O sofrimento é o fermento do... Carloseduardobalcarse
O sofrimento é o fermento do crescimento
Há dores que doem.
E há dores que desdoem.
Desdoem porque, enquanto doem, retiram de nós aquilo que talvez nunca tivéssemos coragem de retirar por vontade própria.
Estranho?
Talvez.
Mas a vida é estranha justamente porque, muitas vezes, aquilo que pensamos estar nos destruindo está destruindo apenas aquilo que precisava deixar de existir em nós.
Costumamos perguntar:
“Por que estou sofrendo?”
Talvez devêssemos inverter a pergunta:
“O que em mim está sofrendo?”
Parece a mesma pergunta.
Não é.
Uma procura a causa da dor.
A outra procura quem somos dentro dela.
E talvez seja aí que começa o crescimento.
Sempre digo:
“O sofrimento é o fermento do crescimento.”
Mas fermento algum aumenta aquilo que não existe.
É preciso haver massa.
E talvez a grande questão não seja o tamanho do sofrimento que colocaram em nossa vida, mas o que fazemos com aquilo que a vida colocou dentro de nós.
Porque sofrer não significa crescer.
Há quem sofra e cresça.
Há quem sofra e endureça.
Há quem sofra e aprenda.
Há quem sofra e apenas aprenda a sofrer.
Portanto, a dor não ensina necessariamente.
A consciência da dor é que pode transformar sofrimento em ensinamento.
E aqui está o paradoxo:
Queremos uma vida sem sofrimento, mas desejamos a profundidade que, muitas vezes, somente adquirimos depois dele.
Queremos maturidade sem maturação.
Consciência sem confronto.
Sabedoria sem dúvida.
Crescimento sem fermento.
Queremos nos tornar grandes permanecendo exatamente do tamanho que somos.
Mas como?
Talvez por isso eu diga que “a vida é a eterna escola da alma.”
Nessa escola, algumas das aulas que mais ensinam são justamente aquelas às quais jamais nos matricularíamos voluntariamente.
Perdas.
Fracassos.
Ausências.
Decepções.
Rejeições.
Solidão.
O problema é que confundimos sofrimento com sentença, quando ele pode ser interrogação.
A dor pergunta.
Nós é que frequentemente respondemos apenas sofrendo.
E sofrer o sofrimento é sofrer duas vezes: primeiro pelo que aconteceu; depois pela resistência em aceitar que aconteceu.
Não significa gostar da dor.
Não significa romantizar tragédias.
Há sofrimentos injustos, desnecessários e devastadores.
Significa apenas compreender que, depois que determinada dor entrou em nossa história, existe uma escolha que ainda nos pertence:
permitir que ela seja apenas uma ferida ou transformá-la também em uma abertura.
Porque algumas feridas fecham.
Outras abrem os olhos.
E talvez exista gente com os olhos fechados justamente porque nunca permitiu que suas feridas abrissem sua consciência.
Afinal, “a mente mente e o discernimento desmente.”
A mente diz:
“Acabou.”
O discernimento pergunta:
“Acabou o quê?”
A mente diz:
“Eu perdi.”
O discernimento pergunta:
“Você perdeu ou foi libertado daquilo que já havia perdido você?”
A mente diz:
“Minha vida deu errado.”
E a consciência talvez responda:
“Ou foi o seu conceito de vida certa que deu errado?”
Percebe?
Talvez o sofrimento não destrua apenas certezas.
Talvez ele revele que algumas de nossas certezas já estavam destruindo a gente.
É por isso que “o senso comum comumente mente.”
Ensinaram-nos que felicidade significa ausência de problemas.
Então passamos a vida tentando eliminar tudo aquilo que nos incomoda.
Mas uma vida completamente confortável produziria necessariamente uma consciência confortável?
E uma consciência confortável teria algum motivo para sair do lugar?
Talvez não.
Porque o conforto acomoda.
E aquilo que acomoda, às vezes, incomoda menos justamente porque transforma menos.
Não estou dizendo que precisamos procurar sofrimento.
A vida é suficientemente competente para encontrá-lo por nós.
Estou dizendo outra coisa:
quando ele chegar, não desperdice a dor.
Se vai doer, que revele.
Se vai ferir, que ensine.
Se vai derrubar, que derrube também alguma ilusão.
Se vai tirar alguma coisa de você, que leve junto aquilo que já não deveria permanecer.
Porque “somente seguimos em frente quando enfrentamos de frente.”
Talvez crescer seja exatamente isso:
não sair intacto.
Sair inteiro.
Porque intacto é aquilo que não foi tocado.
Inteiro é aquilo que, mesmo tocado, ferido, quebrado e reconstruído, conseguiu não se perder de si.
E aqui mora outro paradoxo:
Às vezes, precisamos nos quebrar para descobrir quais pedaços nunca foram nossos.
Crenças que herdamos.
Medos que aprendemos.
Culpas que carregamos.
Personagens que interpretamos.
Expectativas que os outros colocaram sobre nós e que passamos a chamar de “eu”.
Então talvez algumas dores não estejam quebrando você.
Talvez estejam quebrando aquilo que você acreditava ser você.
E se for assim?
Quem sobra quando aquilo que você pensava ser você deixa de existir?
Talvez você.
Por isso, “ninguém poderá te defender de você mesmo.”
Nem todo sofrimento produz crescimento.
Mas todo sofrimento pode nos colocar diante de uma escolha:
fermentar ou ferir.
E talvez até essa oposição esteja errada.
Porque algumas coisas precisam ferir para fermentar.
O sofrimento é o fermento do crescimento.
Mas atenção:
fermento faz crescer a massa.
Portanto, talvez a pergunta final não seja:
“Quanto eu sofri?”
A pergunta é muito mais desconfortável:
“O que cresceu em mim depois que eu sofri?”
Se cresceu a raiva, o sofrimento fermentou a raiva.
Se cresceu o medo, fermentou o medo.
Se cresceu a amargura, fermentou a amargura.
Mas se cresceram consciência, discernimento, humanidade, sabedoria e capacidade de amar…
então talvez finalmente compreendamos:
não é o sofrimento que determina o crescimento.
É aquilo que permitimos que o sofrimento faça crescer dentro de nós.
Porque até o fermento precisa encontrar alguma coisa para fermentar.
E talvez esta seja a parte mais incômoda de todas:
o sofrimento pode ser inevitável.
O que ele fará crescer em nós, não.
Carlos Eduardo Balcarse
2 de setembro de 2026
