A parte mais bonita de mim. Eu não sei... Gabriel Parice Lopes
a parte mais bonita de mim.
Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois na falta que fazia quando não estava, até chegar ao ponto em que já não era possível distinguir saudade de vontade, lembrança de esperança, passado de alguma coisa que ainda insistia em nascer.
Existem amores que chegam como tempestade. O nosso nunca me pareceu assim.
O nosso sempre teve mais a ver com a luz entrando devagar pela janela de manhã, com aquela paz estranha de encontrar alguém e sentir que, por alguns minutos, o mundo finalmente parou de exigir alguma coisa. Você tinha esse efeito sobre mim. Não precisava fazer nada extraordinário. Bastava existir perto o suficiente para que as coisas comuns ganhassem outro tipo de beleza.
É o que mais me assusta.
Porque eu poderia esquecer uma conversa, uma data, uma tarde específica. Poderia até tentar convencer a memória de que determinados momentos não foram tão importantes assim. Mas como se esquece a sensação de ter encontrado alguém diante de quem a própria alma parecia descansar?
Eu te amo também nas pequenas coisas.
No silêncio que não precisava ser preenchido. No jeito como eu imaginava seus olhos encontrando os meus depois de um dia difícil. Na vontade de te contar alguma coisa quando acontecia, mesmo que fosse absolutamente insignificante. No desejo de dividir contigo não apenas as grandes conquistas, mas também as partes mais complicadas da vida, o cansaço, a preguiça, uma música, uma rua bonita, uma noite qualquer.
Porque amar você nunca foi somente querer você.
Foi querer a vida quando ela tinha você dentro.
E talvez por isso tenha existido tanta gratidão.
Gratidão por ter conhecido uma pessoa capaz de despertar em mim uma ternura que eu nem sabia que ainda possuía. Gratidão pelos momentos em que o mundo parecia pequeno o bastante para caber entre duas pessoas. Gratidão por cada instante em que eu olhei para você e pensei, quase sem perceber como pode alguém ser tão bonita quando simplesmente está sendo ela mesma?
Eu não precisava de uma versão perfeita sua.
Nunca precisei.
Queria que você se enxergasse pelos meus olhos...
Queria justamente aquilo que não podia ser ensaiado, seus defeitos, suas contradições, seus dias bons e seus dias difíceis, o que você escondia e o que deixava escapar sem perceber. Queria conhecer aquilo que existia por trás daquilo que todo mundo conseguia enxergar.
Porque há uma intimidade maior do que tocar alguém.
É ser autorizado a conhecer seus lugares inacessíveis.
E eu teria ficado ali.
Mesmo quando você não soubesse o que dizer. Mesmo quando o mundo pesasse demais. Mesmo quando você duvidasse de si. Eu teria querido ser aquela presença que não exige que você seja forte o tempo inteiro. Aquela espécie de abrigo silencioso onde você pudesse simplesmente existir.
A fita de amar alguém é isso, olhar para uma pessoa e, em vez de desejar que ela se torne aquilo que você imaginou, desejar que ela tenha liberdade suficiente para continuar sendo aquilo que é.
E ainda assim permanecer.
Ainda assim escolher.
Ainda assim olhar.
Porque algumas pessoas não são apenas desejadas. São reconhecidas.
Como se alguma parte nossa dissesse, antes mesmo que a razão consiga explicar, é você.
E eu reconheci você.
Reconheci na primeira vez e reconheceria em outras vidas, em outras cidades, em outros nomes, sob outras versões de nós mesmos. Reconheceria sua maneira de existir mesmo que tudo ao redor mudasse. Talvez porque certas coisas não sejam guardadas pela memória, mas por uma região muito mais profunda da gente.
Por isso, se um dia tudo aquilo que fomos virar apenas uma lembrança distante, eu ainda vou considerar bonito o fato de ter existido.
Não porque tenha sido perfeito.
Mas porque foi verdadeiro enquanto aconteceu.
E se o amor tiver mesmo alguma forma de eternidade, talvez ela não esteja em permanecer para sempre ao lado de alguém. Talvez esteja em conseguir carregar uma pessoa dentro de si sem precisar aprisioná-la.
Então eu não quero transformar o que senti em posse.
Quero transformar em permanência.
Daquelas que não fazem barulho.
Que continuam existindo numa música qualquer, numa noite silenciosa, numa lua cheia, numa vontade repentina de olhar para o céu e lembrar que, em algum lugar do mundo, alguém já fez você enxergar beleza onde antes havia apenas escuridão.
E se algum dia você se perguntar se foi amada de verdade, espero que a resposta encontre você antes mesmo da pergunta terminar.
Porque houve alguém que olhou para você e não viu apenas uma pessoa bonita.
Viu casa.
Viu oceano.
Viu a parte mais delicada de si mesmo refletida em outros olhos.
E, por um instante raro e inexplicável, teve a sensação de que finalmente tinha encontrado aquilo que tantas músicas tentam descrever quando falam sobre amor.
Não tô falando do amor que grita.
Não tô falando do amor que prende.
Mas aquele que simplesmente olha para alguém e pensa
se for para existir alguma coisa bonita neste mundo, que seja o tempo que eu tiver ao seu lado.
