Que ligação? Meu telefone só... Alessandro Teodoro

Que ligação?
Meu
telefone
só recebe Pix.
Talvez essa seja uma das frases mais sinceras dos nossos tempos.
O telefone, que um dia serviu para aproximar pessoas, ouvir a voz de quem estava do outro lado e perguntar, simplesmente, “como vai você?”, hoje parece ter adquirido uma nova função: lembrar que tudo tem preço.
Já não esperamos tanto por uma ligação de alguém que sente saudade.
Esperamos o aviso de transferência.
Não perguntamos “você chegou bem?”.
Perguntamos: “Caiu na conta?”.
E, entre uma notificação e outra, vamos confundindo presença com pagamento, afeto com conveniência e amizade com utilidade.
O problema não é o Pix.
Até então, ele é uma das sete maravilhas do país, quiçá do mundo.
O problema é quando ele passa a ser a única linguagem que ainda entendemos.
Vivemos conectados a milhares de pessoas e, paradoxalmente, cada vez mais distantes delas.
Temos aplicativos para conversar…
Chamadas de vídeo, mensagens instantâneas, redes sociais e toda sorte de tecnologia necessária para diminuir distâncias.
Mas, às vezes, falta justamente aquilo que nenhuma tecnologia consegue transferir: tempo, atenção, escuta e afeto.
Talvez o telefone continue recebendo ligações.
Nós é que desaprendemos a atendê-las.
E talvez seja hora de perguntar, antes de olhar para a tela: quem está tentando falar comigo — e por que eu só me lembro de ouvir quando há alguma coisa para receber?
