Ana Clara Moura- kk: Incredulidade quanto ao outro é uma...

Incredulidade quanto ao outro é uma virtude desnecessária aos fracos, hesitar seus gestos amistosos é mais que individualidade, é sinceridade frente ao sentimento universal: medo.
Tema o que não é só seu, o que de alguma forma, direta ou indiretamente, dependerá do outro. Pense e certifique-se de que só há uma certeza- o outro é pura incerteza. Ele é o lado preguiçoso do seu eu, o lado que não se preocupa com você, o lado que não atingirá ele. Justifique-se ao mundo? Não espere que o questionador irá ouvir sua resposta. A pergunta é a resposta de que ele já tem a resposta. Você não acreditará no próximo, quem irá acreditar em você? Eu? Despedacei minhas crenças no momento que comecei a redigir esse parágrafo. Jogarei ao terminá-lo. Sou pobre criatura, direcionada em um caminho sem direção. Cega pelos rumores de que há sentimento dentro da podridão humana. Cérebro é um canal que se assemelha ao intestino grosso. Mensagens , pensamentos são excretos que o homem começou a valorizar com a genialidade de outros frente a invenção de máquinas, criou-se tempo. Tempo para ser desperdiçado. Tempo que o ócio criativo é fachada. Sejamos honestos, se isso for possível, nascemos para saber, ou para desconhecer? Quanto mais penso que sei, mais me distancio do que é real, puro e concreto. O ser humano seco, bêbado, se tornou mais interessante, mais sábio, menos tedioso. Sou uma divindade ao mesmo tempo que não sou interessante. O que resta da minha sabedoria universal? Medo. Minha identidade se perdeu frente ao certificado de postura e ética humana. Enquanto anulei as verdades do meu eu, fui imaginando que seria recompensada pela cegueira do homem. Perdi a minha identidade a troco de nada, esmolas que nem beiram a compaixão. Sou odiada pela minha própria alma, se a tenho, sei que essa se encontra a beira de um colapso nervoso, cansada da minha mudança de humor, eu, sociedade, eu, sociedade. Me considere anulada, apolar, neutra quando eu deveria reinar sobre eu mesma. Me vangloriando e me amando como uma verdadeira narcisista. Mas eu decidi esperar o elogio de quem nunca me enxergará como ser humano necessitado de elogios. Pobre eu. Menos narcisista do que nunca. Mais precária do que os pobres humanos. Se não fosse humana diria que as pessoas mudaram o seu curso de vida porque foram submetidas ao que elas nunca viram- amores, paixões, desejos. Mas sei que isso foi livre arbítrio. Cansei das minhas paixões, se não sou apaixonada por mim mesma, não quero dar ao outro a sensação do que não tive. Veja minhas lágrimas, eu sei que não vê. Sinta minhas lágrimas, eu sei que não sente. Mas eu sinto que estou desmembrando, aos poucos vejo que não tem saída para um planeta veiculado ao dinheiro. Pago minhas contas só para não precisar receber uma ligação. Se eu pudesse receber uma ligação do outro planeta, eu pediria que eles se informassem mais e se desenvolvessem em um pequeno período para eu ter a opção de apertar o número 1 e começar uma vida nova. Uma vida que mereça ter nome próprio. Eu não tenho nome próprio. Eu tenho identificação. Desde pequena me perguntam o que eu queria ser... agora eu não sei o que fui. O que vou ser. E se vou ser. Pra que tanta pressa pra chegar, sendo que a pressa só atrasa e impede que você chegue. Se hoje não sei mais o que sou, é porque procurei cedo demais quem eu era, e me perdi. Enquanto poderia desenvolver... procurei saber. Quem sabe demais, nada sabe. Quem tem demais, nada tem. Eu não sei e não tenho. Pobre criatura. Pobre alma. Tomo café de ousada. Tomo café para estar atenta a um mundo em que ninguém sabe da minha existência. Prove a minha existência que eu irei provar que você se esqueceu de comprovar a sua. E você desistirá de mim. Certo de que você é mais importante. Claro que é. Mas para mim você não possui sentimentos. Para você eu não os possuo. Somos seres que anulamos a existência dos outros. E ainda procuramos pela resposta de uma pergunta tão óbvia: Por que há solidão? Solidifique-se de que só há conjunto quando considera-se o elemento. Eu não te considero. E será difícil passar a te considerar. Antes de te considerar preciso ser considerada. Hoje não se dá nada de graça. Ingenuidade passou a ser bestagem, feiúra, burrice. Portanto, a ingenuidade deixou de existir. E a solidão passou a intervir nas nossas vidas. Antes vida. Hoje hibernação.

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Inserida por kkzinhagbi