Fuga
Quando conhecemos algumas pessoas deveríamos conhecer alguma rota de fuga ou passagem secreta para sair da vida delas sem ser tão visíveis.
Ultimamente ninguém quer arrumar a bagunça que faz, bagunçam a vida da gente invadem-se, numa fuga fugas.
O amor é um cavalo xucro, selvagem, ferido, em fuga. Não teme o outro, teme ser preso. Mas o amor verdadeiro chega sem rédeas, espera em silêncio, acolhe sem moldar. E o cavalo, enfim, permanece. Não porque foi domado, mas porque, livre, escolheu confiar, escolheu ficar.
Eu vejo o mundo cair.
De onde irei partir?
Eu vejo o mundo girar.
Aonde irei parar?
Eu vejo o mundo ruir.
Para onde irei fugir?
Eu pressinto a morte chegar.
Como irei escapar?
As estações mudaram e nosso amor esfriou
Alimentamos a chama porque não conseguimos abrir mão disso
Fugimos, só que estamos correndo em círculos
No fim eu era infantil.
E já estava na hora de abandonar isso, o tempo passa, a vida pede para que nos tornemos pessoas maduras.
A vida pede.
As pessoas pedem.
E chega um momento em que a vida exige.
As pessoas exigem.
Então eu começo a me questionar.
Questionar e questionar.
Essa infantilidade faz parte de quem eu sou?
Faz parte dessa parte não aceitar isso?
Eu peço.
Eu exijo.
É difícil passar pelas portas desse caminho estreito, então estou parada sobre ela.
Parada no meio do caminho.
Eu peço.
Eu exijo.
Caminhe!
Meus pés não se movem, então peço mais uma vez.
Caminhe!
E continuo na mesma.
Já que a passagem está bloqueada, acabo saindo da porta e retornando ao conforto da casa.
Retorno ao conforto das paredes coloridas e me deito na cama.
-Há um jeito de passar?
Enquanto estiver próxima a essas paredes, essa pergunta não será levada a sério.
Então,
Eu peço!
Eu imploro!
Alguém me tire daqui!
Mesmo que eu me isole do mundo, ainda assim terei problemas pela frente para resolver. Ninguém pode fugir de problemas, nem evitá-los.
Os lugares onde se esconder são numerosos, mas só há uma saída, embora as possibilidades de escapar outra vez sejam tantas quantos os lugares onde se esconder.
Ando me desinteressando pela indisponibilidade gratuita das pessoas, pela morosidade de entender o que é tão óbvio e pelo conformismo de certas conjunturas. Esse estado morno é tão vago e cinza. Logo eu que clamo pelo colorido, preto & branco ou por algum grito que valha o esforço. Eu poderia ficar e tentar entender o motivo desses passos tão lentos e o porquê dessa honraria ao passado. Mas acontece que eu também me canso de decorar os ambientes com tantas cores e afetos enquanto me indicam todos as placas de saída.
Encontro-me assim, ainda sonolenta: na rota de fuga à esquerda, correndo apressada e gritando bom dia!
Existem sim homens maus, perversos, que sentem prazer em ver o outro ser prejudicado. Isso quando eles próprios não traçam planos para destruir os planos e sonhos de outrem. São como psicopatas que introduzem a lâmina afiada no coração de alguém e remexe como quem tem um orgasmo. Se comprazem em provocar a dor e a desgraça alheia. Diante de pessoas assim, só existem duas saídas: ou um enfrentamento suficiente para derrubar e aniquilar definitivamente a ação ofensiva contra nós, ou simplesmente fugir e sair do alcance desta pessoa. A segunda opção costuma trazer paz mais rápido. Não por acaso o Nazareno nos recomendou essa opção.
Quanto mais nós procuramos o prazer, mais ele nos foge. Quanto mais a gente foge da dor, mais ela consegue nos alcançar. A morte faz parte da vida. Tentar negar a morte não impede que ela chegue. Isso faz com que a morte seja dolorosa.
Fugir era que nem morrer, só que pior, porque na morte a pessoa vai embora sem saber, e não pode se despedir. Mas na fuga a pessoa sabe que está indo embora, e nem se importa em dizer adeus.
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