Frases da Seca do Nordeste
Nada
Adoro fazer nada. Quando nada faço sou indesejável. Nesse instante é o que faço, nada. O nada parece torna-se impuro. Como pode alguém não fazer nada? Eu posso. Acanho-me e ruborizo quando sou elogiada de malandra, folgada, não tenho apreço por elogios. Essa timidez ainda me mata.
Degrau a degrau
Eu nunca tive pressa,
nunca corri,
sempre andei
com os meus passos curtos e lentos,
e nessa minha constância
sempre consegui fincar a minha bandeira
no topo das mais altas
montanhas.
Toque
Um hangout ao alcance de um clique
Um contato na lista que os olhos não piscam
Uma vontade de falar que desequilibra
Um medo generalizado de dar o grito
E assim se sacrifica
Enche o raio do saco e
Desliga.
Mal resolvido
Cinismo
sintoma
sinistro
Simbiose
situacionista
sadista
Sabatina
subestima
o sado machista
Breu
Desiludi as brancas folhas
gastei tinta
foi apenas premonição
os oráculos não respondiam
foram-se as folhas
foi-se a tinta
não havia inspiração.
Visitou um corpo
como quem mergulha num mar revolto
Sobe até o espelho d'água, inspira e desce
com a sensação de afogamento
Permanece por algum tempo
no recursivo procedimento
Sentindo-se satisfeito, já esgotado
abandona o corpo nu.
Essencial
Seu moço,
você não gosta da semideusa
observe quem você ama
a deusa seminua
que toda a gente aclama
Você alcoviteiro perverso
nem se ressente
inevitavelmente, conivente.
O vazio do Jeca
Vai lá neguinha
esquentar os pezinhos
é a estação mais propícia
para tomar chá e tirar a cortiça
Vai lá neguinha
seja ao menos coadjuvante
para esse triste cenário
solitário, invernal
leve o seu calor no abraço
nem só de outono
vivem os palhaços.
Carnaval 2016
Carnaval, eita! como é bom
Samba no pé, pele suada
a rua, um cabaré
Eita!... como é bom
de um lado um beijo molhado
do outro, um desejo danado
e o coração zabumba bumba
no ritmo da canção
Eita! carnaval
overdose de pulsação.
Na primeira oportunidade que tive em ter
segurei e tive
Tivesse tido antes, teria tido ainda mais que tive
Cultive o que sobrou daquilo que não obtive
me contive.
Pira
Pirado pela pira, suspira
Olhos fitos na pira
Deslumbrado, alucinado
pelo brilho da pira, pira
nem a pira na verga
verga o caipira
desvairado, deu o pira.
Astúcia 2001
O meu sentimento acabou
quando arremessei o cinzeiro de vidro
com veemência ao chão, estilhaçado
os cacos resvalaram em direção à janela
abrindo uma larga fenda
por onde escapou a minha dor.
Indício
Escrevo poesias sinistras
Para muitos sem sentido
Declamadas em falsete
Desespera o celerado.
Útil
Não sofra se uma dia compreender
o quanto é manipulado e usado
Absorva como mérito
por ser um idiota útil
A maioria dos seres humanos são idiotas
e passam a suas vidas
sem nada prover.
Desgarrada
Observa como ela passa desatenta
sem pressa, sem lugar
vai, segue indo
É tudo lindo?
Já não vê
está sem rumo
não sente a vida
não tem destino.
Início do fim
Ah! Se você soubesse
se tivesse consciência
se entendesse
e não se fechasse à realidade
compreenderia que se abrisse a sua porta
encontraria a relva verde
veria a delicada flor orvalhada
exalando o puro perfume
no amanhecer do dia
do resto da sua vida.
Poesia-me,
mesmo sendo xucro
ludibriado pelo sonho roto
transcreva, que seja escroto
abduzido e saudoso
meio vivo, meio fogoso
poesia-me.
Suplício
O seu pensamento me apavora
Paralisa o coração
Cabisbaixa vou passando
De soslaio miro os cantos
Com os nervos contraídos
Pulsa o pulso por clemência
Insuportável malevolência.
Infrassom
Se existe silêncio?
Sim, existe à boca fechada
na taciturnidade dos atos
E quanto ao silêncio da alma?
Quem pode responder?
O vento, no sutil movimento
desnudando a mudez
ao eriçar os pelos
da sua cútis rosada.
