto de alguém.
Quando duas almas se cruzam é sempre um instante absoluto, rápido demais para o tempo, fundo demais para o esquecimento.
... no fundo,
somos não somente as vítimas,
mas os originários algozes dos nossos
próprios infortúnios... E na justa ciência
de tão factual dualidade íntima reside
ônus que nos permitedesassociar o
que nos constrange das escolhas
que nos depuram!
A Sua Dor Mora em Mim
Colecionei luas quebradas no fundo dos bolsos, pedras antigas que aprenderam a chorar antes dos rios, areias que se tornaram partículas de sangue, meu nome dormia entre galáxias apagadas, enquanto teus passos atravessavam constelações e sem perceber as cinzas que deixava marcadas em mim, havia um jardim escondido dentro do meu peito, onde só raposa de nove caudas, aquela que sempre guardava os seus segredos, a que sempre trazia água quando você tinha sede, aquela que daria a alma pra salvar a sua, a que roubou as estrelas pra você pousavam e descansar e pós sobre meus ombros, levando em lugares que você sempre quis visitar.
Eu sempre te chamava teu nome em idiomas que os ventos esqueceram, mas a madrugada devolvia em forma de silêncio, por que minha dor é a sua dor e a sua dor é a minha dor, eu me desfiz lentamente, como um planeta que escolhe cair na órbita de um sol que nunca o viu o verdadeiro brilho, as noites em Saturno parece inclinar-se sobre o mundo, como um velho sacerdote observando aquela raposa se perder no seu próprio amor que se tornou proibido.
E me destruir em você, como cristal lançado ao mar, como cometa que aceita morrer apenas para iluminar um céu, o seu céu, nas cidades invisível que construir, mas pontes que ergui entre universos, nos oceanos que dei seu nome, nas cartas que pedi ao vento que lhe entregasse, nos planetas que inventei para que você pudesse habitar, mas na sua realidade você não me escolheu.
Enquanto eu recolhia as luvas quebradas e você caminhava por outras estações, eu aprendi o idioma das auroras somente por que você amava escutar os cantos delas, enquanto meu coração contruia moradas, o seu seguia caminhos que nao levavam até mim.
A esperava que ainda restava me fez sentir que existe chance, só que isso aconteceu nos meus pensamentos, porque na sua realidade, na sua realidade, você nunca me escolheu, ainda bem que tive as ametistas que guardaram meus segredos, e as obsidianas beberam minhas lágrimas, Saturno, velho sacerdote do tempo, escreveu meu nome nos anéis do esquecimento, eu conversava com estrelas adormecidas, pedindo que levassem até você as cartas que nunca tive coragem de enviar, que falei pro vento sopra, mas os meteoros retornaram vazios, trazendo apenas poeira e inverno onde era mais frio que Urano, no templo das coisas impossíveis, acendi velas feitas de auroras, e cada chama dizia teu nome como se amar fosse uma espécie de feitiço capaz de dobrar o destino.
Talvez eu tenha sido oceano para quem precisava apenas de chuva
Talvez eu tenha sido eclipse para quem procurava somente a luz
Talvez eu tenha sido fogo pra quem precisava de água
Talvez eu tenha sido inverno pra quem precisava do verão
E mesmo assim, dividi meu céu, minhas estrelas, meus desertos e meus marés, carreguei tua ausência como quem carrega uma constelação inteira nos braços.
Por que a minha dor é a sua dor, e a sua dor se tornou minha dor, mas somente dentro do universo que criei, porque no mundo onde as horas respiram, onde as pessoas fazem escolhas e os dias seguem seu curso, você caminhou por outra estrada e eu fiquei entre planetas partidos, em eras de histórias que já foram contadas, entre pedras antigas e luas sem nome, aprendendo que algumas almas se encontram apenas para morar nos sonhos.
Talvez, em algum horizonte distante, eu descubra que o amor não era pesado e sim leve por inteiro, enquanto o céu contempla mais uma vez o meu jardim florescer lentamente.
*Poema maluco do cotidiano*
Existem mais aviões no fundo do mar
do que navios no céu.
E existem mais planos na minha gaveta
do que coragem na segunda-feira.
Existem mais "depois eu vejo" no WhatsApp
do que respostas na hora.
Existem mais metas em janeiro
do que academia em fevereiro.
Existem mais café esfriando na mesa
do que tempo pra terminar ele.
Existem mais prints que nunca mando
do que conversas que realmente começo.
Existem mais aviões no fundo do mar
do que navios no céu.
E existem mais sonhos pousados na gente
do que gente pousando nos próprios sonhos.
(Saul Beleza)
*"O tempo do perdão"*
Algumas traições vão tão fundo
que o perdão deixa de existir como opção.
Hoje.
Mas o tempo é rio, e rio não para.
Ele leva, ele lava, ele transforma pedra em areia.
Essa dor que agora pesa e sufoca
um dia vai ficar menor.
Não porque esqueceu.
Mas porque você ficou maior que ela.
E o perdão...
o perdão pode caber a qualquer momento.
Não por ele.
Por você.
Quando o peito cansar de carregar
e quiser espaço pra respirar de novo.
(Saul Beleza)
Só os que nunca estiveram no Fundo do Poço conseguem Relativizar ou Brincar com situações tão Espinhosas.
Há dores que não cabem em estatísticas, frases de efeito ou conselhos à pronta entrega.
Existem experiências que transformam a forma como enxergamos o mundo e deixam marcas invisíveis que apenas quem as carrega consegue compreender plenamente.
O fundo do poço não é apenas um lugar de sofrimento; é um estado no qual a esperança parece distante, os recursos se esgotam e cada dia se torna uma batalha silenciosa.
Por isso, muitas vezes, quem observa de fora tende a minimizar aquilo que nunca precisou enfrentar.
Não por maldade necessariamente, mas pela limitação natural de quem conhece a tempestade apenas pela descrição de terceiros.
É muito fácil relativizar a dor quando ela não atravessa a própria pele.
É simples transformar em brincadeira aquilo que nunca roubou o sono, a dignidade ou a paz de alguém.
A empatia verdadeira nasce quando reconhecemos que nem toda experiência pode ser medida pelos nossos parâmetros.
O que parece exagero para um pode ser uma ferida ainda aberta para outro.
O que soa como fraqueza aos olhos de alguns pode representar uma coragem imensa para quem precisou sobreviver a dias que pareciam impossíveis.
Talvez a maturidade não esteja em julgar a intensidade da dor alheia, mas em respeitá-la.
Em compreender que cada pessoa trava batalhas que nem sempre são visíveis.
E que, antes de oferecer uma opinião apressada ou uma piada inconveniente, vale lembrar que existem abismos emocionais que só quem já esteve lá — conhece de verdade.
Afinal, quem já visitou o fundo do poço dificilmente faz pouco caso da queda de alguém.
Porque aprendeu, da forma mais dura, que nenhuma dor merece ser ridicularizada e que, às vezes, a maior demonstração de humanidade não é ter a resposta certa, mas simplesmente estender a mão e compreender em silêncio.
São Jorge da Capadócia,
sozinho derrotaste o dragão,
Peço do fundo do coração
que de uma vez por todas
ajude a terminar com a ocupação
nos Territórios Palestinos,
para que o povo desfrute da pacificação.
O Tucano-de-bico-preto
parou, olhou no fundo
dos meus olhos e contou
para mim um segredo
para do amor eu não ter
nesta vida nenhum medo.
