A PESSOA POR TRÁS DAS PALAVRAS Talvez... Mannu Viana Rios

A PESSOA POR TRÁS DAS PALAVRAS


Talvez você nunca tenha percebido...


mas tudo o que escrevo acaba falando um pouco sobre mim.


Eu sou assim.


Reparo no que quase ninguém percebe.
Guardo palavras, olhares, silêncios, horários e pequenos gestos.


Transformo momentos em lembranças
e lembranças em versos.


Eu gosto do que tem significado escondido.


Um lírio pode ser mais do que uma flor.
4:47 pode ser mais do que uma hora.
Marte pode ser mais do que um planeta.
O escuro pode revelar mais do que a luz.


E o mar pode, quem sabe, aprender um nome.


Eu gosto de transformar coisas comuns em segredos.


Talvez essa seja uma das características mais bonitas —
e também mais perigosas — em mim: eu sinto os detalhes.


Tenho dentro de mim uma espécie de universo particular,
onde sentimentos ganham nomes,
perfumes ganham sabores,
pessoas viram constelações
e momentos pequenos demais para serem explicados
se tornam enormes dentro de uma página.


No fundo, acho que escrevo para não deixar certas coisas morrerem.


Para guardar aquilo que talvez o tempo tente apagar.


E se um dia alguém quiser realmente me conhecer,
talvez não precise me fazer tantas perguntas.


Talvez só precise ler aquilo que escrevi.


Porque entre um verso e outro,
entre o mar e Marte,
entre a maresia e o silêncio,
existe uma versão minha que quase ninguém conhece.


Uma versão que sente profundamente.
Que observa demais.
Que guarda demais.
Que ama as pequenas coisas.
Que encontra significado onde outros enxergam apenas acaso.


E talvez exista uma coisa que eu nunca tenha dito
com todas as letras.


Então vou dizer agora:


Eu te desafio a me amar.


Não pelo que eu sou.


Não pelo que você imagina que eu seja.


Não pelas palavras bonitas que escrevo.


Mas pelo que você sente quando está comigo.


Porque talvez seja aí que eu realmente esteja.


Não nos versos.


Não nas metáforas.


Não nas páginas.


Mas naquela sensação que fica quando estamos perto,
naquilo que você não consegue explicar,
mas também não consegue ignorar.


E se algum dia você conseguir descobrir quem sou
por trás de tudo aquilo que escrevo...


talvez entenda.


Eu não transformo qualquer coisa em poesia.


Quando algo — ou alguém — realmente importa...


eu não simplesmente passo por isso.


Eu transformo em poesia.