Por que é proibido pisar na grama?.... Gabriel Parice Lopes

por que é proibido pisar na grama?.


Talvez essa seja uma das proibições mais estranhas que inventamos.


Uma placa fincada no chão, algumas letras vermelhas dizendo “PROIBIDO PISAR NA GRAMA”, e de repente um pedaço de terra deixa de ser apenas terra. Aquele lugar que poderia ser atravessado vira fronteira. O caminho mais curto passa a ser o caminho errado. E ninguém precisa mais construir um muro, porque basta ensinar as pessoas a terem medo de ultrapassar uma linha que, na verdade, só existe porque alguém decidiu que ela deveria existir.

Vezes me pergunto se não fizemos o mesmo com certas pessoas.


Talvez você seja a minha grama.


Não porque exista alguma placa dizendo que não podemos nos encontrar, mas porque existem tantas pequenas proibições invisíveis entre nós. O que vão pensar? O que aconteceu antes? E se voltarmos para um lugar que doeu? E se as nossas vidas já tiverem seguido por caminhos que não combinam mais? E se aquilo que um dia foi tão bonito não couber mais nas pessoas que nos tornamos?


E então ficamos parados na calçada.


Olhando.


Tão perto.


Com vontade de atravessar.


Mas esperando alguém nos dizer que pode.


É curioso como a gente aprende a obedecer antes mesmo de entender a regra. A gente cresce acreditando que algumas coisas simplesmente não podem ser feitas. Que certas portas não devem ser abertas novamente. Que alguns lugares pertencem ao passado. Que determinadas pessoas precisam permanecer onde as deixamos, mesmo quando alguma coisa dentro da gente ainda reconhece o caminho até elas de olhos fechados.


Mas quem decidiu isso?


Quem disse que a felicidade precisa pedir autorização?


Quem determinou onde eu posso pisar para viver aquilo que sinto?


E, principalmente, por que eu deveria ter medo de uma placa colocada por alguém que nunca sentiu o que eu senti?


Talvez seja esse o maior problema da vida confundimos limite com verdade.


Nem tudo que nos disseram que era proibido realmente era.


As vezes era apenas perigoso. As vezes era apenas difícil. As vezes alguém antes de nós se machucou naquele mesmo lugar e, por isso, decidiu que ninguém mais deveria pisar ali.


Mas a grama continuou crescendo.


Verde, silenciosa, bonita.


Como se não soubesse que alguém havia transformado aquele pedaço de mundo em território proibido.


E talvez seja isso que mais me incomode.


Porque a grama não tem culpa da história que aconteceu sobre ela.


Ela não sabe das nossas dores antigas. Não sabe dos erros, das despedidas, das coisas que não foram ditas. Não sabe quem éramos quando estivemos ali pela primeira vez. Ela só continua crescendo no mesmo lugar, esperando que algum dia alguém tenha coragem de atravessá-la novamente.


E talvez nós sejamos exatamente isso.


Duas pessoas olhando para o mesmo lugar onde um dia foram felizes, com medo de descobrir que ainda existe alguma coisa ali.


Com medo de pisar.


Com medo de lembrar.


Com medo de não sentir nada.


Com medo de sentir tudo.


Talvez exista uma vida inteira entre uma calçada e outra. Uma nova versão de mim. Uma nova versão de você. Outras pessoas, outras histórias, outras cicatrizes. Talvez nossas vidas já não se encaixem como antes. Talvez não exista mais espaço para aquilo que fomos.


Mas e se existir?


E se a gente estiver deixando uma possibilidade morrer apenas porque alguém nos ensinou que voltar é sempre um erro?


Eu não quero romantizar aquilo que machucou. Não quero fingir que o passado não existiu. Não quero apagar as consequências das coisas que fizemos ou das coisas que fizeram conosco.


Só não quero transformar o passado em uma sentença.


Porque existe uma diferença enorme entre voltar para o passado e reencontrar alguém que também conseguiu sair dele.


Talvez pisar na grama não seja esquecer a placa.


Talvez seja simplesmente entender que ela nunca teve autoridade sobre os nossos sentimentos.


E talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele lugar.


Porque a grama é bonita.


Porque foi ali que alguma parte da nossa história aconteceu.


Porque, entre tantos lugares possíveis no mundo, foi justamente aquele que nos encontrou.


E talvez ela seja sagrada não porque ninguém possa pisar nela, mas porque foi testemunha de algo que ninguém mais viu.


Então, por que é proibido pisar na grama?


Talvez porque alguém tenha medo de que ela seja destruída.


Talvez porque seja mais fácil proteger alguma coisa mantendo todos afastados do que permitir que alguém descubra como caminhar sobre ela sem machucá-la.


Mas eu não sei se quero viver assim.


Não quero passar a vida inteira olhando para lugares onde poderia estar.


Não quero deixar que o medo dos outros escolha o caminho dos meus pés.


Se eu sentir vontade de atravessar, talvez eu atravesse.


Não porque tenha certeza de que do outro lado existe felicidade.


Mas porque, pela primeira vez, quero que a escolha seja minha.


E se você estiver do outro lado da grama, talvez eu não precise prometer que tudo será como antes.


Talvez eu só precise perguntar:


você ainda quer caminhar comigo?


Porque talvez liberdade seja isso.


Não fazer tudo que queremos sem consequências.


Mas ter coragem de escolher aquilo que queremos, mesmo sabendo que algumas escolhas podem nos assustar.


E talvez amor seja ainda mais simples.


É olhar para uma placa dizendo “proibido pisar na grama”, olhar para a pessoa que você ama do outro lado e finalmente perceber que algumas regras foram feitas para manter desconhecidos separados.


Não pessoas que ainda se reconhecem.


E então, por um instante, antes de pensar no passado, no julgamento, no medo ou na vida que mudou, existe apenas a grama entre nós.


Verde.


Linda.


Intocada.


Esperando.


E talvez tudo o que sempre quiséssemos fosse descobrir se ainda existe um caminho entre duas pessoas quando ninguém mais está dizendo onde elas podem pisar.